sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Recém amantes...

Atendeu. Logo cedo e mais uma vez o primeiro telefonema na empresa era dela. Não ligaria no celular. Chamaram-no para que atendesse. Ele atendeu. Sem jeito, só escutou. Não sabia o que dizer, não havia o que dizer. Sem jeito, sorriu pelas beiradas. Incômodo por sentir que seus colegas o olhavam; por saber que seus colegas comentariam, já que era a quarta vez só nesta semana. Sem jeito, suspirou. A voz do outro lado desejava os clichês dos amantes; açúcares e um poema barato. Agradecia ele a Deus por ninguém mais poder ouvir. 

Telemensagem. De bom dia. Da namorada. 
Coisa cafona.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Medo de voar...

Adulteramos as memórias, embora não se trate de enganar mas de não se lembrar das verdades. Não há registro fiel do passado senão das lembranças sempre através das conveniências. Remendos do que escolhemos esquecer pela necessidade de conviver com o que não nos ponha em xeque. Insinuamos alegrias banais do cotidiano. Aplaudimos o que nos sobra. 

O homem não levanta vôo pela ausência das asas, mas pelo medo de voar.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Sopro...

A gente esquece que para viver é preciso respirar. E quando nos sabemos por entre os reflexos que nos acontecem entre luzes e sombras nesta vida, respirarmos fundo pode ser vento suficiente para virarmos página já cansada da nossa própria história.

sábado, 9 de setembro de 2017

Cachorro...

O tempo passou e pude eu pensar em nós em diferentes horas e humores. Apesar das inclinações tanto para guardar rancores quanto para esquecê-los, a conclusão é a de que o seu desequilíbrio é ruína onde se ocultam suas verdades e do amor se esconde. Veja, vive solitária com o seu cachorro e seus pés de tomate. Psicopatas tiveram cachorros; ditadores foram vegetarianos. Ou seja, isto não diz muito sobre você. Mas, a sua solidão com pés de arruda no quintal, sim, este é o limbo onde seus vazios se refestelam. Os seus amargores denunciam seu quadro emocional sem moldura e qualquer cor. A sua tristeza tem espinhos. O seu destempero grita no instante que o nega. O conselho? Convide sua sombra para uma cerveja e alguns petiscos. Para digerir o que não digere. Para viver o que não vive. Para ser digna do que insiste em não ser. Para que não volte a ter crises e alergias e carências: de vitaminas, amores e amigos. Torço para que o seu cachorro abane o rabo quando da sua volta para casa ao final do dia.

Se é que existe mesmo um cachorro.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Pronto...

Cortaria-lhes as gargantas se pudesse. Calaria com a navalha da raiva e do medo os seus inimigos. Atreveria a convocar os demônios a lhe usarem inteiro para depois atirá-los todos ao precipício. Ao esquecimento. À ingratidão muda. Ao perdão amordaçado. Cortaria o rosto para desfigurar-se e ver outro que não ele. Quebraria o espelho para cortar os próprios pulsos. Não enxergaria, assim, seus desafetos. Morreria, assim, para seus demônios. Cairia ele no esquecimento. Fugiria, então, das culpas. Desmentiria, então, seus erros. Amornaria sua raiva e demais venenos. Amaria apenas o reflexo. E o seu nome. Como um homem sem casa, sem medos e sem alma. 

Somente assim, pronto para os amanhãs.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Reflexão...

A gente vem pra esse mundo com pós-doutorado em fazer merda. O que é a vida senão a tentativa de desaprender e devolver o diploma?

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Vitrine...

Havia um medo de ser descoberta; de saber-se desmascarada pelo próprio reflexo; denunciada pela ocultação do cadáver do passado e do mau cheiro do que lhe era imperdoável. Havia o medo de que perdesse coerência e o controle; de que por detrás do medo se rebelassem sintomas e verdades. Abria mão da liberdade para mantê-los em cativeiro. Havia um medo a criar-lhe frustrações, boicotes e culpas por sentir-se sempre inexata e jamais se usar melhor. Um medo de reconhecer-se e humilhar-se exatamente por isto. Havia um medo de sofrer que a ela causava o sofrimento, evitando-se enquanto se desperdiçava; de ser massacrada pelo que continuamente ignorava e calava. Medo de que seus segredos fossem página de jornal; seus monstros, capas de revista; seus pecados e ressentimentos expostos na vitrine. Havia o medo de que não fosse amada como nunca soube (se) amar. Medo como um veneno a repetir-se diariamente entre os estragos e perdas que só ela enxergava. Um medo a diariamente diminui-la e diariamente sangrá-la e fazê-la desejar ser outra que não ela, a ser nova que não velha, a ser limpa que não suja e a renascer de vez, sem medos. Quem sabe.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Pergunta...

Eu enxergo futuros. Eu os encontro nas entrelinhas dos seus porquês; os reconheço entre os movimentos do seu corpo. O intervalo, a pulsação, os silêncios, o olhar, os suspiros te confessam. Eu enxergo futuros entre xícaras de café; entre as mágoas; entre os sonhos. Eu enxergo futuros porque te vejo dirigindo-se para lá. Adianta dizer-lhe de precipícios e erros? Adianta a preocupação e o prognóstico das misérias e reincidências? Solicita-me palavras para ocupar-se. Pede-me verdade como álibi para os seus enganos. Eu enxergo futuros mas não sei das respostas. Porque são nas perguntas que deveria se reconhecer: pela entonação dos medos, nas pausas da dúvida, na certeza do que não sabe e pelo que constrói exatamente por isto. Eu enxergo futuros porque vejo o invisível presente: este que busca fugir entre respostas, conselhos, fórmulas, ilusões, compulsões e demais anestesias. As mesmas que por tanto tempo bebi por saber-me cego e exigir-me outro.

Enxergar é uma difícil convocação para si mesmo.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Substituíveis...

Impressiona-me esta facilidade com que se troca de amor como quem troca de roupas. Dedicar-se ao outro nos permite enxergar; ao conhecer corremos risco de nos reconhecermos, embora descartemos o que nos fala o espelho para o usarmos como uma mera e breve ocupação. O pretexto são os aborrecimentos que nos causam, a paixão que logo se complica e se amorna. Queremos alguém que nos convide para sair, jamais para entrar. O outro, este substituível, servirá para reincidirmos nas aventuras e no prazer das superfícies, sem arranharmos quaisquer verdades. Cansamo-nos facilmente do que nos exige demais, como esta tal de honestidade. Assumi-la demanda coragem de ser o que somos para além dos papéis que representamos e para além do que não se é só virtude: esta que acreditamos sempre colidir com os erros do outro. Não estamos dispostos a lidar com questões que eventualmente podem levar-nos aos desconfortos, mas que também nos convidam a subir mais um degrau da nossa própria existência. 

Quando substituímos o outro é a nós mesmos que dispensamos.

sábado, 19 de agosto de 2017

Estrear-se...

