terça-feira, 29 de agosto de 2017

Vitrine...

Havia um medo de ser descoberta; de saber-se desmascarada pelo próprio reflexo; denunciada pela ocultação do cadáver do passado e do mau cheiro do que lhe era imperdoável. Havia o medo de que perdesse coerência e o controle; de que por detrás do medo se rebelassem sintomas e verdades. Abria mão da liberdade para mantê-los em cativeiro. Havia um medo a criar-lhe frustrações, boicotes e culpas por sentir-se sempre inexata e jamais se usar melhor. Um medo de reconhecer-se e humilhar-se exatamente por isto. Havia um medo de sofrer que a ela causava o sofrimento, evitando-se enquanto se desperdiçava; de ser massacrada pelo que continuamente ignorava e calava. Medo de que seus segredos fossem página de jornal; seus monstros, capas de revista; seus pecados e ressentimentos expostos na vitrine. Havia o medo de que não fosse amada como nunca soube (se) amar. Medo como um veneno a repetir-se diariamente entre os estragos e perdas que só ela enxergava. Um medo a diariamente diminui-la e diariamente sangrá-la e fazê-la desejar ser outra que não ela, a ser nova que não velha, a ser limpa que não suja e a renascer de vez, sem medos. Quem sabe.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Pergunta...

Eu enxergo futuros. Eu os encontro nas entrelinhas dos seus porquês; os reconheço entre os movimentos do seu corpo. O intervalo, a pulsação, os silêncios, o olhar, os suspiros te confessam. Eu enxergo futuros entre xícaras de café; entre as mágoas; entre os sonhos. Eu enxergo futuros porque te vejo dirigindo-se para lá. Adianta dizer-lhe de precipícios e erros? Adianta a preocupação e o prognóstico das misérias e reincidências? Solicita-me palavras para ocupar-se. Pede-me verdade como álibi para os seus enganos. Eu enxergo futuros mas não sei das respostas. Porque são nas perguntas que deveria se reconhecer: pela entonação dos medos, nas pausas da dúvida, na certeza do que não sabe e pelo que constrói exatamente por isto. Eu enxergo futuros porque vejo o invisível presente: este que busca fugir entre respostas, conselhos, fórmulas, ilusões, compulsões e demais anestesias. As mesmas que por tanto tempo bebi por saber-me cego e exigir-me outro.

Enxergar é uma difícil convocação para si mesmo.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Substituíveis...

Impressiona-me esta facilidade com que se troca de amor como quem troca de roupas. Dedicar-se ao outro nos permite enxergar; ao conhecer corremos risco de nos reconhecermos, embora descartemos o que nos fala o espelho para o usarmos como uma mera e breve ocupação. O pretexto são os aborrecimentos que nos causam, a paixão que logo se complica e se amorna. Queremos alguém que nos convide para sair, jamais para entrar. O outro, este substituível, servirá para reincidirmos nas aventuras e no prazer das superfícies, sem arranharmos quaisquer verdades. Cansamo-nos facilmente do que nos exige demais, como esta tal de honestidade. Assumi-la demanda coragem de ser o que somos para além dos papéis que representamos e para além do que não se é só virtude: esta que acreditamos sempre colidir com os erros do outro. Não estamos dispostos a lidar com questões que eventualmente podem levar-nos aos desconfortos, mas que também nos convidam a subir mais um degrau da nossa própria existência. 

Quando substituímos o outro é a nós mesmos que dispensamos.

sábado, 19 de agosto de 2017

Estrear-se...

Aquele menino era feito de mágoas antigas. Uma sucessão de raivas envelhecidas pelo tempo. Ele era feito do que não lembrava e do que não esquecia: ambas as coisas a tecerem-lhe destinos e fracassos. A prisão era limitar o pulmão a encher-se pleno de ar. O cárcere era sentir pesos no espaço do coração. Uma sentença e uma punição por ele diariamente cumpridas. Aquele homem era feito de mágoas antigas. E não havia sossego para descansar-se dentro. Não havia espaços para aconchegar-se dentro. Ele era uma ininterrupta fuga dos inevitáveis. Vivia de desculpas e silêncios para não se sufocar. Calava esperanças e boas notícias com violências e outros boicotes. Adiava sua hora do óbito tanto quanto estrear-se na vida. Até que num descuido da tristeza se inaugurou para longe dos habituais escuros, desalojando com pressa seus abismos que lhe negavam os amanhãs. O peito tornou-se galpão de abrigar mil possíveis. O amor aprendia a lhe chamar pelo nome próprio. Mas sobre isto já é outra história.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Sentido...

Eu que sou sempre silêncio, hoje estou cá a dizer-te: caminho ao vosso lado e me ignoras; venho dar sentido à vida e recusas me agradecer. Me aproximo nos mais difíceis momentos e dou alívio aos que sofrem. Aliás, insensato, suplicas para que adie a fatalidade dos teus excessos. Culpa-me pelo inevitável. Veja, pairo além dos teus credos e da tua cor e isto porque estou em todos os credos e sou de todas as cores. Causo promessas e temores embora não tenha inimigos. Tantos ameaçam com meu nome enquanto poucos me festejam, realmente. Eu que sou sempre silêncio, hoje estou cá a dizer-te: lembra-te de mim para que do meu sopro não fujas e tampouco do viver tu escapes.

Prazer, eu sou a morte.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Sobrenome...

O que não a matava por ela era morto: lugares, nomes, perfumes, histórias. O peito lhe era uma casa abandonada. As memórias, assombradas todas por arrependimentos. O destino era um mal entendido, visto que o amor ou lhe era falha ou falta, e um desastre a que sempre se dirigia com testemunhas e prévios atestados de óbito. Os signos do zodíaco deviam-lhe melhor sorte. Era herdeira silenciosa das repetições. 

Sentia-se a única neste mundo a conhecer com intimidade o sobrenome das tristezas.