terça-feira, 20 de junho de 2017

A outra preta...

Disseram-me os espíritos que me cuidasse. Uma preta velha num terreiro, semanas atrás. Ontem, o recado dado no bar por um amigo através de sua mãe. A cerveja diluiu o impacto pela repetição do aviso. A luz que atravessou a janela do quarto hoje pela manhã trouxe de volta a preocupação. Cuidar-me como? Poderia adoecer, perder o emprego, um dos pais, o amor da minha vida, ser despejado. A lista seria infindável caso fizesse uma. O que gostariam que soubesse? Não penso que receberia uma notícia fatalista sem chances de alterar minha rota de colisão com o que quer que fosse. De nada serviriam as previsões e os profetas senão para angustiar-nos diante do inevitável. Deus seria um sádico a adiantar-nos inescapáveis capítulos. Ou fosse exatamente isto, mas um convite oferecido, não por um Deus de humor duvidoso, e sim por estrita compaixão. O convite estaria um pouco além dos avisos e notícias. Um convite de nitidez apagada pelo medo e pela ansiedade. O convite seria a entrega. A prescrição dos mensageiros seria para que venha a me cuidar pelo cultivo da fé. O conselho dado revela-se maior: aceitar o vento e as marés; perder a tolice de querer controlar o que não me é possível; compreender que as tempestades são passageiras e manter-me no equilíbrio diante dos fatos.

A preta velha disse-me o que dizia minha outra preta velha, minha avó: aquilo que não tem remédio, meu filho, remediado está.

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