domingo, 30 de abril de 2017

Um passo...

Um passo. Eu estou sempre a um passo de mim; do ideal, daquilo que penso ser melhor do que me manter onde estou. Eu estou sempre a um passo, pendente um passo, de alcançar o meu platô e poder de uma vez descansar, realizar o que penso ser o meu caminho e meu desiderato, caber nos meus inteiros, não sendo esta soma de atalhos como sou até então, distante apenas um passo daquilo que nunca acontece: o passo mesmo. Como horizonte que se afasta enquanto dele me aproximo. Um passo. Eis o que me separa da minha pretendida e suposta libertação; do que sou para o que deveria ser. Entre mim e eu há apenas um quase vão, um quase alívio, um quase gozo, a um passo da minha definitiva revolução, do meu clímax espiritual, da minha essencial descontinuidade. Um passo para deixar este cansaço de ser um ensaio e começar realmente a viver. Quem sabe estar definitivamente no lugar certo, com o corpo adequado, com a fala exata no tempo certo, acertando todas as minhas escolhas e recusas. A um passo para desencanar de tudo aquilo que amontoei como pendência, assuntos e relações mal resolvidas, adiando meu derradeiro equilíbrio. Um passo a calar meu incômodo por eu nunca me acontecer como o planejado, querido, desejado, sonhado, merecido. Um passo não dado a manter-me aqui, com meus erros muitos, meus pecados tantos, minha habitual insensatez, distraindo-me numa angustia por ser e estar sempre incompleto, inacabado, preocupado, urgente e desconfortável em mim. Este passo que não dou e que me adia, garante-me um autoperdão hipócrita a minimizar minhas culpas e consequências, convencendo-me de que o que serei compensará o que tenho sido e que dos males que sofro e faço, não mais os repetirei. Assim me autorizo a ser uma insatisfação constante, pois este é o puto passo que me mantém nesta segura distância deste encontro comigo, a alcançar uma paz que não acontece. E enquanto finjo que não sei o que fazer quando me grita a Existência, caminho para qualquer direção.

Nenhum comentário: