segunda-feira, 31 de julho de 2017

Cuidado...

Deixaram-me nu diante da igreja. Não me recordo de nada anterior ao fato de que estou nu na porta da igreja. Que igreja? Não sei dizer. Tampouco sei que cidade estou. Parece-me de algum longe pelos silêncios a combinarem com as ruas de pedra e o cheiro de bosta de cavaloAs janelas das casas, todas de madeira, estão ainda fechadas a pouparem-me do constrangimento. O que sinto é o desespero e a iminência da desgraça. Serei eu o louco daqui? Teria eu retornado de um surto? Serei eu mal falado por aqui? Sairei como notícia insólita no jornal? Aliás, enxergo a folha de um arrastada pelo vento. Corro para buscá-la e cobrir as desvergonhas. Vejo a data e lembro-me de tudo: ontem, antes de dormir, inundado de tristeza, pedi aos céus que me levassem para longe, que esquecesse eu da humilhação de ter sido deixado pela mulher. Até agora não houve momento que isto tenha me parecido importante. Creio que meu desejo foi então e de algum jeito atendido.

"Agradeço a Deus pela graça alcançada!" foi esta a manchete do jornal do dia seguinte que recebi na cela da delegacia.

Cuidado com o que pedem. 

domingo, 30 de julho de 2017

A própria luz...

A fragilidade da vida oculta nossa própria resistência. Até a fundura do homem, depois de ultrapassado os enganos, suspeita-se que a consciência seja aquilo que não se vê. O amor desfeito revela apenas o quanto há dentro para habitar amor. As dúvidas contam-nos sobre o lado avesso da verdade. O medo aponta-nos ser o guardião do próprio destemor. A fragilidade não nos apronta caprichos, não nos guia ao tropeço ou encaminha-nos à dor. Devemos discernir pelos contrastes: a ausência de pulsação fala-nos sobre o quanto ainda há para pulsar. A fé não lhe será concedida pelas certezas, mas por sua falta. Protestamos por não nos sabermos muito valentes. A confissão é que estamos à mercê das sombras que nos desabitam e somente delas. Isto porque para cada uma há de termos a nossa própria luz.

sábado, 29 de julho de 2017

Assim como todo mundo...

Ela que se achava tão única e sem igual era mais uma a tirar selfie no espelho do banheiro: de casa, da balada, da academia. Com a pose milimetricamente descuidada dos seus lençóis, da sua roupa, dos seus cabelos.

Com uma frase filosófica e motivacional, ou a declarar-se revolucionária e marginal. A milionésima a intitular-se "a pomba gira do absoluto". Ou melhor, do desespero.

Ela era única. Assim como todo mundo.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Do interrogatório...

O escritor dialoga com espelhos e diante de cada um interroga-se junto aos seus próprios demônios. Ao convocar memórias revisita-se ao adentrá-las sem limpar os pés e o peito. Escrever é passar a limpo os desastres numa releitura personalíssima do tempo. O escritor põe-se a drenar a realidade do espírito que o comprime pela falta de sentido que ininterruptamente o ameaça. Ao realocar verdades pela dissolução dos seus escuros, arrisca-se por em xeque sua literatura. As palavras são as boas novas da sua própria inferioridade, álibi dos seus fracassos, o registro precário dos seus invisíveis. A literatura é a fertilidade do caos onde a incompletude da condição humana comunga com a sua própria.

O homem escreve numa tentativa contínua de descrever a palavra última que o justifique.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Sobre a condenação...

Não, não se comemora a condenação de um homem de bem que nada sabia - nem nunca soube - do que se passou durante os anos todos de governo de seu partido em que foram descobertos monstruosos esquemas de corrupção envolvendo seus homens de confiança que atualmente ou figuram como réus ou já foram condenados e presos.

Não, não se celebra a condenação de um homem simples que comparou-se a Jesus Cristo por sua honestidade e que de maneira inequívoca intimidou a imprensa e agentes públicos com suas ameaças de mandar prender todo mundo caso se tornasse novamente o presidente.

Comemora-se a condenação de um criminoso e de sua monstruosidade.

Celebra-se a condenação de um dos maiores criminosos do país. Comemora-se um pouco da justiça engasgada por tanto tempo e que ainda carece e muito de ser praticada neste território.

Comemora-se o afastamento de um dos demônios graúdos, responsável, mentor e partícipe de um projeto de perpetuação do partido no poder e que desviou cifras inimagináveis para qualquer cidadão comum.

Cifras que hoje muitas vezes equivalem à fome, ao desemprego, ao desespero e à desesperança.

Aos que estão a padecer de mimimis e a publicarem merdas e conspirações e a defendê-lo do indefensável, recomendo a leitura na íntegra da consistente sentença que o condena. Ainda que cegueira moral e ideológica não se resolva desta maneira.

Celebra-se a prisão de um símbolo do apodrecimento.
E que venhamos a celebrar, esperar e cobrar mais pela condenação dos demais demônios.

A quem sentir faniquitos por cultivar criminoso de estimação, a porta será sempre e uma vez mais a serventia da casa.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Qual seria o erro, então?

O amor disse o seu nome e você não escutou. O amor sentou ao lado e você se distraiu. O amor se insistiu e você o ignorou. O amor decorou seu rosto mas você o esqueceu. O amor lhe sussurrou e você nada ouviu. O amor já foi mais simples e você o complicou. O amor que era óbvio, você crê: nunca existiu. A dor disse o seu nome e você de prontidão. A tristeza se sentou e você deu atenção. A saudade se insistiu e você a agarrou. A solidão decorou sua casa e você não reclamou. A vida já foi mais simples e você a complicou. Aquilo que era óbvio você diz que nunca viu. 

Qual seria o erro, então?

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Sobre ter nada...

Um bom salário. Um longo histórico de países visitados. Duas graduações e mestrados. Os pais ainda vivos. Os avós ainda vivos. Os amigos ainda próximos. Milhares de horas de vôo sobre os estados do país, as páginas dos livros, os lençóis da cama dos que amou. E um cárcere emocional por nada disso lhe dizer algo entre os silêncios da casa, por nada salvá-la das paredes da tristeza que sozinha construiu a separá-la dela mesma. Representando bem o seu papel era vitoriosa para o mundo. E o quê para si? Qual dos diplomas já lhe aliviou o peito? Qual das fotos e memórias lhe deu folga das angústias? O que um dia aprendeu que pudesse evitar a insistência no desamor? Sentia invejas, ciúmes e raivas sem jamais saber tratá-las. Sentia-se errada. Sentia-se um erro. E o que deveria despedir era o que a despedia. A culpa era o café que pelas manhãs bebia acompanhada de uma solidão resignada. Acreditava em Deus e em não poder ser outra. O que de nada adiantava.