quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Apesar de...

Apesar das ausências, das más notícias, das saudades, das neuroses, dos erros e dos boicotes, da falta de açúcar ou de sorte, dos excessos de sal, dos medos, das prisões, das palavras, da intolerância ao glúten, à lactose, ao próximo, da insatisfação com o trabalho, com a política, com o amor, com o espelho e com o outro lado dele, vivemos e temos que viver.

Apesar de.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Morrer...

Talvez morrer não seja a questão. A questão talvez seja como terminar, como partir, como deixar de ser se a vida inteira não fomos. Como sair se na vida por inteiro nunca estivemos. Como partir se não soubemos aqui permanecer. Nossa identidade é frágil percepção do que aproveitamos das memórias que carregamos: conjunto de peças e retalhos que se recombinam e se aproveitam conforme conveniências e caminhos. Sabemos de nós naquilo que não esquecemos e por aquilo que preferimos recordar. A questão sobre a morte é o enfrentamento da própria vida, esta, que nunca nos pertenceu o bastante. Talvez morrer seja o ponto aparentemente distante que angustia-nos por não sabermos quem somos. Porque a morte é o descanso para a alma que no corpo habitou. Mas e nós que ainda procuramos pela nossa?

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Mansidões...

Amor, escrevo carta para lhe avisar que estou perdendo minhas habituais razões. A lucidez se percebe como chama quase dormida de vela em quarto imenso de mim. Ando perdendo certezas como um corpo perde os pés nas fundas águas. Doutor me disse que ando sofrendo de inexatidão e mansidões por causa de amor incompleto. A metade que me preenche, tomba-me para o lado dos severos sintomas da paixão. Explico. Pelas demoras interiores, sabemos nossos graus de febre e encantamento. Tenho piscado os olhos bem mais lentamente e respirado com bem mais atenção, para não perder detalhes da vida antes despercebidos, para não assustar com ligeiros movimentos qualquer singeleza pousada a minha volta, para saborear diminutas e instantâneas doçuras. Em mim pressa se amansou sem mesmo pedir: nítido sintoma de contentamento. Pois felicidade se sabe pela devagareza de nós. E pela demasia de amor que sofro, sinto movimentos como provocação. Saudade que sinto também agravou o quadro. Assim, ando a dissolver-me anestesiada e quieta. Tão quieta a invejar estátuas. Amor, é urgente que te encontre a salvar esta parte desenganada do tempo e da distância que mora em mim. Por isso lhe escrevo carta, para não me perder de vez. Pois se tardares mais, talvez eu seja qualquer outra que não eu. Enlouquecida, perderei a mim ganhando asas, diluída no firmamento. Depois do amor, seja o céu ou teu lençol, é nele em que me abrigo. Apenas e quando você passou a existir em mim, aprendi a desejar. Desejo então e agora que me salve do equilíbrio morno e da sobriedade cinza dos que não amam ou desamaram. Seu toque criou mundos e amores dentro de mim. Tua presença é o meu momento exato a me fazer colorida.

(Texto do meu livro "A Ilha de um homem só", publicado pela Ed. Penalux)

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Afastamento...

Preenchia-se de vazios e era a falta que lhe oprimia o peito. Uma ausência que o acompanhava agravando-se durante as noites. Vivia para esquecer-se; corria para evitar-se. O elevador vazio, o escritório cheio, a academia, o engarrafamento, as ansiedades, o almoço, o jantar, o medo e o olhar distante eram expedientes para jamais encontrar-se consigo. O que diria a si caso pudesse? Qual verdade esfregaria na própria cara? Qual tristeza escolheria para poder chorar? Afastava o amor quando o amor o escolhia. E talvez fosse este seu grande mal. Apenas não maior do que não perceber que era exatamente disto que sofria.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Um lugar...

"E então há um lugar para onde vão os sonhos que a gente desacredita, onde moram os anéis que perdemos, os brincos descasados, o pé de meia preferido, o batom engolido pela bolsa. Há um lugar, um sumidouro, para onde são tragados os sorrisos que não voltam, o cheiro do cabelo, um colarinho manchado, o perfume na manga do vestido, teu nome no bilhete, um gosto de vinho grudado na língua. Ficam lá, suspensos numa órbita improvável e inacessível, ao som de três ou quatro frases para sempre repetidas que a gente procura esquecer. E um dia esquece."

(Patrícia Antoniete)

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Brasília...

