sábado, 27 de maio de 2017

A vigésima segunda visita da generosidade...

O nome nos veio como uma revelação. A ser desesplicada pelas lógicas e anteriores teorias. O nome nasceu na beira do sonho de minha amada, que a mim despertou com ele vivo dentro da boca. O nome nela pousou como pássaro numa janela aberta. Como solo sagrado para se deitar palavras. E as palavras como nítida presença de uma generosidade que caminha ao lado de cada um de nós, independendo dos calendários ou tristezas.

Um livro para reacender esperanças antigas.
Uma releitura generosa dos óbvios.

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Belíssima fotografia da querida Jaci Bathista.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

The end...

Não deu crédito ao autor.
Não dava jamais crédito ao autor.
Dava crédito apenas à sua própria mediocridade.

E Satanás, atento que só, a acompanhando por aqui, deu-lhe caganeira e urticária.

Pedagogia do terror, sabe?

Mas a mediocridade era tamanha que ela não ligou o com o cré.

Satanás, então, a cegou.

The end.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Aqui...

Aqui, escondemos as tristezas sob o verniz da permanente e invejável felicidade com a qual nos enfeitamos. Aqui, para além dos invejosos e acima do bem e do mal publicamos fotografia com uma frase motivacional. Aqui, temos remédios para todos os males. Os alheios, é claro. Receitas para a criminalidade, para a depressão, para a situação econômica e geopolítica. Um oceano de boa-fé e opiniões sobre tudo aquilo em que nos afogamos. Aqui, somos interessantes e inteligentes além da conta e da medida. Somos os astros do que gostaríamos de acreditar, presos neste carrossel que nos distrai e inteiro nos consome. Aqui, confundimos nossos personagens sem limites com nossas vidas tão comuns. E no vão entre os dois habitam nossas mentiras e inexistências. Neste museu de grandes novidades nos apegamos às palavras como dignas de vida ou morte. Enquanto on-line nos fragmentamos, a vida segue inteira e lá fora.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

A fotografia...

A fotografia. O único porta retrato da casa. Um registro apenas de si mesmo. Sorrindo numa festa dezoito anos antes. De quando era mais magro e seus pai ainda eram vivos, de quando viajava com os amigos e voltava tarde pra casa, de quando comia mal mas vivia bem, de quando dormia mal e acordava bem, de quando ainda não havia sido demitido, de quando ainda acreditava no amor, de quando se sentia mais leve, mais livre, mais outro, menos outro, mais ele mesmo.

Sentiu inveja de si, raiva de si e culpa de si por não ter sabido nunca se usar melhor. Ele foi feliz e não sabia, nunca soube. Soube apenas agora.

Jogou o porta retrato fora.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Respirar...

Eu respiro o presente e não me contento. Convoco lembranças e não me basto. Mantenho-me refém das culpas e frustrações que sinto por não me usar melhor. O charme do futuro e os roteiros todos do passado levam-me para sempre longe. Eu respiro o presente e não me encontro. Sobra o que de mim falta e que não acrescento porque não sei. E o que não sei me parece ser o óbvio que insistente ignoro. Uma verdade que me aliviaria caso soubesse; que me devolveria parte de mim caso a conhecesse. A parte de mim que nego parece-me o inteiro. Parece-me porque nunca o soube ser. A parte de mim que ignoro é a que me salvaria da crença de que só é possível viver de outro jeito e nunca deste, de que vivo como quem se afoga na própria vida e deseja desesperadamente um amor para se agarrar. O presente é este momento onde nunca estou e o único onde me é possível estar. Eu o respiro enquanto o perco. O que posso concluir é que não o sei respirar.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

As coisas divinas...

As ausências e prolongados vazios dão-nos demasiado tempo para nos preocuparmos com coisa nenhuma ou, formularmos discursos e defesas sobre qualquer coisa. Ocultos por entre as falas e os triviais comentários e as cotidianas reclamações, queremos as coisas divinas, que as espezinhamos pela nossa falta de generosidade. Desenvolvemos medos feitos de tristezas que a eles recorremos, diariamente. Derramamos as saudades dos tempos aos móveis de casa, convivemos com silêncios feitos das memórias tristes, ressignificamos o mundo pelos olhos amargos cultivados. Aí, como que por descuido ou distração, dá-me tu ao amor que mais futuro entrega-me do que qualquer esperança ou previsão, salvando-me de tão grande morte por preservar os sonhos que lhe dedico e celebrar o tempo futuro nos teus abraços, alongando-me a vida sem um passo a mais. Toco o teu nome em minha boca para falar das certezas e beijar-te nas distâncias. Diante dos teus olhos, fecho os meus. Brilham as estrelas em paz agora.

(Texto do meu livro "Teoria Geral do Desassossego", publicado pela Ed. Penalux)

sábado, 6 de maio de 2017

Porão...

Semeamos o erro e queremos a flor mais bonita. Carregamos os cacos e reclamamos doerem as mãos. Enfeitamos a alma com medos e não entendemos doença. Ao amor fecho os olhos mas cego é o coração. Somos donos de casa vistosa numa rua sem saída. Somos parte de um encontro que já aguarda a despedida. Versamos na boca a liberdade mas vivemos mesmo é no porão: um sufoco com porta que à parede leva e uma esperança com escada que ao teto chega. E quando soube o homem ser o seu porão apenas sonho ruim, gaiola virou ninho, corrente virou caminho, farpas e pedras, o seu jardim. Que por lá moravam três ventos, quatro lágrimas, duas promessas e um só pé-de-sol, que ao florescer de luz inundou riacho e arrastou para longe as tristezas, abrindo com força a janela da casa e o próprio peito, espantando as sombras que por lá dormiam presas.