Aquele menino era feito de mágoas antigas. Uma sucessão de raivas envelhecidas pelo tempo. Ele era feito do que não lembrava e do que não esquecia: ambas as coisas a tecerem-lhe destinos e fracassos. A prisão era limitar o pulmão a encher-se pleno de ar. O cárcere era sentir pesos no espaço do coração. Uma sentença e uma punição por ele diariamente cumpridas. Aquele homem era feito de mágoas antigas. E não havia sossego para descansar-se dentro. Não havia espaços para aconchegar-se dentro. Ele era uma ininterrupta fuga dos inevitáveis. Vivia de desculpas e silêncios para não se sufocar. Calava esperanças e boas notícias com violências e outros boicotes. Adiava sua hora do óbito tanto quanto estrear-se na vida. Até que num descuido da tristeza se inaugurou para longe dos habituais escuros, desalojando com pressa seus abismos que lhe negavam os amanhãs. O peito tornou-se galpão de abrigar mil possíveis. O amor aprendia a lhe chamar pelo nome próprio. Mas sobre isto já é outra história.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Sentido...

Eu que sou sempre silêncio, hoje estou cá a dizer-te: caminho ao vosso lado e me ignoras; venho dar sentido à vida e recusas me agradecer. Me aproximo nos mais difíceis momentos e dou alívio aos que sofrem. Aliás, insensato, suplicas para que adie a fatalidade dos teus excessos. Culpa-me pelo inevitável. Veja, pairo além dos teus credos e da tua cor e isto porque estou em todos os credos e sou de todas as cores. Causo promessas e temores embora não tenha inimigos. Tantos ameaçam com meu nome enquanto poucos me festejam, realmente. Eu que sou sempre silêncio, hoje estou cá a dizer-te: lembra-te de mim para que do meu sopro não fujas e tampouco do viver tu escapes.

Prazer, eu sou a morte.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Sobrenome...

O que não a matava por ela era morto: lugares, nomes, perfumes, histórias. O peito lhe era uma casa abandonada. As memórias, assombradas todas por arrependimentos. O destino era um mal entendido, visto que o amor ou lhe era falha ou falta, e um desastre a que sempre se dirigia com testemunhas e prévios atestados de óbito. Os signos do zodíaco deviam-lhe melhor sorte. Era herdeira silenciosa das repetições. 

Sentia-se a única neste mundo a conhecer com intimidade o sobrenome das tristezas.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Cuidado...

Deixaram-me nu diante da igreja. Não me recordo de nada anterior ao fato de que estou nu na porta da igreja. Que igreja? Não sei dizer. Tampouco sei que cidade estou. Parece-me de algum longe pelos silêncios a combinarem com as ruas de pedra e o cheiro de bosta de cavaloAs janelas das casas, todas de madeira, estão ainda fechadas a pouparem-me do constrangimento. O que sinto é o desespero e a iminência da desgraça. Serei eu o louco daqui? Teria eu retornado de um surto? Serei eu mal falado por aqui? Sairei como notícia insólita no jornal? Aliás, enxergo a folha de um arrastada pelo vento. Corro para buscá-la e cobrir as desvergonhas. Vejo a data e lembro-me de tudo: ontem, antes de dormir, inundado de tristeza, pedi aos céus que me levassem para longe, que esquecesse eu da humilhação de ter sido deixado pela mulher. Até agora não houve momento que isto tenha me parecido importante. Creio que meu desejo foi então e de algum jeito atendido.

"Agradeço a Deus pela graça alcançada!" foi esta a manchete do jornal do dia seguinte que recebi na cela da delegacia.

Cuidado com o que pedem. 

domingo, 30 de julho de 2017

A própria luz...

A fragilidade da vida oculta nossa própria resistência. Até a fundura do homem, depois de ultrapassado os enganos, suspeita-se que a consciência seja aquilo que não se vê. O amor desfeito revela apenas o quanto há dentro para habitar amor. As dúvidas contam-nos sobre o lado avesso da verdade. O medo aponta-nos ser o guardião do próprio destemor. A fragilidade não nos apronta caprichos, não nos guia ao tropeço ou encaminha-nos à dor. Devemos discernir pelos contrastes: a ausência de pulsação fala-nos sobre o quanto ainda há para pulsar. A fé não lhe será concedida pelas certezas, mas por sua falta. Protestamos por não nos sabermos muito valentes. A confissão é que estamos à mercê das sombras que nos desabitam e somente delas. Isto porque para cada uma há de termos a nossa própria luz.

sábado, 29 de julho de 2017

Assim como todo mundo...

Ela que se achava tão única e sem igual era mais uma a tirar selfie no espelho do banheiro: de casa, da balada, da academia. Com a pose milimetricamente descuidada dos seus lençóis, da sua roupa, dos seus cabelos.

Com uma frase filosófica e motivacional, ou a declarar-se revolucionária e marginal. A milionésima a intitular-se "a pomba gira do absoluto". Ou melhor, do desespero.

Ela era única. Assim como todo mundo.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Do interrogatório...

O escritor dialoga com espelhos e diante de cada um interroga-se junto aos seus próprios demônios. Ao convocar memórias revisita-se ao adentrá-las sem limpar os pés e o peito. Escrever é passar a limpo os desastres numa releitura personalíssima do tempo. O escritor põe-se a drenar a realidade do espírito que o comprime pela falta de sentido que ininterruptamente o ameaça. Ao realocar verdades pela dissolução dos seus escuros, arrisca-se por em xeque sua literatura. As palavras são as boas novas da sua própria inferioridade, álibi dos seus fracassos, o registro precário dos seus invisíveis. A literatura é a fertilidade do caos onde a incompletude da condição humana comunga com a sua própria.

O homem escreve numa tentativa contínua de descrever a palavra última que o justifique.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Sobre a condenação...

Não, não se comemora a condenação de um homem de bem que nada sabia - nem nunca soube - do que se passou durante os anos todos de governo de seu partido em que foram descobertos monstruosos esquemas de corrupção envolvendo seus homens de confiança que atualmente ou figuram como réus ou já foram condenados e presos.

Não, não se celebra a condenação de um homem simples que comparou-se a Jesus Cristo por sua honestidade e que de maneira inequívoca intimidou a imprensa e agentes públicos com suas ameaças de mandar prender todo mundo caso se tornasse novamente o presidente.

Comemora-se a condenação de um criminoso e de sua monstruosidade.

Celebra-se a condenação de um dos maiores criminosos do país. Comemora-se um pouco da justiça engasgada por tanto tempo e que ainda carece e muito de ser praticada neste território.

Comemora-se o afastamento de um dos demônios graúdos, responsável, mentor e partícipe de um projeto de perpetuação do partido no poder e que desviou cifras inimagináveis para qualquer cidadão comum.

Cifras que hoje muitas vezes equivalem à fome, ao desemprego, ao desespero e à desesperança.

Aos que estão a padecer de mimimis e a publicarem merdas e conspirações e a defendê-lo do indefensável, recomendo a leitura na íntegra da consistente sentença que o condena. Ainda que cegueira moral e ideológica não se resolva desta maneira.