Acreditamos que Brasília seja um outro país, um outro planeta, quiçá, uma ficção de banca de jornal. Que por lá habitam homens e mulheres distintos dos homens e mulheres de cá, distantes de nós pelo calor, pela corrupção, pela canalhice, além, é claro, pela conta corrente.

Acreditamos porque queremos acreditar. Porque precisamos acreditar. Para podermos apontar os dedos todos da nossa mão como se não fôssemos responsáveis. Como se fôssemos alguma vez sensatos. Como se pudéssemos dizer que são nossos vizinhos, e nunca nós, que os colocaram ali.

Vejam, senhores, condenamos Satanás para no ano seguinte elegermos Belzebu, tendo novamente Satanás como conchavo, vice ou adversário.

A danação é cíclica.

A política é o espelho do povo. E não há por lá outros senão o próprio povo: empresários, advogados, torneiros mecânicos, engenheiros, economistas, jornalistas, professores e toda a sorte de brasileiros que por uma, duas, três vezes vereadores, prefeitos, síndicos de prédio foram levados - por nós - a estarem onde estão.

Que na próxima a ressaca e o pesadelo não venham juntos. 
Já nos basta a caganeira.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Os deuses nossos...

Sofre o homem que em marcha põe seus passos de um lado, desejos e sonhos seus na rota de outro, estraçalhando no meio o coração. Dizem as experimentadas idades que nos restará disso a esperança. A felicidade por sua vez, reino que se busca e menos se encontra, oásis que se visita e não se permanece, menos parece fazer sentido quando dela nos despedimos. Oras, razões e lógicas concedemos às tristezas, felicidade tratamos somente como digna conjunção de acasos, e que brevemente atravessamos. Dela nos despedimos por intransigência às suas mudanças. Partimos porque se diminui e não mais cabemos, sem aceitar seu novo tamanho que suficiente seria se, teimosos não insistíssemos por caprichos e abusos. Sem sabermos onde aportar e por lá caber, costumamos amar sozinhos. Abandonamos os santuários dos deuses nossos apenas porque não mais nos convém que sejam os deuses nossos. Essencial aprender que diante de tudo encontramos nossa paz pelo caminho das feridas.

(Texto do meu livro "Teoria Geral do Desassossego", publicado pela Ed. Penalux)

sábado, 14 de outubro de 2017

Filhos da puta...

Há filhos da puta, muitos. Há os que contigo dividem a mesma repartição, o mesmo bairro e o mesmo andar. Há filhos da puta que aparecem no telejornal; outros que nos cobram o orçamento, a rebimboca inexistente e a propina. Há filhos da puta que defendem o indefensável e os que são defendidos pela mesma razão. Há filhos da puta reeleitos e com grandes chances de reeleição. Há filhos da puta que puxam tapetes, escrevem poemas, cospem quando falam, inflacionam a cerveja, publicam trabalhos de conclusão de curso, frequentam bares, saraus, minimercados, que mudam de assunto e negam o óbvio, que envenenam as esperanças. Aliás, há filhos da puta de todas as raças, credos e condições sociais. 

Acredito que num futuro próximo saberemos deles pelo IBGE.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Bolo de cenoura...

Fervia a água para o chá. Deixou o chuveiro aberto para o vapor tomar o box. Três livros recém lidos em cima da mesa de jantar junto ao pão quente. Depois do banho, comeu o pão e tomou sua xícara. De fundo, jazz - sem televisão por hoje. Folheou um dos livros e trocou algumas mensagens pelo celular convidando os amigos para o jantar. Sugeriu os vinhos. Eles, o filme. Isto para amanhã. Despediu-se. E antes de ir para a cama, comeu o pedaço do bolo de cenoura da casa da sua mãe.

Acendeu o abajur e um incenso. Rezou por 5 minutos.
Tomou dois tarja preta. 
E dormiu.

sábado, 7 de outubro de 2017

Como deve ser...

40 dias depois e 10 kg a menos. 

