quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Meu conto Zen...

Partiu o jovem discípulo em direção à floresta sem entender as palavras do seu mestre, que disse haver por lá duas ideias e uma só verdade. Caminhou por dias até achar uma poça de água imunda que sua indecisão refletia, pois não sabia se daquela água devia beber para matar a sede ou seguir adiante buscando abrigo. Começou a recitar seus sutras pensando que algum deus pudesse lhe dar uma intuição, uma graça, uma resposta, mas nada aconteceu. Ele era a única maré entre os silêncios. E ao perceber que a sua reza era fruto do seu desespero, lembrou do mestre dizendo ser a reza a voz da gratidão. Assim, sinceramente agradeceu por ter encontrado aquilo que precisava e, ao levar suas mãos à água, sentiu entre os dedos uma chave no fundo repousada. Ao nascer do sol, seguiu caminhada até encontrar velho casebre de porta sem fechadura. O jovem sentiu-se muito estúpido por deixar frustração o envenenar. Quando voltou ao templo com a chave e a história da porta, o mestre riu daquilo tudo e com amor lhe disse: Sente-se você estúpido porque nadou contra a corrente da vida o tempo inteiro. A estupidez se encontra em você, mas a genuína inteligência ainda não. A inteligência está na realidade que de você se utiliza para revelar-se. Você não se permitiu vê-la, tampouco escutá-la. Pensa você ser o único responsável pelas suas ideias e criações? Não amado, a vida se faz em você, para aquilo que ela mesma busca alcançar: criações e ideias ainda mais sublimes. Seus passos não são nada, pois são parte do infinito. Após sua morte, a sua vida como o reflexo da eternidade transformará você naquilo que você é: a própria vida. És imortal, meu filho. Por isto, com o quê lutas? A liberdade e a beleza se encontram na própria porta e na chave em si que carregam o saber nelas mesmas. O encontro de uma com a outra apenas declara aquilo que são. E você ainda não é, mesmo que já seja, sem saber. Eis a verdade da floresta que eu queria transmitir.

"Uma vez escrito, o discurso sai a vagar por toda parte, não é entre os conhecedores mas também entre os que o não entendem, e nunca se pode dizer para quem serve e para quem não serve". (Platão)

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