segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Vassalo...

Acreditava minha avó ser o peito compartimento infinito para acomodar céus e infernos. A sua recomendação era de que se alimentasse o amor para moderarmos sua fúria sobre nós. Que se impossível os afetos, déssemos somente água, saudades ou alguma ilusão para que se distraísse de si e do seu próprio tamanho. Caso contrário, dizia, tornar-se-ia criança medrosa num poço escuro. Como se já não o fosse por aceitar menos do que si mesmo. Acreditava minha avó ser o peito lugar inevitável sujeito sempre aos próprios desequilíbrios e desmandos da cabeça: a raiva seria como charco de tinta negra a sujar os interiores céus; a mágoa como se uma nuvem morresse de voar, repetidamente. A felicidade seria a temporária ciranda das nossas verdades. Acreditava minha avó ser o peito hospedaria para sentimentos confusos que haviam sempre de ir no dia próximo. Apenas ao amor era concedido a solidão necessária para caber-lhe a própria companhia. Apenas ao amor, no peito, era concedido permanências. Aos sábios, como dono. Aos demais, como vassalo.

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