(Releitura de um texto antigo meu de 2011)

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Sobre a espera...

São 182 envelopes.
São 182 envelopes com o nome e endereço de cada um.

Os livros estão ganhando vida na gráfica e virão de uma só vez; única tiragem; filhos únicos.

Aqui, eu e Anna esperamos a chegada para deixá-los prontos para postagem. Com a dedicatória merecida. 
 
A previsão é que tanto cheguem quanto partam na semana mesma do dia 15/05. Ou antes.
Eu sei, eu sei. Eu estou tão ansioso quanto vocês. E impaciente.

Peço que aguardem um pouco mais. Um pouco mais, apenas.
Volto a dizer que a espera valerá a pena. 
E a ansiedade será superada pela boa literatura. É o que reza a lenda.

Uma vez mais agradeço a cada um que garantiu o seu e colaborou para o nascimento da obra nova. Por isso a pré venda, que se tornou a única venda.

Aos que guardam alguma dúvida, podem me chamar no e-mail: guglicardoso@gmail.com. 

Estou à disposição.

Guilherme Antunes.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

O sonho de Anna...

Criou-se o sonho para haver manhãs. E ela despertou-me cheia de estranhezas. A palavra é por si só uma bruxaria. O nome pertencia a ela como um fruto. A partilhar comigo e para além de mim. O nome a ensinar-me o essencial sobre os pássaros. Criou-se o sonho para haver claridade. E ela despertou-me cheia de notícias. A palavra é por si só uma verdade. O nome pertencia a ela como uma semente. A partilhar comigo por amor. O nome a ensinar-me o essencial sobre a generosidade. Anna deu vida ao nome, ao livro, aos pássaros, ao amor. Através de suas noites para haver dia; para haver páginas; para haver verdade; para haver destino. E algum amor. A salvar-nos todos. Como proponho. Como convido.

Conto-lhes aqui o sonho de Anna.

domingo, 30 de abril de 2017

Um passo...

Um passo. Eu estou sempre a um passo de mim; do ideal, daquilo que penso ser melhor do que me manter onde estou. Eu estou sempre a um passo, pendente um passo, de alcançar o meu platô e poder de uma vez descansar, realizar o que penso ser o meu caminho e meu desiderato, caber nos meus inteiros, não sendo esta soma de atalhos como sou até então, distante apenas um passo daquilo que nunca acontece: o passo mesmo. Como horizonte que se afasta enquanto dele me aproximo. Um passo. Eis o que me separa da minha pretendida e suposta libertação; do que sou para o que deveria ser. Entre mim e eu há apenas um quase vão, um quase alívio, um quase gozo, a um passo da minha definitiva revolução, do meu clímax espiritual, da minha essencial descontinuidade. Um passo para deixar este cansaço de ser um ensaio e começar realmente a viver. Quem sabe estar definitivamente no lugar certo, com o corpo adequado, com a fala exata no tempo certo, acertando todas as minhas escolhas e recusas. A um passo para desencanar de tudo aquilo que amontoei como pendência, assuntos e relações mal resolvidas, adiando meu derradeiro equilíbrio. Um passo a calar meu incômodo por eu nunca me acontecer como o planejado, querido, desejado, sonhado, merecido. Um passo não dado a manter-me aqui, com meus erros muitos, meus pecados tantos, minha habitual insensatez, distraindo-me numa angustia por ser e estar sempre incompleto, inacabado, preocupado, urgente e desconfortável em mim. Este passo que não dou e que me adia, garante-me um autoperdão hipócrita a minimizar minhas culpas e consequências, convencendo-me de que o que serei compensará o que tenho sido e que dos males que sofro e faço, não mais os repetirei. Assim me autorizo a ser uma insatisfação constante, pois este é o puto passo que me mantém nesta segura distância deste encontro comigo, a alcançar uma paz que não acontece. E enquanto finjo que não sei o que fazer quando me grita a Existência, caminho para qualquer direção.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Sempre...

A esperança se usava sempre da voz dos pássaros.

domingo, 23 de abril de 2017

Maturação...

Seria possível dizermos que não há medos e ansiedades? Olharmos para tudo o que vivemos com nossos pais e aceitá-los, entendê-los e perdoá-los? Seria possível afirmar que nos vemos livres da carência, dos ciúmes, das irritações, do egoísmo? Conseguiríamos aceitar com generosidade aquilo que se viveu, errou e sofreu sem culpas, mágoas, ressentimentos e tristezas?

Qual degrau estamos? E qual acreditamos estar?

A resposta, guarde para devida maturação.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Das implicâncias...

Há gente de todo lado a louvar coisas que por certo não agradam a toda gente, como chouriço, mocassins, férias na praia e dessincronias. Quero, pois, versar sobre os embaraços criados por estas últimas a que menciono. Defino a dita cuja como o descompasso entre tempo e o ritmo na ordem dos fatos ao facilitar desagradáveis pormenores e causar-nos alguma turbulência em nosso plácido céu de brigadeiro cotidiano. A "sincronia" dá-se por conta da desoportunidade e a sua possibilidade de causar-nos pequenas frustrações e vergonhas. Dou exemplos: o inexato instante que decide com dúvidas avançar a faixa de pedestres por não saber quanto tempo de sinal verde resta para você e vermelho para os carros. Você dá o primeiro passo adiante e descobre. Não restava nada. Os carros aceleram e você recua, sentindo-se uma besta. Outro: elevador parado no andar com alguns gatos pingados dentro. Ao longe você, calculando os passos, a velocidade no trajeto e um sentimento que só nos aparece em horas assim, aquele de acreditarmos na humanidade o suficiente para pensar que algum bom samaritano segurará a porta para nós. É o tempo preciso para colar com a fuça na porta que acabou de fechar. Ninguém a segurou e você mais uma vez com cara de besta. Outro clássico: lépido, faceiro e distraído, caminhando pela calçada avista pessoa a lhe acenar. Um filme se passa com todos os rostos possíveis e situações prováveis. Você chega a conclusão de que é um desmemoriado e cheio de dedos resolve acenar em retribuição. Sorri, inclusive. Na sua direção a pessoa atravessa seu corpo como se você não existisse a abraçar a outra atrás de ti. Seu castelinho de cartas emocional desaba num só golpe de vergonha. Cara de besta e saída pela tangente. Tem aquela quando acenamos ao ônibus e ele passa direto, ou quando continuamos falando alto no momento em que a música acaba e mais outros milhares de pequenos constrangimentos patrocinados pela dessincronia. Talvez ela seja fruto de uma distração dos anjos ao permitir maquiavélica mancomunação entre o tempo e o capiroto, a arrancar-nos a dignidade e a orientação num breve segundo, devolvendo-nos logo em seguida. Nunca saberemos.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Ontens...

Peço que a seguir desconsidere eventuais erros de concordância entre o tempo e as saudades, grife apenas a poesia oculta nas tristezas e deixe somente o meu amor em evidência. O amor emudeceu-me, amordaçou-me, e falou por mim. Disse saber dos detalhes e verdades tuas que floresceram num ontem enfeitado por nós. Assim, venho pedir-lhe: dispensa-me deste agora em que não te encontras, pois, o teu amor tornou sagradas as lembranças: templo passado que regresso apenas para saber de ti. Permita-me voltar e buscar-te no ontem, para nos repetirmos nos detalhes de que são feitos os amantes. Cenário onde não se exige nada além daquilo que já fomos. E nele, quero correr reincidente risco de morrer de amor, ainda que eu não venha a saber como renascer, visto que não há chances em que aprenderei a me despedir de ti. Não sou nem serei versado nas ausências que vez em quando permite o amor em nós. Coração que jamais sofreu com saudades e despedidas só pode ser aquele que ainda não (se) partiu. Você partiu e eu, partido estou. Sinto saudades como se ontem fosse lugar distante, mas dos lugares, o mais bonito, distante de um hoje em que teu olhar não mais cruza o meu. Por isso vivo inteiro ontem, e apenas lá, visto que os amanhãs não pertencem a nós dois, nem nós dois a eles. Por lá habitam apenas as promessas e os desejos. No passado, toco-te a despertar adormecidos sonhos com teu cheiro. Por isto, lá vivo, convencido que o hoje nasceu para o ontem, para contar-me de ti pelas memórias com o teu nome, a calar o tempo com o som da tua guardada voz em mim, para suspender o agravamento das tristezas. Hoje é também um pretexto para esperar a tua volta e me abençoar, vestir-me de sol e lembrar como amanhecer, chegando à conclusão que o que havia sentido ontem, na ausência tua não fez sentido algum. O que fazer depois que o amor vai embora? Do hoje parti quando ontem me despedi de ti. E por que costuma o amor partir antes da hora? Lá, no ontem, éramos o nosso melhor encontro, pois as despedidas não haviam de ser. Mas aqui, neste frágil agora, dói-nos o luto da separação e de não sermos mais. No ontem não sou tão real quanto sou hoje, mas quem se importa? 

O amor aceita qualquer justificativa para continuar sendo.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Controversa...

Uma grande tristeza lhe era como uma exuberância controversa. Acreditava que no íntimo de cada um dos homens havia um envergonhado orgulho de sustentá-las. Uma das razões de não as despedirmos mais cedo.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Carta V...

[...]  Por isso não vale a pena decretarmos nossos amanhãs a partir dos humores tristes de hoje. Não vale anteciparmos a tristeza porque decretamos que algo será ou deixará de ser, como uma constatação míope de um peito carregado que pouco permite que enxerguemos.

(Carta a uma amiga)

quarta-feira, 12 de abril de 2017

De quem, afinal?

A vida é coisa muito frágil e para protegê-la deixamos de viver. Qual o sentido de evitarmos o que não se deve, insistirmos com o que não se pode e nos perdermos? Por que fazemos questão das tristezas, dos cacos, dos escuros e tempestades? Por que insistimos tanto e tantas vezes em morrer? Perdemos o amor como quem perde o ônibus. Aguardamos o amor como quem aguarda o ônibus. As urgências estão equivocadas. As insônias estão equivocadas. O que nos dói é o que de nós mastigamos. E nos cremos muito por não aceitarmos qualquer desaforo.

Mas, de quem, afinal?

terça-feira, 11 de abril de 2017

Para trás...

A dor que insiste em permanecer é aquela que mais fala de ti. Escutar a verdade que ela insistentemente sussurra nas entrelinhas é o que lhe dará o direito a deixá-la para trás.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Peleja...

É na palavra que me torno dócil, que mastigo educado a vida, que cicatrizo minha mãe e abençoo meu pai. É na palavra que salgo a carne, que tombo em combate, que vendo o tempo que me restou no peito. É na palavra que amarro a lembrança, faço peleja com a tristeza, e consagro-me dia sim, dia não, um sobrevivente.

domingo, 9 de abril de 2017

A vigésima segunda visita da generosidade...

Uma releitura generosa dos óbvios.

O meu terceiro livro, pela Editora Penalux.

A pré-venda está aberta.
R$ 42 reais já com o frete.

A quem interessar, 
mande e-mail: guglicardoso@gmail.com

quinta-feira, 6 de abril de 2017

A lâmina...

A palavra é minha mandinga, 
meu patuá, 
meu guarda-chuva, 
meu divã
e a vela acesa. 

A palavra é a catarse, 
o congá, 
o orgasmo, 
o orgulho
o antiácido, 
o vale do mês, 
o boleto pago
e a lâmina que
diariamente desafio
a realidade.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Devoção...

éramos tão novos e já amávamos um amor antigo.

aqui,
peço que olhes o teu reflexo nos meus próprios olhos:
não há intimidade maior do que olharmos juntos para o que se ama.

na ausência tua,
os lugares todos te reconhecem
(e eu neles não me reconheço mais)

diga-me amor,
de que país se é quando se ama assim?

a palavra é impaciente quando não escutas,
o sossego é incompleto quando não estás
quando regressas
beijo-te dez segundos
e sou feliz para sempre

prometo amar-te até
a última folha do calendário,
e a primeira

prometo amar-te até 
o último limite,
e amar-te quando 
não houver nenhum limite mais

na aritmética exata dos desejos
a geometria perfeita do teu corpo no meu;
se te desenhasse seria um homem completo

trazes-me
a fome absoluta. o prazer absoluto.
a entrega à vida

debaixo de uma lua só nossa
tua silhueta brinca-me com as sombras
nas cores rubras do abajur do quarto

por debaixo desta luz
minha devoção:

Deus é uma bailaora.

sábado, 1 de abril de 2017

A vigésima segunda visita da generosidade...

"A vigésima segunda visita da generosidade"

Uma releitura generosa dos óbvios.

À força do instante,
inesperado o saber
das asas. 

A quem interessar possa, mande-me mensagem:

quarta-feira, 29 de março de 2017

Carta IV...

[...] a outra coisa é que iremos atrair para a nossa vida as experiências que confirmem as crenças que temos sobre nós. A repetição dos padrões e frustrações se dão por conta das questões interiores que para cada uma delas ainda não olhamos profundamente e com generosidade. O que penso é que ciente dos nossos engessamentos poderemos mudar a narrativa emocional que andamos a escrever e a repeti-la diariamente. Dissolvendo os nós e libertando-nos do passado, ganhamos a liberdade e o espaço para permitirmos que o novo realmente venha. Quanto mais olharmos para nós, melhor enxergaremos a vida. Quanto mais nos amarmos, mais o amor poderá chegar. Creio que esta seja a lei.

(Carta a uma amiga)

segunda-feira, 27 de março de 2017

Sem muito doer...

Quando deus se mostrava feio ou a vida zangada, procurava-me. A salvar-se na palavra. A apoiar-se na beira da culpa sem cair. Quando a angústia a condenava, procurava-me. A salvar-se na palavra e abrigar-se da maldade e dos próprios erros. Costurei palavras para dar-lhe tempo de tornar-se outra apenas por imaginar-se outra que pudesse se tornar. A verdade concede-nos uma viagem sem regressos. Quando deus se mostrava feio ou a vida zangada, a literatura servia a ela como um pequeno milagre de se repetir. Sem muito doer.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Companhia...

Enquanto bebo uma cerveja, aguardo o amor vir sentar-se do outro lado da mesa. Não carece saber o que me dirá em seguida. O que quer que me diga será o suficiente.

Afinal, não é sempre que o amor nos faz companhia.

terça-feira, 21 de março de 2017

Saiam...

Aos demônios, convido a se retirarem.

Obrigado.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Emocionais, é claro.

A previsão do tempo nos permite escolhermos ou não os guarda-chuvas. Apenas isto. Sem garantias, como gostariam nossas ansiedades. Sem certezas, como precisariam nossos controles.

A previsão do tempo é apenas um pretexto para prevermos.

Somos dependentes das previsões e receitas de bolo.
Emocionais, é claro.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Desamor...

O desamor é um vício que pode prender-nos entre os altos e baixos de uma abstinência amorosa. O amor que não há é o exato vazio que nos sufoca. Sair do inferno é um lento e gradual recomeço. Afastá-lo equivale a restaurar o amor próprio. O fato é que se pode, mesmo distante, ainda sentir a falta do enxofre. O mero primeiro frescor pode disparar o desejo de se regressar ao inferno apenas por ser um (in)suportável conhecido. Uma maneira perversa de procurarmos onde não há: maneira ingênua de buscarmos a felicidade na infelicidade. E isto porque nos foi a única notícia que recebemos nos últimos tempos.

Sair do inferno demora porque o inferno precisa sair igualmente de nós.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Humanidade...

Amar alguém é amar todos os outros. Assim como matar alguém é matar todos os outros. Isto se considerarmos a humanidade que nos atravessa indistintamente como uma verdade que nos comunica e nos define.

(Um atrevimento como resposta ao pensamento de Albert Camus)

quarta-feira, 8 de março de 2017

Uma falta de sentido...

A vida tornou-se um uníssono de pressas. Era importante que homens e mulheres imitassem a beleza para os encontros: belezas exageradas que não lhes pertenciam. Deviam assemelhar-se à alegria natural que carregavam para cada noite de festas. A ilusão do esquecimento a dar-lhes um pouco de sossego e fuga e sonho. Mas, era o dia seguinte quem lhes despertava. Era o espelho recente da memória quem mostrava suas sucessivas tolices. A vida tornou-se um uníssono de pressas que celebramos para convencer-nos de que celebramos. E era importante que homens e mulheres chegassem a lugar nenhum. Como um peito vazio; uma falta de sentido; uma saudade.

A saudade, por exemplo, era um lugar nenhum.

segunda-feira, 6 de março de 2017

E não o contrário...

O amor perdeu o amor. 
O amor perderá o amor. Os amores. 
O amor se perderá. 
Mas, o amor jamais perderá o amar. 
E o amar há de perdoar o amor.

É o verbo quem nos salva das desesperanças.
Uma e outra vez e cada vez mais. Sempre.

É o amor quem nos conjuga no tempo, e não o contrário.

sábado, 4 de março de 2017

Em nós...

alegrava-me por desaguar 
em nós o me
destino.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Sensatez...

O perigo de ser um excessivo sonhador era não viver o bastante para redimir-se de qualquer coisa que não havia lhe dado outro futuro e melhor oferta ao peito. O risco era bastar-se com suas interiores ilusões e invisíveis esquecimentos, prendendo a vida imensa no limitado da própria cama. Era nítido o contraste disto com as esperanças; estas que não permitia entrada no quarto a despertá-lo para continuar a procura de melhores destinos e algum amor.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Açúcar...

A miséria intelectual por aqui chega a tal monta que aquele que critica o uso abusivo do açúcar é imediatamente condenado como inequívoco defensor dos amargos.

Isto é, a estupidez de uma ideologia lançando sua própria cegueira sobre os outros.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Sobre você...

O que desejo é que você tenha todo o amor do mundo. Que o descubra aos poucos, no tempo certo de amadurecer, que é o tempo de melhor saber o amor em si. Descobrir o amor é saber amar-se. Saber amar-se é conceder a gentileza à inconsciência dos erros. Assim, que você se revele mais generosa consigo, despedindo culpas, mágoas, ansiedades e demais prisões. Que esta generosidade seja a luz a te esclarecer e iluminar os outros. Que você seja mais íntegra, honesta e leal consigo. O mundo a seguirá logo depois. O caminho se fará conforme a sua própria caminhada. Seja paciente com os seus próprios pés. O coração se fará abrigo para os que te amam e te querem bem. Será também janela para os seus ainda insuspeitos milagres.

(Carta enviada a uma amiga)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Feliz-para-todo-sempre...

Creio existir nesta terra almas com facilidades para o desenlace dos nós que nós e outros tantos criamos. Gente sem muitas alergias. Gente com afinidades para aquilo que enxergamos como sorte. Assim como outras doem-se mais facilmente pelas intensidades com que vivem, sentindo com maior gravidade o peso das suas aflições, sujeitas às tempestades na maior parte do tempo. Estas, de propensão aos cinzas e não por coincidência, parecem levar com alguma exatidão seus pés aos espinhos. Cabe lembrarmos que quando tristeza em nós por demais visita, felicidade não bate à porta. Esquecido isso e convencidos ficamos pela sua lábia a não mais acreditarmos que somos destinados às alturas tantas e caminhos muitos que nos esperam os destinos. 

Afinal, ninguém deixa visita sozinha em casa.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Urgências e demoras...

[...] enquanto o tempo com suas demoras faz girar o mundo e acontecer a vida, com a tua inesperada travessia em mim, passei a sofrer de urgências. Depois de ti, não acompanho ritmos nem respeito prazos, os dias se dissolveram em noites e as noites em esperas. Antes de entardecer e já amanheço sem descansos. Antes de prometer e já me cumpro, apenas para adiantar-me de algum jeito. Sobra-nos tudo, falta-nos as horas. Sobra-nos desejo, falta-me a lucidez. Ando a dormir sendo metades em que parte busca-te por entre os sonhos, e a outra mantém-se alerta a esperar tua volta. Lanço-me ao passado para cumprir minhas lembranças, revivendo abraço que não foi dado e a palavra que não foi dita. Busco-te uma vez mais para corrigir minhas tristezas e apagar ausências que sabem meu nome, mas desconhecem o teu quando por perto. És a confissão do meu mais íntimo pensamento. Por isto, sofro,  porque o teu amor se fez espelho e, sabendo de ti meu amor, saberei de mim também.

(Guilherme Antunes & Jhully Inácio)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Dos mistérios...

As infâncias nos ensinam encantamentos. Aí, quando adultos, o tempo vira relógio.

Deus, hoje, desalojado das preces despediu-se para fazer morada no amanhã:
lugar este onde estamos sempre a chegar.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Vassalo...

Acreditava minha avó ser o peito compartimento infinito para acomodar céus e infernos. A sua recomendação era de que se alimentasse o amor para moderarmos sua fúria sobre nós. Que se impossível os afetos, déssemos somente água, saudades ou alguma ilusão para que se distraísse de si e do seu próprio tamanho. Caso contrário, dizia, tornar-se-ia criança medrosa num poço escuro. Como se já não o fosse por aceitar menos do que si mesmo. Acreditava minha avó ser o peito lugar inevitável sujeito sempre aos próprios desequilíbrios e desmandos da cabeça: a raiva seria como charco de tinta negra a sujar os interiores céus; a mágoa como se uma nuvem morresse de voar, repetidamente. A felicidade seria a temporária ciranda das nossas verdades. Acreditava minha avó ser o peito hospedaria para sentimentos confusos que haviam sempre de ir no dia próximo. Apenas ao amor era concedido a solidão necessária para caber-lhe a própria companhia. Apenas ao amor, no peito, era concedido permanências. Aos sábios, como dono. Aos demais, como vassalo.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Sempre...

O amor toma-me sempre nos braços.
(imagem: @carolguimaraesfoto)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Impede-nos

A própria clausura do fracasso impede-nos de percebê-lo.

sábado, 28 de janeiro de 2017

9 horas...

São 9 horas. Como combinado. A esta altura, estarei sorrindo para ti. São 9 horas e somos felizes. São 9 horas e não há tempo. São 9 horas e carregamos todos os sonhos do mundo. A esta altura, estarás sorrindo para mim. Caso-me contigo para antes e depois dos ponteiros, pois não há dia ou hora melhor para casar contigo senão o dia ou a hora em que te amo. São 9 horas. Como combinamos. À nossa volta, os pais, irmãos, a vida, os anjos, os frutos, Deus, os padrinhos, o amor.

A esta altura, todos sorrindo para nós.
E em cada um de nós, para sempre.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Criminoso...

indiciado por rebeldia
contra as tristezas,
exigia o coração
responder em
liberdade:

premeditava um poema.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Embora...

Pois deveríamos estancar nossas feridas com amor próprio. Remendar-nos. Encontrar-nos com a nossa saudade mais recente. Permitir-nos aquele frescor desta nova insegurança que nos deixa seguros do que sentimos, para encararmos quais as emoções já estão maduras para irem embora de casa.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Adormecida...

Tornou-se feia pelo amor que amaldiçoou. Tornou-se feia pelo amor que impróprio dele bebeu. Tornou-se feia pela parte da vida que não viveu e pela parte sua que enganou. Tornou-se feia pelos amargos que não despediu e pelo perdão que jamais estendeu. Tornou-se feia pelas raivas que engoliu e pelo medo que a carregou para lugar nenhum. Tornou-se feia pelas maledicências. Tornou-se feia pelas tristezas que de maneira inexata se acostumou. Tornou-se feia pelo sonho que não a despertou. Tornou-se feia porque aceitou tornar-se feia. Tornou-se feia porque nunca se reconheceu.

Definitivamente era bela. Adormecida.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Reflexo...

Seguro minhas palavras como os cacos de um vitral, como se sua leitura pudesse recompor os caminhos pela claridade de uma ordem silenciosa dada apenas pelas entrelinhas.

A palavra é o reflexo incompleto.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Meu conto Zen...

Partiu o jovem discípulo em direção à floresta sem entender as palavras do seu mestre, que disse haver por lá duas ideias e uma só verdade. Caminhou por dias até achar uma poça de água imunda que sua indecisão refletia, pois não sabia se daquela água devia beber para matar a sede ou seguir adiante buscando abrigo. Começou a recitar seus sutras pensando que algum deus pudesse lhe dar uma intuição, uma graça, uma resposta, mas nada aconteceu. Ele era a única maré entre os silêncios. E ao perceber que a sua reza era fruto do seu desespero, lembrou do mestre dizendo ser a reza a voz da gratidão. Assim, sinceramente agradeceu por ter encontrado aquilo que precisava e, ao levar suas mãos à água, sentiu entre os dedos uma chave no fundo repousada. Ao nascer do sol, seguiu caminhada até encontrar velho casebre de porta sem fechadura. O jovem sentiu-se muito estúpido por deixar frustração o envenenar. Quando voltou ao templo com a chave e a história da porta, o mestre riu daquilo tudo e com amor lhe disse: Sente-se você estúpido porque nadou contra a corrente da vida o tempo inteiro. A estupidez se encontra em você, mas a genuína inteligência ainda não. A inteligência está na realidade que de você se utiliza para revelar-se. Você não se permitiu vê-la, tampouco escutá-la. Pensa você ser o único responsável pelas suas ideias e criações? Não amado, a vida se faz em você, para aquilo que ela mesma busca alcançar: criações e ideias ainda mais sublimes. Seus passos não são nada, pois são parte do infinito. Após sua morte, a sua vida como o reflexo da eternidade transformará você naquilo que você é: a própria vida. És imortal, meu filho. Por isto, com o quê lutas? A liberdade e a beleza se encontram na própria porta e na chave em si que carregam o saber nelas mesmas. O encontro de uma com a outra apenas declara aquilo que são. E você ainda não é, mesmo que já seja, sem saber. Eis a verdade da floresta que eu queria transmitir.

"Uma vez escrito, o discurso sai a vagar por toda parte, não é entre os conhecedores mas também entre os que o não entendem, e nunca se pode dizer para quem serve e para quem não serve". (Platão)

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Controle de qualidade...

Queremos que o outro nos ame como não nos amamos. Aguardamos que o amor venha a salvar-nos da decadência de não sabermos amar cada vez que amamos, confiando que o amor do outro venha cuidar daquilo que não cuidamos em nós. O amor próprio é o início, jamais a chegada. Como esperar que o outro nos ame se não nos amamos?

O outro só nos completa quando complementa.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Mais e menos...

Que possamos ser mais, sendo menos; pois são os detalhes que compõem as grandezas de nós. Que tenhamos muito, mesmo com pouco; pois será para alma sempre o suficiente. Que as boas lembranças sejam referências de quem realmente somos, neste espaço entre o agora e os amanhãs, e que estejamos sempre atentos ao fato de que a felicidade mora aqui ao lado, e que desocupada nos espera visita, ainda que não batamos na sua porta, pelas distrações da nossa casa.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Talvez...

Talvez não fosse o momento, a semana, o humor. Talvez não fosse a discussão ou o cansaço. Talvez não fosse ela. Talvez não fosse ele. Talvez não fosse amor. Mas, continuavam sem saber se ele ou ela, se isto ou aquilo, porque saber exigiria doer. Mais do que já doíam como se não vivessem. Como se não amassem. Como se não fugissem.

Talvez.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Anúncio...

Os olhos despedem a atenção para tragédias já tão acostumados por cansaços e absurdos. Dão-nos para escolher muitos vilões e poucos enredos. Dão-nos papel nenhum, senão o de trouxa. E o que nos dariam de especial senão o cheque?

O canto amargo dos pássaros ainda anunciará as primaveras.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Inexistências...


Sou melhor quando não estou. Sou um charmoso espelho sem reflexos, uma divertida festa sem convidados. Pois as inexistências me completam e os acasos me apontam a direção. Sou um bom livro esquecido; uma coleção de memórias a não significar um inteiro, um recorte de ausências, uma história sem identidades. Vai ver o meu passado seja uma gaveta sem utilidade, empoeirada, e mais uma coleção de papéis, erros e decepções que não revelam nada sobre o amanhã. Sou um porém e uma breve esperança, e que não me leva a lugar nenhum. Porque o que me move nesta vida é a angústia de não saber o que fazer parado. A minha busca é também o meu incômodo por não se contentar; pois o que me empurra não é o que me falta, mas sim o que me sobra.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Lembrança...

(...) e quando sem esperar, olhou menina o seu rosto refletido no espelho, levou o coração à boca que então vestiu sorriso. Lembrou-se de respirar macio no seu despertar; lembrou-se de despedir do sol ao entardecer; lembrou-se de elogiar cada uma das suas novas escolhas. Lembrou de não mais sentir saudades de ser feliz. Saiu de casa de vestido colorido e fita verde no cabelo. Ela era o seu próprio presente. E de nada mais precisava para ser o seu futuro também.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Credores...

À vida resmungamos pequenas palavras sem muita delicadeza: dignos do tamanho que acreditamos ser bastante. Calar-se seria saber-nos credores de pouca abundância. Uma culpa por não semearmos melhor o próprio existir.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Bauman...

ensinou-nos Zygmunt Bauman
sobre o amor que é
a sociedade que é
a modernidade que é
líquida.

e partiu.

Graal...

A verdade, o placebo ou qualquer um com gosto menos amargo? Servem-lhe alternativas terapias ou desejas a precisão cirúrgica? Água gelada ou, ainda assim, whisky paraguaio para celebrar os amores? Os excessos como fuga. A ansiedade como perda. O medo como muro. Aceitas a tristeza como legítima amante ou preferes te divorciar da própria vida? O lado mais difícil do caminho é a sorte que costumamos escolher.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Recordadores...

A maioria das pessoas seleciona as recordações para usar como bóias: aqui eu fui feliz, é aqui que vou ficar, parado no meio do imenso e ignoto mar. Ou então: aqui fui infeliz, e daqui não quero passar. Distingue-se assim, para uso quotidiano, otimistas e pessimistas - recordadores profissionais. 

(Inês Pedrosa)

Perdemo-nos todos...

Vestia a paixão ao avesso, o humor às avessas, a sorte ao inverso, o amor impróprio, o relógio exato e o tempo impontual para os sossegos. Entre a faca e os desejos, salvamo-nos muitos. Perdemo-nos todos.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Categorias...

Saber-se é como procurar jarro antigo metido numa garagem que não visitamos, filho. No inútil, melhor nos reconhecemos e, isto, dá-nos razão das esperanças. Porque não nos sabemos com a audácia da precisão, havendo sempre espaço para as belezas e outras categorias de virtude.

sábado, 7 de janeiro de 2017

O ano novo...

Organizou os livros, as roupas, sapatos, talheres, pratos, agenda, o tempo, a ansiedade, o amor, seu deus, seu diabo, seus medos, verdades, seu chefe, sua mãe, as mágoas, as contas, as cartas, carências, hipocrisias, as dores e o sono, nas prateleiras, armários, gavetas, porões, memórias, enganos, mentiras, lençóis, sintomas e nos escuros todos da palavra, do outro, do sonho, do quarto e do próprio peito.
 
Definitivamente, o ano novo de um mesmo homem.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Vida longa...

Vida longa aos que muitos incomodam com suas singularidades. Aos que perturbam sombras alheias com agudas iluminâncias. Aos que desarmam convicções idiotas com afiada inteligência. Aos que ardem e incendeiam, expulsam e perdoam, arranham e acolhem com igual facilidade. Vida longa aos que convidam à dança, ao abismo, ao amor, ao abraço e aos desequilíbrios. E aos que se alongam na vida, na mesa do bar, nos lençóis da cama e no espaço da nossa saudade.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Olhar...