Celebra-se a prisão de um símbolo do apodrecimento.
E que venhamos a celebrar, esperar e cobrar mais pela condenação dos demais demônios.

A quem sentir faniquitos por cultivar criminoso de estimação, a porta será sempre e uma vez mais a serventia da casa.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Qual seria o erro, então?

O amor disse o seu nome e você não escutou. O amor sentou ao lado e você se distraiu. O amor se insistiu e você o ignorou. O amor decorou seu rosto mas você o esqueceu. O amor lhe sussurrou e você nada ouviu. O amor já foi mais simples e você o complicou. O amor que era óbvio, você crê: nunca existiu. A dor disse o seu nome e você de prontidão. A tristeza se sentou e você deu atenção. A saudade se insistiu e você a agarrou. A solidão decorou sua casa e você não reclamou. A vida já foi mais simples e você a complicou. Aquilo que era óbvio você diz que nunca viu. 

Qual seria o erro, então?

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Sobre ter nada...

Um bom salário. Um longo histórico de países visitados. Duas graduações e mestrados. Os pais ainda vivos. Os avós ainda vivos. Os amigos ainda próximos. Milhares de horas de vôo sobre os estados do país, as páginas dos livros, os lençóis da cama dos que amou. E um cárcere emocional por nada disso lhe dizer algo entre os silêncios da casa, por nada salvá-la das paredes da tristeza que sozinha construiu a separá-la dela mesma. Representando bem o seu papel era vitoriosa para o mundo. E o quê para si? Qual dos diplomas já lhe aliviou o peito? Qual das fotos e memórias lhe deu folga das angústias? O que um dia aprendeu que pudesse evitar a insistência no desamor? Sentia invejas, ciúmes e raivas sem jamais saber tratá-las. Sentia-se errada. Sentia-se um erro. E o que deveria despedir era o que a despedia. A culpa era o café que pelas manhãs bebia acompanhada de uma solidão resignada. Acreditava em Deus e em não poder ser outra. O que de nada adiantava. 

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Dois quarteirões...

Ela pensa que será mais feliz se mudar de emprego. Ele pensa que será mais feliz se viajar para a Europa. Ela pensa que será mais feliz ao trocar de apartamento. Ele pensa que será mais feliz ao comprar seu carro. Ela pensa que será mais feliz com 3 kg a menos. Ele pensa que será mais feliz com 3 kg a mais. Ele pensa que será mais feliz se dormir com outra. Ela pensa que será mais feliz se não dormir com mais ninguém. Ele pensa que será mais feliz se acordar mais cedo. Ela pensa que será mais feliz se dormir até tarde. Ele pensa que será mais feliz depois de concluir seu curso. Ela pensa que será mais feliz se pular domingos. Ele pensa que será mais feliz ao chegar na festa. Ela pensa que será mais feliz ao chegar nas férias. Ele pensa que será mais feliz se beber demais. Ela pensa que será mais feliz se amar de menos. Ele pensa que será mais feliz se se jogar. Ela pensa que será mais feliz se se poupar. Eles pensam que serão melhores além do que são. Eles sentem que serão melhores para além do que tem. Ela quer mudar seu futuro sem passar pelo presente. Ele quer mudar seu presente adiando-se para o futuro. E vice versa.

E o que eles querem é um futuro a dois quarteirões de distância com o amor os esperando na esquina.

domingo, 25 de junho de 2017

Amada...

Era uma vez menina que amava a tristeza tanto e muito e mais e sempre que até os medos sentiam invejas. Apaixonou-se cedo, quando as perdas passaram a visitá-la em sua casa desde as primeiras idades. O lar que lhe escolheu o destino tornou-se decorado de ausências sentidas nos abandonos da sorte e dos seus próprios pais. Ainda criança, prendou-se com camaleões e borboletas nos ofícios sagrados da transformação, fazendo das diminutas mentiras semeadas, as imensas ilusões de colheita, enfeitando janela com que olhava seus solitários desamanhãs. Admiradora das profundidades que a dor lhe causava, graduou-se em precipícios, entregando suas asas para brechó do nunca. Ouviu estórias dos espinhos que lhe diziam na vida não haver sido convidada para florescer. Assim, convenceu a si ser terra infértil das razões para existir. Deslembrou-se do vento e da sua própria voz, abandonando os dias para carregar as noites. E quando distraída se despiu a visitar beirada de rio, algo se repentinou. A Lua por ela brilhou redondamente enamorada, a lhe dedicar iluminâncias e silenciosa companhia. Como presente aos grandes olhos da menina, acendia Lua incontáveis vaga-lumes. Revelando amor sempre crescente, convidava às pertezas dos caminhos a fala dos grilos, o canto da cigarra e a rouca voz das esquecidas esperanças de coração atontado. Adormecia então aos cadinhos, tristezas minguantes. No encanto das noites, Lua contemplou menina florescer mulher e pela primeira vez, tocou seu desnudo corpo, no prateado reflexo das fundas águas que correm no rio do tempo. Do amor feito em seu ventre, nasciam as primeiras estrelas que se ouviu falar, a guiar do infinito o destino dos homens e realizar desejos dos que entre nós ainda sonham. Quanto de céu pode habitar uma só mulher? Não se sabe ao certo. Só saberá aquela que um dia da janela no amor amanhecer.

(Texto do meu primeiro livro: "A Ilha de um homem só" publicado pela Ed. Penalux)
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. "Dar vida aos mortos é obra para infinitos deuses. Ressuscitar um vivo: um só amor cumpre o milagre." (Mia Couto)

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Ponteiros...

Denuncio-me exatamente no que oculto. O amor deixou no lugar sua própria interrupção. Assim continuo: pelas beiradas da memória, no vazio do peito, no núcleo insuportável das saudades, na negação do que sou pelo que deixei de ser. O inferno era o único habitat que sabíamos. O veneno, o alimento a partilhar. Permiti morrer ao máximo, ao despir-me do amor próprio, da lucidez, do equilíbrio para que você coubesse em mim. Agora, exijo da vida reparação pelo sacrifício. Exijo ao nada que me espreita o ressarcimento pela loucura que me fragmentou. Denuncio-me exatamente no que oculto. As angústias são tudo o que sobrou. Os sonhos ruins. Os fantasmas. A terapia. A raiva. Os medos. O seu nome a coroar o que não se perdoa. Isto porque insisto em permanecer nas feridas abertas pela violência a que nos destinamos. Porque a atualizo nos meus sintomas para celebrar o amor e ainda mais a tolice. Convoco-me a continuar o que se acabou. Denuncio-me exatamente no que oculto. E repito diariamente minha incompetência para dissolver os nós que me atam ao passado. Os nós que ressoam no corpo, na paz e no tempo.

Os ponteiros passaram, mas você não passou.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Abstração...

Não cabe julgarmos o presente do escritor pelo que ele escreve, pois poderemos olhar para o seu passado, para o futuro, para o possível ou para os seus sonhos. E não saberemos se estamos a olhar seus atuais tempos verbais, sua própria imagem ou a nossa própria projeção.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Esquina...

O que ela queria era
um futuro a dois quarteirões
de distância com o seu amor
a esperando na esquina.

terça-feira, 20 de junho de 2017

A outra preta...

Disseram-me os espíritos que me cuidasse. Uma preta velha num terreiro, semanas atrás. Ontem, o recado dado no bar por um amigo através de sua mãe. A cerveja diluiu o impacto pela repetição do aviso. A luz que atravessou a janela do quarto hoje pela manhã trouxe de volta a preocupação. Cuidar-me como? Poderia adoecer, perder o emprego, um dos pais, o amor da minha vida, ser despejado. A lista seria infindável caso fizesse uma. O que gostariam que soubesse? Não penso que receberia uma notícia fatalista sem chances de alterar minha rota de colisão com o que quer que fosse. De nada serviriam as previsões e os profetas senão para angustiar-nos diante do inevitável. Deus seria um sádico a adiantar-nos inescapáveis capítulos. Ou fosse exatamente isto, mas um convite oferecido, não por um Deus de humor duvidoso, e sim por estrita compaixão. O convite estaria um pouco além dos avisos e notícias. Um convite de nitidez apagada pelo medo e pela ansiedade. O convite seria a entrega. A prescrição dos mensageiros seria para que venha a me cuidar pelo cultivo da fé. O conselho dado revela-se maior: aceitar o vento e as marés; perder a tolice de querer controlar o que não me é possível; compreender que as tempestades são passageiras e manter-me no equilíbrio diante dos fatos.

A preta velha disse-me o que dizia minha outra preta velha, minha avó: aquilo que não tem remédio, meu filho, remediado está.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Mordaça...

O medo era cotidiano; impresso nos pequenos gestos; infiltrado em triviais diálogos. Sua presença era tolerada e visível apenas por mim, já que os outros se ocupavam com seus próprios temores. Não lembro quando me viciei no medo, como um lugar a que sempre recorri entre minhas metades. O medo era a ausência do amor como uma carta de abandono deixada em cima da mesa. O inequívoco sinal da minha incompetência para ser e estar. Mordaça a impedir-me de ouvir as esperanças. O medo nutriu-se do tempo e dos amores que não vingaram. O vazio a preencher-me o peito. O peito a denunciar-me triste. A tristeza a revelar o medo. O medo era cotidiano, como todas as outras coisas. Uma covardia, a levar-me para longe sem permitir o amor poder assim me reencontrar.

domingo, 18 de junho de 2017

Padecimento...

Padeço por aquilo que já acabou. Anuncio discretamente as saudades. Denuncio meus medos. Revisito tristezas. Reincido nos erros. Prevejo o que nunca será. Sinto culpas de validade vencida. Calo silêncios a força. Enveneno os afetos. Ando em círculos, dou murro em pontas de faca, ouço o tédio das paredes. E me anulo de maneiras incríveis.

Reconheço corpos e memórias, diariamente.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Eclipses...

É preciso convocar os demônios às palavras. Como inquilinos das coisas tristes a soprar-nos o que ocultamos. Se os anjos iluminam os óbvios, os demônios incendeiam as verdades. Porque carregados de nuvens e vales morremos no meio do caminho para nós mesmos.

E o que enxergamos senão sempre debaixo dos eclipses?

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Ele mesmo...

Abandonado aos excessos em razão do que lhe faltava; o sono entorpecido pelas repetições do que vivia, como própria defesa, doía-se para evitar doer; perdia-se para evitar perder-se. Sem previsões para as alturas, seu medo era de tornar-se menor do que ele mesmo. Contornava diariamente as exigências da angústia que lhe convocava ao nada. As paixões sendo a medida de todas as coisas tornou-lhe por isto um escravo. O vôo era sempre um raso a conceder breve anúncio das alturas. O álcool lhe era uma porta, o lsd lhe era janela, o sexo lhe era altar: nenhum a bastar por durar apenas um esquecimento, uma rápida excitação casual a torná-los interessantes, o alívio fortuito a dissolvê-lo no mundo implacável das coisas postas. O sonho sem sentido reproduzia a vida. O amor ausente o levava à beira da cama para o devido diálogo com as tristezas. Graduou-se nos silêncios e na solidão de casa. Adiava-se continuamente por não reconhecer quem seria caso viesse a encontrar-se

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Metade...

Ao longo dos caminhos, tornamo-nos metade. Metade para caber menos. Menos do sofrer, por certo, mas por infeliz (in)consequência, menos do viver e do amar. A metade nos acontece pela distância que criamos entre nós e o outro, entre nós e a própria vida. Quem se faz metade, anestesia-se para mais facilmente despedir o que o consome. Deixamos de sentir urgências em existir e pouco passa a nos devorar, a não ser nossa própria metade. Ignoramos as alturas do Amor, não mais sabendo a dor da queda, tampouco as nossas liberdades. (Não é pelo risco de cairmos no precipício que sabemos dos nossos voos?) Quem é metade, metade é para não se arriscar nos apuros de ser inteiro. Ser metade é sofrer menos, sendo menos feliz inclusive. Aquele que é metade garante não cair com a cara no chão nem trocar os pés pelas mãos, pois não sairá de casa, da casca, nem de si. Há quem escolheu ser metade porque um dia doou seu inteiro ao Amor que (se) partiu. Então não mais se permite, não se apega, não se queima e não se cura. Não morre, mas também não recomeça. Quantos de nós não escolhe morar neste conforto que faz a vida e o coração não pedir muito da gente? Aquilo que dói, facilmente se resolve. O amor, pela metade, abandona-se. O desejo, pela metade, engole-se. A possibilidade de fuga torna-se grande, nesta monótona linha reta sem os interessantes becos sem saída no labirinto das paixões. Dispensamos as riquezas dos encontros por não querermos lidar com os encargos que a vida junto nos cobra. E a única que sussurra entre os silêncios que instalamos à força em nossas marés é a tristeza que intui merecermos mais do que nos tornamos. Tornamo-nos hábeis em manter um pé atrás dentro da armadura emocional que construímos com o tempo que não aproveitamos em ressignificar nossas dores e seguirmos adiante. Encarcerados em nós, nada nos queimará infernalmente - nem deliciosamente - como antes. As asas não precisarão ser largas, e o mergulho nem tão profundo. Preenchendo-nos com vazios, focando trivialidades e fugazes prazeres, passamos às emoções em rodízio. Pela nossa fragilidade, queremos facilidades. Pelo nosso endurecimento, exigimos a qualquer custo a leveza. Assim, fugimos da responsabilidade de acolher o Amor com todas as suas sombras e deveres, porque o Amor nos convoca às inteirezas. O Amor rasga, mas também costura. Evitamos entrar e nos dedicarmos porque não queremos mais doer como um dia doemos. E o amadurecimento que deveria fazer nossa transição para dias melhores, não acontece porque resolvemos não despertar do sonho de ser semente. Quem sabe um dia lembremos que a beleza da flor aconteceu porque ela ousou ser cor entre as tormentas.

(Texto do meu livro "Teoria Geral do Desassossego", publicado pela Ed. Penalux)

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Subtração...

A tristeza é uma subtração dos dias dentro de mim; uma anulação do tempo para sentir-me vivo. Viro o rosto para o que mora comigo ainda que diariamente beba daquilo que ignoro. Vejo-me cheio de razões para tudo mas que para nada me aliviam. Aconteço-me sem planejamentos, como uma insistência em manter-me cego e adiado.

O descaso da chuva é sempre para mim.

domingo, 11 de junho de 2017

Amorosa...

O amor pousa mais facilmente naqueles que se encontram inteiros, caso contrário e nos será difícil discernirmos o amor de uma amorosa ilusão.

sábado, 10 de junho de 2017

As palavras...

O calendário é uma mentira para as saudades mas uma verdade para o amor. Ou vice versa.
O café é o cheiro exato na ausência do cheiro dela. 
A tristeza é uma novela na qual quase morremos no final. 
A vida é uma coleção de despedidas que nem sempre se despedem de nós.
O óbvio é aquilo que quase nunca sabemos enxergar. 
A lua e as rosas sempre servirão para os poemas de quem procurar por um.
A salvação começa por nós mesmos. A ilusão será pensar de outro jeito.
Às vezes é preciso entrar para poder sair. Tem gente que quer sair antes de entrar.
O sol é um convite silencioso para as esperanças.
O lado que ignoramos é o que mais sabe de nós.
A escravidão pode ser muitas coisas que não nos parece escravidão. 
Temos facilidades para obedecer cores escuras no peito.
As palavras podem ser doçura ou espinho: depende de como amanhece o coração.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

O espelho...

Os detalhes estão cheios de deus. As nuvens nos contemplam a enxergar em cada um de nós muitas coisas. Os frutos dão nome aos sabores. O amor retira-nos das palavras. O altar é o lado externo do peito. O tempo dá sentido ao relógio - não o contrário. E no contrário do que pensamos habita sempre uma outra antiga versão da verdade. Andamos por caminhos percorridos inaugurados pela dor. A covardia visita-nos logo depois. A dor varia conforme a vida. A vida calcula-se sempre um palmo a mais de distância do nariz. A vida é uma reunião de detalhes. Os detalhes estão cheios de deus. Atravessamos as idades ignorando por demais estes detalhes.

E os homens com o espelho se confundem. 

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Vício...

O homem insista em mais um copo. Era o oitavo, hoje. E era a terceira vez que voltava ao bar sozinho. Dispensou os amigos para se sentir à vontade. Dispensou-se mais cedo do trabalho para sentar no balcão e fixar seus olhos. E sorrir. E sorrir, apenas. A bebedeira o deixava envergonhado e atento o suficiente para não esbarrar na porção de amendoim. Bebia grandes goles para pedir mais uma. E outra. E outra. E isto por conta da mesma. A bartender do lugar. A paixão era seu único vício. 

Além do cigarro.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Culpa...

A culpa é o tormento insistente do erro: espiritual indigestão do tempo. O desajuste de uma máquina infeliz, rigorosa impermanência do amor próprio, a culpa é o amargor pelo perdão que a nós não oferecemos, tolice a deixar-nos ausentes para as generosidades. A culpa é uma afronta, uma atitude implacável do peito a vingar-se de si, xeque mate do mal estar. Um dizimar jardins por tornar-se cego. A alta conta pela infelicidade. Candeeiro apagado, protesto contínuo dos infernos, prostíbulo dos demônios, a culpa é o teimoso cobrador de um passado morto.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Notícia...

Parece-me haver um brilho intenso na tristeza que tantos de nós paramos para apreciá-la, seduzidos pelo tempo a tonar-se costume de diante dela permanecermos. A felicidade decreta-se como ilusório destino e coisa móvel, escapável de molduras e artifícios para prendê-la perto; apresentando-se discreta e volátil entre gostos e prazeres que não a fixam jamais no peito. A tristeza, por sua vez, denuncia esta facilidade para manter-se como companhia a diminuir um pouco de cada um.

A tristeza é como a notícia da casa a demolir-se onde já fomos felizes.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Dos afetos...

Sabia ela sobre tudo: cristais, florais, pirâmides, astrologia, radiestesia, tantra, runas, shiatsu, tarot, mandala, yoga, cabala, quiromancia, economia, anatomia, johrei, hermetismo, filosofia, búzios, teosofia, do-in, hebraico, física quântica, física clássica, xamanismo, umbanda, quimbanda, teatro, meditação, beatles, reiki, sânscrito, ovnis, plantas, mantras, yantras, shiva, vedanta, atlantes, lemurianos, cup cake e poesia.

Só não sabia sobre os afetos.
Só não sabia sobre si.

domingo, 4 de junho de 2017

Arma...

Sua arma para ferir o coração era a palavra. Trouxe consigo esta violência desde menino quando adoeceu de mundo por lhe faltar amor. Sobreviveu apesar disso. As cicatrizes silenciosas a moldar o seu destino inscreviam toda e cada vez na própria carne os traços da sua glória e suas tragédias. A palavra era o punhal que usava sobre o seu próprio reflexo a curar-se pela renúncia da ferida. Para depois do travessão, a mentira. Para além do ponto final, suas verdades.

sábado, 3 de junho de 2017

Nunca mais...

A lágrima. O gesto. O outro. O peito. O tempo. O final. Era a última conversa sobre a última tristeza a dois. A necessidade de salvar o coração. A negação. A rua cheia de gente e os dois. E o final. O desespero do amor para ressuscitar o peito. A negação. A insistência. As lágrimas. Os gestos. O outro. O peito. O silêncio. E a despedida. A negação. A despedida. A insistência. A negação. As lágrimas. O frio. O aniversário dela. Ontem. E nenhum abraço. Não mais. Nunca mais.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Abajur...

Estas palavras são para todos os teus amanhãs; para que te abrigues da tristeza esta que nos visita quando não ouvimos as verdades que o amor propõe. Estas palavras são para que me encontres nos próximos dias do restante das nossas vidas. Desde que te amo que não sou outra coisa senão teu próprio peito. Tu me deste a vida que um dia pensei perdida, e insistes a devolver-me o que nunca tive. Tu me inundas de luz e colore o que já resistiu ser cinza. E desde que te amo a poesia é tua porque és tu minha poesia. Não poderia continuar a escrever sem a tua cumplicidade nas entrelinhas. O amor tem o teu cheiro entre os lençóis. O teu amor é a página e o capítulo que abro para escrever desejos.

O amor é o abajur que apago para dormirmos juntos.

domingo, 28 de maio de 2017

Absolvição...

A rotina me mastiga com sua boca cheia de dentes. E eu me anestesio exatamente porque não me dói. A cada semana ocupo-me com algo para distrair-me: uma nova série, um outro livro, um velho amigo e um mesmo bar; na espera do mesmo salário, das próximas férias, de uma dívida e um boleto para pagar. E apago-me por beber demais, comer demais, dormir de menos, viver de menos e reclamar por cada coisa que me enfrenta e não planejo. Um antiácido para a queimação e chá para as ansiedades. O cotidiano me rasga com o morno a que me apego. Culpo-me por infinitas razões; coleciono angústias e pequenas irritações mas desvio da responsabilidade por não saber o que fazer, como descartar o que não serve e me usar melhor. Enquanto isso, levo-me adiante sem planos de vôo, sem rotas de fuga ou saídas de emergência. Deparo-me com domingos, tédios e outras ruas sem saída. Os excessos todos me pertencem, os precipícios me chamam pelo nome. O alívio do álcool, das mentiras, do sono, do flerte, do egoísmo e o amor sempre impróprio. Sacio-me com venenos e vazios que me empurram uma vez mais para os dias que me massacram como a esperança de um prisioneiro que aguarda sua absolvição.

sábado, 27 de maio de 2017

A vigésima segunda visita da generosidade...

O nome nos veio como uma revelação. A ser desesplicada pelas lógicas e anteriores teorias. O nome nasceu na beira do sonho de minha amada, que a mim despertou com ele vivo dentro da boca. O nome nela pousou como pássaro numa janela aberta. Como solo sagrado para se deitar palavras. E as palavras como nítida presença de uma generosidade que caminha ao lado de cada um de nós, independendo dos calendários ou tristezas.

Um livro para reacender esperanças antigas.
Uma releitura generosa dos óbvios.

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Belíssima fotografia da querida Jaci Bathista.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

The end...

Não deu crédito ao autor.
Não dava jamais crédito ao autor.
Dava crédito apenas à sua própria mediocridade.

E Satanás, atento que só, a acompanhando por aqui, deu-lhe caganeira e urticária.

Pedagogia do terror, sabe?

Mas a mediocridade era tamanha que ela não ligou o com o cré.

Satanás, então, a cegou.

The end.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Aqui...

Aqui, escondemos as tristezas sob o verniz da permanente e invejável felicidade com a qual nos enfeitamos. Aqui, para além dos invejosos e acima do bem e do mal publicamos fotografia com uma frase motivacional. Aqui, temos remédios para todos os males. Os alheios, é claro. Receitas para a criminalidade, para a depressão, para a situação econômica e geopolítica. Um oceano de boa-fé e opiniões sobre tudo aquilo em que nos afogamos. Aqui, somos interessantes e inteligentes além da conta e da medida. Somos os astros do que gostaríamos de acreditar, presos neste carrossel que nos distrai e inteiro nos consome. Aqui, confundimos nossos personagens sem limites com nossas vidas tão comuns. E no vão entre os dois habitam nossas mentiras e inexistências. Neste museu de grandes novidades nos apegamos às palavras como dignas de vida ou morte. Enquanto on-line nos fragmentamos, a vida segue inteira e lá fora.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

A fotografia...

A fotografia. O único porta retrato da casa. Um registro apenas de si mesmo. Sorrindo numa festa dezoito anos antes. De quando era mais magro e seus pai ainda eram vivos, de quando viajava com os amigos e voltava tarde pra casa, de quando comia mal mas vivia bem, de quando dormia mal e acordava bem, de quando ainda não havia sido demitido, de quando ainda acreditava no amor, de quando se sentia mais leve, mais livre, mais outro, menos outro, mais ele mesmo.

Sentiu inveja de si, raiva de si e culpa de si por não ter sabido nunca se usar melhor. Ele foi feliz e não sabia, nunca soube. Soube apenas agora.

Jogou o porta retrato fora.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Respirar...

Eu respiro o presente e não me contento. Convoco lembranças e não me basto. Mantenho-me refém das culpas e frustrações que sinto por não me usar melhor. O charme do futuro e os roteiros todos do passado levam-me para sempre longe. Eu respiro o presente e não me encontro. Sobra o que de mim falta e que não acrescento porque não sei. E o que não sei me parece ser o óbvio que insistente ignoro. Uma verdade que me aliviaria caso soubesse; que me devolveria parte de mim caso a conhecesse. A parte de mim que nego parece-me o inteiro. Parece-me porque nunca o soube ser. A parte de mim que ignoro é a que me salvaria da crença de que só é possível viver de outro jeito e nunca deste, de que vivo como quem se afoga na própria vida e deseja desesperadamente um amor para se agarrar. O presente é este momento onde nunca estou e o único onde me é possível estar. Eu o respiro enquanto o perco. O que posso concluir é que não o sei respirar.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

As coisas divinas...

As ausências e prolongados vazios dão-nos demasiado tempo para nos preocuparmos com coisa nenhuma ou, formularmos discursos e defesas sobre qualquer coisa. Ocultos por entre as falas e os triviais comentários e as cotidianas reclamações, queremos as coisas divinas, que as espezinhamos pela nossa falta de generosidade. Desenvolvemos medos feitos de tristezas que a eles recorremos, diariamente. Derramamos as saudades dos tempos aos móveis de casa, convivemos com silêncios feitos das memórias tristes, ressignificamos o mundo pelos olhos amargos cultivados. Aí, como que por descuido ou distração, dá-me tu ao amor que mais futuro entrega-me do que qualquer esperança ou previsão, salvando-me de tão grande morte por preservar os sonhos que lhe dedico e celebrar o tempo futuro nos teus abraços, alongando-me a vida sem um passo a mais. Toco o teu nome em minha boca para falar das certezas e beijar-te nas distâncias. Diante dos teus olhos, fecho os meus. Brilham as estrelas em paz agora.

(Texto do meu livro "Teoria Geral do Desassossego", publicado pela Ed. Penalux)

sábado, 6 de maio de 2017

Porão...

Semeamos o erro e queremos a flor mais bonita. Carregamos os cacos e reclamamos doerem as mãos. Enfeitamos a alma com medos e não entendemos doença. Ao amor fecho os olhos mas cego é o coração. Somos donos de casa vistosa numa rua sem saída. Somos parte de um encontro que já aguarda a despedida. Versamos na boca a liberdade mas vivemos mesmo é no porão: um sufoco com porta que à parede leva e uma esperança com escada que ao teto chega. E quando soube o homem ser o seu porão apenas sonho ruim, gaiola virou ninho, corrente virou caminho, farpas e pedras, o seu jardim. Que por lá moravam três ventos, quatro lágrimas, duas promessas e um só pé-de-sol, que ao florescer de luz inundou riacho e arrastou para longe as tristezas, abrindo com força a janela da casa e o próprio peito, espantando as sombras que por lá dormiam presas.

(Releitura de um texto antigo meu de 2011)

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Sobre a espera...

São 182 envelopes.
São 182 envelopes com o nome e endereço de cada um.

Os livros estão ganhando vida na gráfica e virão de uma só vez; única tiragem; filhos únicos.

