quinta-feira, 20 de abril de 2017

Ontens...

Peço que a seguir desconsidere eventuais erros de concordância entre o tempo e as saudades, grife apenas a poesia oculta nas tristezas e deixe somente o meu amor em evidência. O amor emudeceu-me, amordaçou-me, e falou por mim. Disse saber dos detalhes e verdades tuas que floresceram num ontem enfeitado por nós. Assim, venho pedir-lhe: dispensa-me deste agora em que não te encontras, pois, o teu amor tornou sagradas as lembranças: templo passado que regresso apenas para saber de ti. Permita-me voltar e buscar-te no ontem, para nos repetirmos nos detalhes de que são feitos os amantes. Cenário onde não se exige nada além daquilo que já fomos. E nele, quero correr reincidente risco de morrer de amor, ainda que eu não venha a saber como renascer, visto que não há chances em que aprenderei a me despedir de ti. Não sou nem serei versado nas ausências que vez em quando permite o amor em nós. Coração que jamais sofreu com saudades e despedidas só pode ser aquele que ainda não (se) partiu. Você partiu e eu, partido estou. Sinto saudades como se ontem fosse lugar distante, mas dos lugares, o mais bonito, distante de um hoje em que teu olhar não mais cruza o meu. Por isso vivo inteiro ontem, e apenas lá, visto que os amanhãs não pertencem a nós dois, nem nós dois a eles. Por lá habitam apenas as promessas e os desejos. No passado, toco-te a despertar adormecidos sonhos com teu cheiro. Por isto, lá vivo, convencido que o hoje nasceu para o ontem, para contar-me de ti pelas memórias com o teu nome, a calar o tempo com o som da tua guardada voz em mim, para suspender o agravamento das tristezas. Hoje é também um pretexto para esperar a tua volta e me abençoar, vestir-me de sol e lembrar como amanhecer, chegando à conclusão que o que havia sentido ontem, na ausência tua não fez sentido algum. O que fazer depois que o amor vai embora? Do hoje parti quando ontem me despedi de ti. E por que costuma o amor partir antes da hora? Lá, no ontem, éramos o nosso melhor encontro, pois as despedidas não haviam de ser. Mas aqui, neste frágil agora, dói-nos o luto da separação e de não sermos mais. No ontem não sou tão real quanto sou hoje, mas quem se importa? 

O amor aceita qualquer justificativa para continuar sendo.

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