domingo, 23 de abril de 2017

Maturação...

Seria possível dizermos que não há medos e ansiedades? Olharmos para tudo o que vivemos com nossos pais e aceitá-los, entendê-los e perdoá-los? Seria possível afirmar que nos vemos livres da carência, dos ciúmes, das irritações, do egoísmo? Conseguiríamos aceitar com generosidade aquilo que se viveu, errou e sofreu sem culpas, mágoas, ressentimentos e tristezas?

Qual degrau estamos? E qual acreditamos estar?

A resposta, guarde para devida maturação.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Das implicâncias...

Há gente de todo lado a louvar coisas que por certo não agradam a toda gente, como chouriço, mocassins, férias na praia e dessincronias. Quero, pois, versar sobre os embaraços criados por estas últimas a que menciono. Defino a dita cuja como o descompasso entre tempo e o ritmo na ordem dos fatos ao facilitar desagradáveis pormenores e causar-nos alguma turbulência em nosso plácido céu de brigadeiro cotidiano. A "sincronia" dá-se por conta da desoportunidade e a sua possibilidade de causar-nos pequenas frustrações e vergonhas. Dou exemplos: o inexato instante que decide com dúvidas avançar a faixa de pedestres por não saber quanto tempo de sinal verde resta para você e vermelho para os carros. Você dá o primeiro passo adiante e descobre. Não restava nada. Os carros aceleram e você recua, sentindo-se uma besta. Outro: elevador parado no andar com alguns gatos pingados dentro. Ao longe você, calculando os passos, a velocidade no trajeto e um sentimento que só nos aparece em horas assim, aquele de acreditarmos na humanidade o suficiente para pensar que algum bom samaritano segurará a porta para nós. É o tempo preciso para colar com a fuça na porta que acabou de fechar. Ninguém a segurou e você mais uma vez com cara de besta. Outro clássico: lépido, faceiro e distraído, caminhando pela calçada avista pessoa a lhe acenar. Um filme se passa com todos os rostos possíveis e situações prováveis. Você chega a conclusão de que é um desmemoriado e cheio de dedos resolve acenar em retribuição. Sorri, inclusive. Na sua direção a pessoa atravessa seu corpo como se você não existisse a abraçar a outra atrás de ti. Seu castelinho de cartas emocional desaba num só golpe de vergonha. Cara de besta e saída pela tangente. Tem aquela quando acenamos ao ônibus e ele passa direto, ou quando continuamos falando alto no momento em que a música acaba e mais outros milhares de pequenos constrangimentos patrocinados pela dessincronia. Talvez ela seja fruto de uma distração dos anjos ao permitir maquiavélica mancomunação entre o tempo e o capiroto, a arrancar-nos a dignidade e a orientação num breve segundo, devolvendo-nos logo em seguida. Nunca saberemos.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Ontens...

Peço que a seguir desconsidere eventuais erros de concordância entre o tempo e as saudades, grife apenas a poesia oculta nas tristezas e deixe somente o meu amor em evidência. O amor emudeceu-me, amordaçou-me, e falou por mim. Disse saber dos detalhes e verdades tuas que floresceram num ontem enfeitado por nós. Assim, venho pedir-lhe: dispensa-me deste agora em que não te encontras, pois, o teu amor tornou sagradas as lembranças: templo passado que regresso apenas para saber de ti. Permita-me voltar e buscar-te no ontem, para nos repetirmos nos detalhes de que são feitos os amantes. Cenário onde não se exige nada além daquilo que já fomos. E nele, quero correr reincidente risco de morrer de amor, ainda que eu não venha a saber como renascer, visto que não há chances em que aprenderei a me despedir de ti. Não sou nem serei versado nas ausências que vez em quando permite o amor em nós. Coração que jamais sofreu com saudades e despedidas só pode ser aquele que ainda não (se) partiu. Você partiu e eu, partido estou. Sinto saudades como se ontem fosse lugar distante, mas dos lugares, o mais bonito, distante de um hoje em que teu olhar não mais cruza o meu. Por isso vivo inteiro ontem, e apenas lá, visto que os amanhãs não pertencem a nós dois, nem nós dois a eles. Por lá habitam apenas as promessas e os desejos. No passado, toco-te a despertar adormecidos sonhos com teu cheiro. Por isto, lá vivo, convencido que o hoje nasceu para o ontem, para contar-me de ti pelas memórias com o teu nome, a calar o tempo com o som da tua guardada voz em mim, para suspender o agravamento das tristezas. Hoje é também um pretexto para esperar a tua volta e me abençoar, vestir-me de sol e lembrar como amanhecer, chegando à conclusão que o que havia sentido ontem, na ausência tua não fez sentido algum. O que fazer depois que o amor vai embora? Do hoje parti quando ontem me despedi de ti. E por que costuma o amor partir antes da hora? Lá, no ontem, éramos o nosso melhor encontro, pois as despedidas não haviam de ser. Mas aqui, neste frágil agora, dói-nos o luto da separação e de não sermos mais. No ontem não sou tão real quanto sou hoje, mas quem se importa? 

