quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Mansidões...

Amor, escrevo carta para lhe avisar que estou perdendo minhas habituais razões. A lucidez se percebe como chama quase dormida de vela em quarto imenso de mim. Ando perdendo certezas como um corpo perde os pés nas fundas águas. Doutor me disse que ando sofrendo de inexatidão e mansidões por causa de amor incompleto. A metade que me preenche, tomba-me para o lado dos severos sintomas da paixão. Explico. Pelas demoras interiores, sabemos nossos graus de febre e encantamento. Tenho piscado os olhos bem mais lentamente e respirado com bem mais atenção, para não perder detalhes da vida antes despercebidos, para não assustar com ligeiros movimentos qualquer singeleza pousada a minha volta, para saborear diminutas e instantâneas doçuras. Em mim pressa se amansou sem mesmo pedir: nítido sintoma de contentamento. Pois felicidade se sabe pela devagareza de nós. E pela demasia de amor que sofro, sinto movimentos como provocação. Saudade que sinto também agravou o quadro. Assim, ando a dissolver-me anestesiada e quieta. Tão quieta a invejar estátuas. Amor, é urgente que te encontre a salvar esta parte desenganada do tempo e da distância que mora em mim. Por isso lhe escrevo carta, para não me perder de vez. Pois se tardares mais, talvez eu seja qualquer outra que não eu. Enlouquecida, perderei a mim ganhando asas, diluída no firmamento. Depois do amor, seja o céu ou teu lençol, é nele em que me abrigo. Apenas e quando você passou a existir em mim, aprendi a desejar. Desejo então e agora que me salve do equilíbrio morno e da sobriedade cinza dos que não amam ou desamaram. Seu toque criou mundos e amores dentro de mim. Tua presença é o meu momento exato a me fazer colorida.

(Texto do meu livro "A Ilha de um homem só", publicado pela Ed. Penalux)

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