Aqui, eu e Anna esperamos a chegada para deixá-los prontos para postagem. Com a dedicatória merecida. 
 
A previsão é que tanto cheguem quanto partam na semana mesma do dia 15/05. Ou antes.
Eu sei, eu sei. Eu estou tão ansioso quanto vocês. E impaciente.

Peço que aguardem um pouco mais. Um pouco mais, apenas.
Volto a dizer que a espera valerá a pena. 
E a ansiedade será superada pela boa literatura. É o que reza a lenda.

Uma vez mais agradeço a cada um que garantiu o seu e colaborou para o nascimento da obra nova. Por isso a pré venda, que se tornou a única venda.

Aos que guardam alguma dúvida, podem me chamar no e-mail: guglicardoso@gmail.com. 

Estou à disposição.

Guilherme Antunes.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

O sonho de Anna...

Criou-se o sonho para haver manhãs. E ela despertou-me cheia de estranhezas. A palavra é por si só uma bruxaria. O nome pertencia a ela como um fruto. A partilhar comigo e para além de mim. O nome a ensinar-me o essencial sobre os pássaros. Criou-se o sonho para haver claridade. E ela despertou-me cheia de notícias. A palavra é por si só uma verdade. O nome pertencia a ela como uma semente. A partilhar comigo por amor. O nome a ensinar-me o essencial sobre a generosidade. Anna deu vida ao nome, ao livro, aos pássaros, ao amor. Através de suas noites para haver dia; para haver páginas; para haver verdade; para haver destino. E algum amor. A salvar-nos todos. Como proponho. Como convido.

Conto-lhes aqui o sonho de Anna.

domingo, 30 de abril de 2017

Um passo...

Um passo. Eu estou sempre a um passo de mim; do ideal, daquilo que penso ser melhor do que me manter onde estou. Eu estou sempre a um passo, pendente um passo, de alcançar o meu platô e poder de uma vez descansar, realizar o que penso ser o meu caminho e meu desiderato, caber nos meus inteiros, não sendo esta soma de atalhos como sou até então, distante apenas um passo daquilo que nunca acontece: o passo mesmo. Como horizonte que se afasta enquanto dele me aproximo. Um passo. Eis o que me separa da minha pretendida e suposta libertação; do que sou para o que deveria ser. Entre mim e eu há apenas um quase vão, um quase alívio, um quase gozo, a um passo da minha definitiva revolução, do meu clímax espiritual, da minha essencial descontinuidade. Um passo para deixar este cansaço de ser um ensaio e começar realmente a viver. Quem sabe estar definitivamente no lugar certo, com o corpo adequado, com a fala exata no tempo certo, acertando todas as minhas escolhas e recusas. A um passo para desencanar de tudo aquilo que amontoei como pendência, assuntos e relações mal resolvidas, adiando meu derradeiro equilíbrio. Um passo a calar meu incômodo por eu nunca me acontecer como o planejado, querido, desejado, sonhado, merecido. Um passo não dado a manter-me aqui, com meus erros muitos, meus pecados tantos, minha habitual insensatez, distraindo-me numa angustia por ser e estar sempre incompleto, inacabado, preocupado, urgente e desconfortável em mim. Este passo que não dou e que me adia, garante-me um autoperdão hipócrita a minimizar minhas culpas e consequências, convencendo-me de que o que serei compensará o que tenho sido e que dos males que sofro e faço, não mais os repetirei. Assim me autorizo a ser uma insatisfação constante, pois este é o puto passo que me mantém nesta segura distância deste encontro comigo, a alcançar uma paz que não acontece. E enquanto finjo que não sei o que fazer quando me grita a Existência, caminho para qualquer direção.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Sempre...

A esperança se usava sempre da voz dos pássaros.

domingo, 23 de abril de 2017

Maturação...

Seria possível dizermos que não há medos e ansiedades? Olharmos para tudo o que vivemos com nossos pais e aceitá-los, entendê-los e perdoá-los? Seria possível afirmar que nos vemos livres da carência, dos ciúmes, das irritações, do egoísmo? Conseguiríamos aceitar com generosidade aquilo que se viveu, errou e sofreu sem culpas, mágoas, ressentimentos e tristezas?

Qual degrau estamos? E qual acreditamos estar?

A resposta, guarde para devida maturação.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Das implicâncias...

Há gente de todo lado a louvar coisas que por certo não agradam a toda gente, como chouriço, mocassins, férias na praia e dessincronias. Quero, pois, versar sobre os embaraços criados por estas últimas a que menciono. Defino a dita cuja como o descompasso entre tempo e o ritmo na ordem dos fatos ao facilitar desagradáveis pormenores e causar-nos alguma turbulência em nosso plácido céu de brigadeiro cotidiano. A "sincronia" dá-se por conta da desoportunidade e a sua possibilidade de causar-nos pequenas frustrações e vergonhas. Dou exemplos: o inexato instante que decide com dúvidas avançar a faixa de pedestres por não saber quanto tempo de sinal verde resta para você e vermelho para os carros. Você dá o primeiro passo adiante e descobre. Não restava nada. Os carros aceleram e você recua, sentindo-se uma besta. Outro: elevador parado no andar com alguns gatos pingados dentro. Ao longe você, calculando os passos, a velocidade no trajeto e um sentimento que só nos aparece em horas assim, aquele de acreditarmos na humanidade o suficiente para pensar que algum bom samaritano segurará a porta para nós. É o tempo preciso para colar com a fuça na porta que acabou de fechar. Ninguém a segurou e você mais uma vez com cara de besta. Outro clássico: lépido, faceiro e distraído, caminhando pela calçada avista pessoa a lhe acenar. Um filme se passa com todos os rostos possíveis e situações prováveis. Você chega a conclusão de que é um desmemoriado e cheio de dedos resolve acenar em retribuição. Sorri, inclusive. Na sua direção a pessoa atravessa seu corpo como se você não existisse a abraçar a outra atrás de ti. Seu castelinho de cartas emocional desaba num só golpe de vergonha. Cara de besta e saída pela tangente. Tem aquela quando acenamos ao ônibus e ele passa direto, ou quando continuamos falando alto no momento em que a música acaba e mais outros milhares de pequenos constrangimentos patrocinados pela dessincronia. Talvez ela seja fruto de uma distração dos anjos ao permitir maquiavélica mancomunação entre o tempo e o capiroto, a arrancar-nos a dignidade e a orientação num breve segundo, devolvendo-nos logo em seguida. Nunca saberemos.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Ontens...