O amor aceita qualquer justificativa para continuar sendo.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Controversa...

Uma grande tristeza lhe era como uma exuberância controversa. Acreditava que no íntimo de cada um dos homens havia um envergonhado orgulho de sustentá-las. Uma das razões de não as despedirmos mais cedo.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Carta V...

[...]  Por isso não vale a pena decretarmos nossos amanhãs a partir dos humores tristes de hoje. Não vale anteciparmos a tristeza porque decretamos que algo será ou deixará de ser, como uma constatação míope de um peito carregado que pouco permite que enxerguemos.

(Carta a uma amiga)

quarta-feira, 12 de abril de 2017

De quem, afinal?

A vida é coisa muito frágil e para protegê-la deixamos de viver. Qual o sentido de evitarmos o que não se deve, insistirmos com o que não se pode e nos perdermos? Por que fazemos questão das tristezas, dos cacos, dos escuros e tempestades? Por que insistimos tanto e tantas vezes em morrer? Perdemos o amor como quem perde o ônibus. Aguardamos o amor como quem aguarda o ônibus. As urgências estão equivocadas. As insônias estão equivocadas. O que nos dói é o que de nós mastigamos. E nos cremos muito por não aceitarmos qualquer desaforo.

Mas, de quem, afinal?

terça-feira, 11 de abril de 2017

Para trás...

A dor que insiste em permanecer é aquela que mais fala de ti. Escutar a verdade que ela insistentemente sussurra nas entrelinhas é o que lhe dará o direito a deixá-la para trás.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Peleja...

É na palavra que me torno dócil, que mastigo educado a vida, que cicatrizo minha mãe e abençoo meu pai. É na palavra que salgo a carne, que tombo em combate, que vendo o tempo que me restou no peito. É na palavra que amarro a lembrança, faço peleja com a tristeza, e consagro-me dia sim, dia não, um sobrevivente.

domingo, 9 de abril de 2017

A vigésima segunda visita da generosidade...

Uma releitura generosa dos óbvios.

O meu terceiro livro, pela Editora Penalux.

A pré-venda está aberta.
R$ 42 reais já com o frete.

A quem interessar, 
mande e-mail: guglicardoso@gmail.com

quinta-feira, 6 de abril de 2017

A lâmina...

A palavra é minha mandinga, 
meu patuá, 
meu guarda-chuva, 
meu divã
e a vela acesa. 

A palavra é a catarse, 
o congá, 
o orgasmo, 
o orgulho
o antiácido, 
o vale do mês, 
o boleto pago
e a lâmina que
diariamente desafio
a realidade.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Devoção...

éramos tão novos e já amávamos um amor antigo.

aqui,
peço que olhes o teu reflexo nos meus próprios olhos:
não há intimidade maior do que olharmos juntos para o que se ama.

na ausência tua,
os lugares todos te reconhecem
(e eu neles não me reconheço mais)

diga-me amor,
de que país se é quando se ama assim?

a palavra é impaciente quando não escutas,
o sossego é incompleto quando não estás
quando regressas
beijo-te dez segundos
e sou feliz para sempre

prometo amar-te até
a última folha do calendário,
e a primeira

prometo amar-te até 
o último limite,
e amar-te quando 
não houver nenhum limite mais

na aritmética exata dos desejos
a geometria perfeita do teu corpo no meu;
se te desenhasse seria um homem completo

trazes-me
a fome absoluta. o prazer absoluto.
a entrega à vida

debaixo de uma lua só nossa
tua silhueta brinca-me com as sombras
nas cores rubras do abajur do quarto

por debaixo desta luz
minha devoção:

Deus é uma bailaora.

sábado, 1 de abril de 2017

A vigésima segunda visita da generosidade...

"A vigésima segunda visita da generosidade"

Uma releitura generosa dos óbvios.

À força do instante,
inesperado o saber
das asas. 

A quem interessar possa, mande-me mensagem: