quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Casei-me...

Mulher, lembra-te do dia que a moça do caixa sorriu a dizer-nos que tu eras esposa atenciosa comigo enquanto colocávamos as compras no carrinho? Ali, casei-me contigo. Casei-me contigo quando decidiste perder o por do sol para ganhar o meu abraço. Quando tu choraste por medo de perder-me. Quando adotaste as borboletas como mensagem secreta de amor. Casei-me contigo ao final daquela noite por cantar versão engraçada de música antiga mas com meu nome. Casei-me contigo no primeiro silêncio nosso do café da manhã. Ao te farejar nos lençóis da minha cama, na toalha de banho, na blusa esquecida na cadeira. Quando pela primeira vez entrelaçaste tuas pernas nas minhas. Quando me vi a ligar-te de madrugada por conta e culpa das saudades. Casei-me contigo ao te ver a mulher mais linda pronta pra festa, e ao tornar-te ainda mais bela nua depois dela. Casei-me contigo ao lhe apresentar meu pior defeito e tu a fingir que nada viu. Casei-me contigo quando sentiste conhecer-me desde os eternos. Quando escolhemos não enjoarmos nunca do mesmo restaurante. Casei-me contigo ao ver tua roupa conquistando minhas gavetas. Ao ver a minha velha roupa conquistando teu corpo nos domingos. Casei-me contigo antes do primeiro sonho que te sonhei. Casei-me contigo depois do último. A primeira foto. O primeiro beijo. A primeira música. Casei-me contigo quando me flagrei chamando-te de poesia e musa. Quando percebi que havia aprendido a escrever apenas para encontrar-te. 

Casei-me contigo para assim te namorar para sempre.

(Texto do meu livro "Teoria Geral do Desassossego", publicado pela Ed. Penalux)