sexta-feira, 23 de junho de 2017

Ponteiros...

Denuncio-me exatamente no que oculto. O amor deixou no lugar sua própria interrupção. Assim continuo: pelas beiradas da memória, no vazio do peito, no núcleo insuportável das saudades, na negação do que sou pelo que deixei de ser. O inferno era o único habitat que sabíamos. O veneno, o alimento a partilhar. Permiti morrer ao máximo, ao despir-me do amor próprio, da lucidez, do equilíbrio para que você coubesse em mim. Agora, exijo da vida reparação pelo sacrifício. Exijo ao nada que me espreita o ressarcimento pela loucura que me fragmentou. Denuncio-me exatamente no que oculto. As angústias são tudo o que sobrou. Os sonhos ruins. Os fantasmas. A terapia. A raiva. Os medos. O seu nome a coroar o que não se perdoa. Isto porque insisto em permanecer nas feridas abertas pela violência a que nos destinamos. Porque a atualizo nos meus sintomas para celebrar o amor e ainda mais a tolice. Convoco-me a continuar o que se acabou. Denuncio-me exatamente no que oculto. E repito diariamente minha incompetência para dissolver os nós que me atam ao passado. Os nós que ressoam no corpo, na paz e no tempo.

Os ponteiros passaram, mas você não passou.

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