A felicidade se tornou uma simplicidade quando decretou ao amado que ser feliz seria algo por estarem vivos e juntos. Apenas isto, juntos. A atenção de um detalhe lhe seria uma vida inteira cuidada pelo próprio olhar de atenção.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Sobre o sonhar...

Caminhava na orla da praia e vi dois guardas abordarem o homem de rua que cansado das horas adormeceu num dos bancos da calçada.

Senhores! Pediu a lei, a moral, os bons costumes e os cidadãos todos de bem que acordassem aquele homem atrapalhando o passeio público.

- Acorde, senhor! Saia da sua liberdade de pássaro. Abandone a ilusão e volte à miséria. Retome suas desesperanças; reencontre seus vícios todos. Volte de sua fuga para fugir uma vez mais n´outro lugar. Afinal, precisamos manter a ordem e o senhor é um incômodo para todos nós.

Se ainda o acordassem para lhe dar as boas novas. Se ainda o acordassem a lhe permitir ser qualquer coisa de feliz.

Talvez, o único evangelho daquele homem fosse seu esquecimento. O jornal de empregos, um lençol contra os invernos. Seu mal foi fechar os olhos.

Estava desqualificado para sonhar.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Tornou-se sábia...

Ela que antes viveu apenas da palavra como prisão e fuga do mundo, usará de cada uma para reencontrá-lo. A palavra como reflexo cristalino e não mais empoeirado com o ranço das coisas velhas. O que aprendeu até então era de segunda-mão, emprestado, não era seu. A palavra sexo que antes lhe era um atrevimento estreava-se no seu corpo através do prazer. A palavra desejo que antes lhe era proibição estreava-se na vida como convite. A liberdade concedia-lhe novos significados. Uma absolvição das conveniências. Sem a linha lógica e prisional das conclusões. Tornava-se a representação direta das suas próprias experiências, reivindicando a parte de Deus que lhe cabia. Antes, uma triste personagem de si. Agora, despede-se da sua versão sentimentalizada, presa do intelecto e da vida utilitária, da sua previsível miséria. A área tão inesperada para além da zona de desconforto era a coragem de ser o seu próprio presente. Devolveu o sonhar ao seu devido lugar.

Tornou-se sábia não porque desejou sê-la, mas por se tornar ela mesma quem ela mesma é.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Calar as cicatrizes...

Será que ela já se vê pronta para deixar seu passado? Abandonar cenários e festas e dores e sintomas que ainda sente? O que a deixa ainda calçada nos sapatos pertencidos aos caminhos que não mais florescem porque não podem? Quais os medos de antes traz ela para o depois? Deveria seu coração saber que a luz do dia novo há de dissolver a densidade dos escuros. Deveria despedir-se do vazio que a ronda a permitir o cheio que a preenche. Gritam assim os anjos para que não adoeçamos com as poeiras de capítulos que não merecem a releitura. Assim também espera seu amor que lhe aguarda para escreverem juntos os acertados destinos a que merece. 

Devemos calar as cicatrizes.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Das exigências...

Por vezes as coisas boas vão se instalando em nossa vida aos poucos, sem antecipados avisos, barulhos ou exigências de novos espaços, como processos contínuos que nos desarmam e nos expõem novamente ao viver, permitindo-nos escolher e aceitar finalmente o acerto, a prosperidade e por-nos disponíveis uma vez mais aos milagres.

Caminhar...

Que o velho morra para dar lugar ao novo, pois, toda morte é um renascimento.
Que eu possa ir fundo para poder tocar o céu; que eu possa alcançar o horizonte.
Que eu possa ter tempo para tudo aquilo que deixei de realizar, e que poderia fazer a qualquer momento.
Que as horas passem devagar quando necessário; os dias menos depressa.
E que eu possa conquistar o atemporal: não pelo que eu faço, mas por quem eu sou.
Além do sucesso, minha integridade. Além dos objetivos, minha inteireza.
Que eu possa perceber que sou eu quem carrego a chave das próprias prisões que crio.
E que eu me liberte do medo, das angústias, da aflição. 
E neste vôo, possa lançar as sementes do amor. Amor que todos devemos cultivar.
Além da bela silhueta, além dos preciosos amigos, além de qualquer explicação ou teoria lógica e lapidada; além de belos títulos de livros ou filmes, de boas marcas e comentados lugares.
Eu possa me encontrar, em tudo aquilo e mais um pouco. Ou menos.
E que eu possa refletir como um espelho todos a minha volta.
Que o porvir possa acalmar a ansiedade do dever-ser e do vir-a-ser, porque eu ainda não sou, nada além, do que já sou. 
E em mim, tudo basta. Mesmo quando me sinto vazio. E que diante do vazio eu não me preencha com mais dele. 
Que eu aprenda a perdoar, primeiro a mim, por não saber perdoar.
Que eu lembre do melhor e esqueça o necessário; o desnecessário para crescer, pois, crescer é inevitável.
E que o inevitável venha e, assim, eu aprenda a aceitar.
Que eu possa criar, que eu volte a ser quem nunca fui e que um dia eu deixei de ser.
Sorrisos e lágrimas. Criador e criatura. Céu e terra.
Que os monstros se tornem disciplina e compaixão.
Tenho equilíbrio e procuro por mais. Equilibrei-me por desequilibrar-me.
Além das palavras, o agradecimento contido em cada uma delas.
Pois é a experiência que me brinda com a realidade que me envolve.
Escada de degraus infinitos.
Um recomeço de um caminhar eterno.
Abençoado, próspero, tranquilo.
Para mim e para você.
 
2017.