Peço que a seguir desconsidere eventuais erros de concordância entre o tempo e as saudades, grife apenas a poesia oculta nas tristezas e deixe somente o meu amor em evidência. O amor emudeceu-me, amordaçou-me, e falou por mim. Disse saber dos detalhes e verdades tuas que floresceram num ontem enfeitado por nós. Assim, venho pedir-lhe: dispensa-me deste agora em que não te encontras, pois, o teu amor tornou sagradas as lembranças: templo passado que regresso apenas para saber de ti. Permita-me voltar e buscar-te no ontem, para nos repetirmos nos detalhes de que são feitos os amantes. Cenário onde não se exige nada além daquilo que já fomos. E nele, quero correr reincidente risco de morrer de amor, ainda que eu não venha a saber como renascer, visto que não há chances em que aprenderei a me despedir de ti. Não sou nem serei versado nas ausências que vez em quando permite o amor em nós. Coração que jamais sofreu com saudades e despedidas só pode ser aquele que ainda não (se) partiu. Você partiu e eu, partido estou. Sinto saudades como se ontem fosse lugar distante, mas dos lugares, o mais bonito, distante de um hoje em que teu olhar não mais cruza o meu. Por isso vivo inteiro ontem, e apenas lá, visto que os amanhãs não pertencem a nós dois, nem nós dois a eles. Por lá habitam apenas as promessas e os desejos. No passado, toco-te a despertar adormecidos sonhos com teu cheiro. Por isto, lá vivo, convencido que o hoje nasceu para o ontem, para contar-me de ti pelas memórias com o teu nome, a calar o tempo com o som da tua guardada voz em mim, para suspender o agravamento das tristezas. Hoje é também um pretexto para esperar a tua volta e me abençoar, vestir-me de sol e lembrar como amanhecer, chegando à conclusão que o que havia sentido ontem, na ausência tua não fez sentido algum. O que fazer depois que o amor vai embora? Do hoje parti quando ontem me despedi de ti. E por que costuma o amor partir antes da hora? Lá, no ontem, éramos o nosso melhor encontro, pois as despedidas não haviam de ser. Mas aqui, neste frágil agora, dói-nos o luto da separação e de não sermos mais. No ontem não sou tão real quanto sou hoje, mas quem se importa? 

O amor aceita qualquer justificativa para continuar sendo.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Controversa...

Uma grande tristeza lhe era como uma exuberância controversa. Acreditava que no íntimo de cada um dos homens havia um envergonhado orgulho de sustentá-las. Uma das razões de não as despedirmos mais cedo.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Carta V...

[...]  Por isso não vale a pena decretarmos nossos amanhãs a partir dos humores tristes de hoje. Não vale anteciparmos a tristeza porque decretamos que algo será ou deixará de ser, como uma constatação míope de um peito carregado que pouco permite que enxerguemos.

(Carta a uma amiga)

quarta-feira, 12 de abril de 2017

De quem, afinal?

A vida é coisa muito frágil e para protegê-la deixamos de viver. Qual o sentido de evitarmos o que não se deve, insistirmos com o que não se pode e nos perdermos? Por que fazemos questão das tristezas, dos cacos, dos escuros e tempestades? Por que insistimos tanto e tantas vezes em morrer? Perdemos o amor como quem perde o ônibus. Aguardamos o amor como quem aguarda o ônibus. As urgências estão equivocadas. As insônias estão equivocadas. O que nos dói é o que de nós mastigamos. E nos cremos muito por não aceitarmos qualquer desaforo.

Mas, de quem, afinal?

terça-feira, 11 de abril de 2017

Para trás...

A dor que insiste em permanecer é aquela que mais fala de ti. Escutar a verdade que ela insistentemente sussurra nas entrelinhas é o que lhe dará o direito a deixá-la para trás.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Peleja...

É na palavra que me torno dócil, que mastigo educado a vida, que cicatrizo minha mãe e abençoo meu pai. É na palavra que salgo a carne, que tombo em combate, que vendo o tempo que me restou no peito. É na palavra que amarro a lembrança, faço peleja com a tristeza, e consagro-me dia sim, dia não, um sobrevivente.

domingo, 9 de abril de 2017

A vigésima segunda visita da generosidade...

Uma releitura generosa dos óbvios.

O meu terceiro livro, pela Editora Penalux.

A pré-venda está aberta.
R$ 42 reais já com o frete.

A quem interessar, 
mande e-mail: guglicardoso@gmail.com

quinta-feira, 6 de abril de 2017

A lâmina...

A palavra é minha mandinga, 
meu patuá, 
meu guarda-chuva, 
meu divã
e a vela acesa. 

A palavra é a catarse, 
o congá, 
o orgasmo, 
o orgulho
o antiácido, 
o vale do mês, 
o boleto pago
e a lâmina que
diariamente desafio
a realidade.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Devoção...

éramos tão novos e já amávamos um amor antigo.

aqui,
peço que olhes o teu reflexo nos meus próprios olhos:
não há intimidade maior do que olharmos juntos para o que se ama.

na ausência tua,
os lugares todos te reconhecem
(e eu neles não me reconheço mais)

diga-me amor,
de que país se é quando se ama assim?

a palavra é impaciente quando não escutas,
o sossego é incompleto quando não estás
quando regressas
beijo-te dez segundos
e sou feliz para sempre

prometo amar-te até
a última folha do calendário,
e a primeira

prometo amar-te até 
o último limite,
e amar-te quando 
não houver nenhum limite mais

na aritmética exata dos desejos
a geometria perfeita do teu corpo no meu;
se te desenhasse seria um homem completo

trazes-me
a fome absoluta. o prazer absoluto.
a entrega à vida

debaixo de uma lua só nossa
tua silhueta brinca-me com as sombras
nas cores rubras do abajur do quarto

por debaixo desta luz
minha devoção:

Deus é uma bailaora.

sábado, 1 de abril de 2017

A vigésima segunda visita da generosidade...

"A vigésima segunda visita da generosidade"

Uma releitura generosa dos óbvios.

À força do instante,
inesperado o saber
das asas. 

A quem interessar possa, mande-me mensagem:

quarta-feira, 29 de março de 2017

Carta IV...

[...] a outra coisa é que iremos atrair para a nossa vida as experiências que confirmem as crenças que temos sobre nós. A repetição dos padrões e frustrações se dão por conta das questões interiores que para cada uma delas ainda não olhamos profundamente e com generosidade. O que penso é que ciente dos nossos engessamentos poderemos mudar a narrativa emocional que andamos a escrever e a repeti-la diariamente. Dissolvendo os nós e libertando-nos do passado, ganhamos a liberdade e o espaço para permitirmos que o novo realmente venha. Quanto mais olharmos para nós, melhor enxergaremos a vida. Quanto mais nos amarmos, mais o amor poderá chegar. Creio que esta seja a lei.

(Carta a uma amiga)

segunda-feira, 27 de março de 2017

Sem muito doer...

Quando deus se mostrava feio ou a vida zangada, procurava-me. A salvar-se na palavra. A apoiar-se na beira da culpa sem cair. Quando a angústia a condenava, procurava-me. A salvar-se na palavra e abrigar-se da maldade e dos próprios erros. Costurei palavras para dar-lhe tempo de tornar-se outra apenas por imaginar-se outra que pudesse se tornar. A verdade concede-nos uma viagem sem regressos. Quando deus se mostrava feio ou a vida zangada, a literatura servia a ela como um pequeno milagre de se repetir. Sem muito doer.