Não, uma não tem que ver com a outra mas mencionei a última para chamar a atenção. Coisa que vivemos a fazer por aqui, aliás. Neste tempo quase sabático, não peregrinei pelo deserto nem vivi de pão e água. Não encontrei Jesus, apenas vendedores da Jequiti, atendentes da Vivo e testemunhas de Jeová. Não recebi convites senão para chás de bebês que não pude ir. A iluminação não veio. A mega-sena também não. Mas, como não virão pelos Correios ainda mantenho a fé. Não coloquei as leituras em dia, como gostaria. Não aprendi um novo ofício. Não fui ao Rock in Rio. Não ganhei um triplex no Guarujá. Não contraí outros vícios ou novas dívidas. Não virei coach. Não me tornei monge, tampouco executivo. Não lançarei livro. Apenas saí do modo precário e contínuo de sobrevivência. Dar-se uma folga para respirar o offline leva-nos a perceber quão anestesiados estamos pelo cotidiano. Pelas redes sociais e suas recompensas emocionais. Permanecer diariamente nesta caixa de ressonância que reforça e multiplica exatamente aquilo que criticamos e que gostamos, exila-nos da realidade por devorar nosso tempo e energia preciosos por conta de um fazer compulsivo; pela repetição de um mais do mesmo a distrair-nos das coisas que realmente importam. E convenhamos, aqui não é uma delas. Mas, por não viver de direitos autorais como alguns podem acreditar, cá estou a soprar o pó das palavras que ainda não disse. A dizer as coisas certas na hora errada. E vice versa.

Um detox existencial deste ar poluído e problematizado, repleto de selfies e cards motivacionais. Para continuar. Como deve ser.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

A língua...

Um dia resolvi me vestir de poesia como a minha própria vida e então nasci palavra. Um dia resolvi caminhar nas flores que eu mesmo joguei e então me fiz perfume. Vivo num reino em que se guardam as cores da alma; onde o vento é o senhor das promessas, que levam sementes ao jardim das possibilidades. Aqui me alimento com um só grão de açúcar onde mora toda a doçura do mundo. Aqui me escondo da saudade, pois no reino não mora o vazio. Outro dia resolvi fugir da boca e do papel pra me sentir silêncio, e aprendi que muitas vezes as palavras são mera distração quando o amor não se sente. Sabendo o amor, é o silêncio quem declara. O coração quando confessa, nem sempre faz barulho. A poesia quando a alma versa, nem sempre rosto tem. O amor se encontra nos olhos que desnudam os espinhos do tempo e desembaraçam histórias; um romance inteiro num só abraço. Quando me esforcei inteiro pra te pertencer, é porque eu já não me pertencia mais. Antes do sol nascer nos sabíamos ciranda; antes do anoitecer, eu me sabia você. 

Contigo aprendi a navegar na deliciosa língua da poesia.

domingo, 24 de setembro de 2017

Riacho...

Chorava. O desamparo era um riacho. O desamparo pela solidão, pelo medo, pelas noites, pelo outro. Chorava. O abandono era um soluço. O abandono dos pais, do amor, o abandono de si. Chorava os capítulos, as histórias, erros e vidas inteiras. Chorava suas prisões, seus nós, ruas sem saída, suas despedidas, seu mofo, insistências e desistências. Chorava como se bastasse. Como se se traduzisse. Como se despedisse. Como se libertasse. O alívio era um riacho. A levá-lo para muito longe. A trazê-lo para mais perto.

E permanecer.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Sem conseguir sonhar...

Ela sabe que merecia mais, poderia mais e que teria se arriscasse, mas resolveu não sair de dentro. Prendeu-se a si mesma, desaprendendo a arte de despedir-se do que não serve mais, pois ela sabe que deveria ser mais feliz e alcançar alturas que seus velhos pesos hoje não permitem, mas diz ao mundo que para soltá-los não é tão fácil assim. Como pobre substituto de uma nova vida que lhe aguarda, perde-se em mundanas distrações, colecionando pequenas conquistas a não aliviar em nada. Adia com isso, a rota de colisão com sua inevitável tristeza. Sem ousar sair de casa ou do próprio medo, conta a si mesma que isso não será o seu destino e que logo se encontrará com a mudança. Convence a todos ainda não ser o momento, visto que precisa resolver questões de toda a ordem para poder livre se ver, devendo para isso reduzir agora os riscos, os danos e as dores. Não sabe que sua justificativa é também sua covardia, não percebendo que o que busca é inalcançável exatamente para não alcançá-lo, pois teria que encarar a sua própria responsabilidade. Anestesia-se assim, para aquilo que sabe ser seu, mas que até agora não foi. Acostumou-se com espinhos, cinzas, ausências e ilusões, enamorando-se do morno pelos hábitos. Afogou-se sem mar. Caiu sem nem haver os céus. Morreu sem precisar morrer. Morreu sem conseguir viver. Viveu sem conseguir sonhar.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Recém amantes...

Atendeu. Logo cedo e mais uma vez o primeiro telefonema na empresa era dela. Não ligaria no celular. Chamaram-no para que atendesse. Ele atendeu. Sem jeito, só escutou. Não sabia o que dizer, não havia o que dizer. Sem jeito, sorriu pelas beiradas. Incômodo por sentir que seus colegas o olhavam; por saber que seus colegas comentariam, já que era a quarta vez só nesta semana. Sem jeito, suspirou. A voz do outro lado desejava os clichês dos amantes; açúcares e um poema barato. Agradecia ele a Deus por ninguém mais poder ouvir. 

Telemensagem. De bom dia. Da namorada. 
Coisa cafona.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Sopro...

A gente esquece que para viver é preciso respirar. E quando nos sabemos por entre os reflexos que nos acontecem entre luzes e sombras nesta vida, respirarmos fundo pode ser vento suficiente para virarmos página já cansada da nossa própria história.

sábado, 9 de setembro de 2017

Cachorro...

O tempo passou e pude eu pensar em nós em diferentes horas e humores. Apesar das inclinações tanto para guardar rancores quanto para esquecê-los, a conclusão é a de que o seu desequilíbrio é ruína onde se ocultam suas verdades e do amor se esconde. Veja, vive solitária com o seu cachorro e seus pés de tomate. Psicopatas tiveram cachorros; ditadores foram vegetarianos. Ou seja, isto não diz muito sobre você. Mas, a sua solidão com pés de arruda no quintal, sim, este é o limbo onde seus vazios se refestelam. Os seus amargores denunciam seu quadro emocional sem moldura e qualquer cor. A sua tristeza tem espinhos. O seu destempero grita no instante que o nega. O conselho? Convide sua sombra para uma cerveja e alguns petiscos. Para digerir o que não digere. Para viver o que não vive. Para ser digna do que insiste em não ser. Para que não volte a ter crises e alergias e carências: de vitaminas, amores e amigos. Torço para que o seu cachorro abane o rabo quando da sua volta para casa ao final do dia.

Se é que existe mesmo um cachorro.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Pronto...

Cortaria-lhes as gargantas se pudesse. Calaria com a navalha da raiva e do medo os seus inimigos. Atreveria a convocar os demônios a lhe usarem inteiro para depois atirá-los todos ao precipício. Ao esquecimento. À ingratidão muda. Ao perdão amordaçado. Cortaria o rosto para desfigurar-se e ver outro que não ele. Quebraria o espelho para cortar os próprios pulsos. Não enxergaria, assim, seus desafetos. Morreria, assim, para seus demônios. Cairia ele no esquecimento. Fugiria, então, das culpas. Desmentiria, então, seus erros. Amornaria sua raiva e demais venenos. Amaria apenas o reflexo. E o seu nome. Como um homem sem casa, sem medos e sem alma. 

Somente assim, pronto para os amanhãs.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Reflexão...

A gente vem pra esse mundo com pós-doutorado em fazer merda. O que é a vida senão a tentativa de desaprender e devolver o diploma?

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Sentido...

Eu que sou sempre silêncio, hoje estou cá a dizer-te: caminho ao vosso lado e me ignoras; venho dar sentido à vida e recusas me agradecer. Me aproximo nos mais difíceis momentos e dou alívio aos que sofrem. Aliás, insensato, suplicas para que adie a fatalidade dos teus excessos. Culpa-me pelo inevitável. Veja, pairo além dos teus credos e da tua cor e isto porque estou em todos os credos e sou de todas as cores. Causo promessas e temores embora não tenha inimigos. Tantos ameaçam com meu nome enquanto poucos me festejam, realmente. Eu que sou sempre silêncio, hoje estou cá a dizer-te: lembra-te de mim para que do meu sopro não fujas e tampouco do viver tu escapes.

Prazer, eu sou a morte.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Cuidado...

Deixaram-me nu diante da igreja. Não me recordo de nada anterior ao fato de que estou nu na porta da igreja. Que igreja? Não sei dizer. Tampouco sei que cidade estou. Parece-me de algum longe pelos silêncios a combinarem com as ruas de pedra e o cheiro de bosta de cavaloAs janelas das casas, todas de madeira, estão ainda fechadas a pouparem-me do constrangimento. O que sinto é o desespero e a iminência da desgraça. Serei eu o louco daqui? Teria eu retornado de um surto? Serei eu mal falado por aqui? Sairei como notícia insólita no jornal? Aliás, enxergo a folha de um arrastada pelo vento. Corro para buscá-la e cobrir as desvergonhas. Vejo a data e lembro-me de tudo: ontem, antes de dormir, inundado de tristeza, pedi aos céus que me levassem para longe, que esquecesse eu da humilhação de ter sido deixado pela mulher. Até agora não houve momento que isto tenha me parecido importante. Creio que meu desejo foi então e de algum jeito atendido.

"Agradeço a Deus pela graça alcançada!" foi esta a manchete do jornal do dia seguinte que recebi na cela da delegacia.

Cuidado com o que pedem. 

sábado, 29 de julho de 2017

Assim como todo mundo...

Ela que se achava tão única e sem igual era mais uma a tirar selfie no espelho do banheiro: de casa, da balada, da academia. Com a pose milimetricamente descuidada dos seus lençóis, da sua roupa, dos seus cabelos.

Com uma frase filosófica e motivacional, ou a declarar-se revolucionária e marginal. A milionésima a intitular-se "a pomba gira do absoluto". Ou melhor, do desespero.

Ela era única. Assim como todo mundo.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Sobre a condenação...

Não, não se comemora a condenação de um homem de bem que nada sabia - nem nunca soube - do que se passou durante os anos todos de governo de seu partido em que foram descobertos monstruosos esquemas de corrupção envolvendo seus homens de confiança que atualmente ou figuram como réus ou já foram condenados e presos.

Não, não se celebra a condenação de um homem simples que comparou-se a Jesus Cristo por sua honestidade e que de maneira inequívoca intimidou a imprensa e agentes públicos com suas ameaças de mandar prender todo mundo caso se tornasse novamente o presidente.

Comemora-se a condenação de um criminoso e de sua monstruosidade.

Celebra-se a condenação de um dos maiores criminosos do país. Comemora-se um pouco da justiça engasgada por tanto tempo e que ainda carece e muito de ser praticada neste território.

Comemora-se o afastamento de um dos demônios graúdos, responsável, mentor e partícipe de um projeto de perpetuação do partido no poder e que desviou cifras inimagináveis para qualquer cidadão comum.

Cifras que hoje muitas vezes equivalem à fome, ao desemprego, ao desespero e à desesperança.

Aos que estão a padecer de mimimis e a publicarem merdas e conspirações e a defendê-lo do indefensável, recomendo a leitura na íntegra da consistente sentença que o condena. Ainda que cegueira moral e ideológica não se resolva desta maneira.

Celebra-se a prisão de um símbolo do apodrecimento.
E que venhamos a celebrar, esperar e cobrar mais pela condenação dos demais demônios.

A quem sentir faniquitos por cultivar criminoso de estimação, a porta será sempre e uma vez mais a serventia da casa.

domingo, 25 de junho de 2017

Amada...

Era uma vez menina que amava a tristeza tanto e muito e mais e sempre que até os medos sentiam invejas. Apaixonou-se cedo, quando as perdas passaram a visitá-la em sua casa desde as primeiras idades. O lar que lhe escolheu o destino tornou-se decorado de ausências sentidas nos abandonos da sorte e dos seus próprios pais. Ainda criança, prendou-se com camaleões e borboletas nos ofícios sagrados da transformação, fazendo das diminutas mentiras semeadas, as imensas ilusões de colheita, enfeitando janela com que olhava seus solitários desamanhãs. Admiradora das profundidades que a dor lhe causava, graduou-se em precipícios, entregando suas asas para brechó do nunca. Ouviu estórias dos espinhos que lhe diziam na vida não haver sido convidada para florescer. Assim, convenceu a si ser terra infértil das razões para existir. Deslembrou-se do vento e da sua própria voz, abandonando os dias para carregar as noites. E quando distraída se despiu a visitar beirada de rio, algo se repentinou. A Lua por ela brilhou redondamente enamorada, a lhe dedicar iluminâncias e silenciosa companhia. Como presente aos grandes olhos da menina, acendia Lua incontáveis vaga-lumes. Revelando amor sempre crescente, convidava às pertezas dos caminhos a fala dos grilos, o canto da cigarra e a rouca voz das esquecidas esperanças de coração atontado. Adormecia então aos cadinhos, tristezas minguantes. No encanto das noites, Lua contemplou menina florescer mulher e pela primeira vez, tocou seu desnudo corpo, no prateado reflexo das fundas águas que correm no rio do tempo. Do amor feito em seu ventre, nasciam as primeiras estrelas que se ouviu falar, a guiar do infinito o destino dos homens e realizar desejos dos que entre nós ainda sonham. Quanto de céu pode habitar uma só mulher? Não se sabe ao certo. Só saberá aquela que um dia da janela no amor amanhecer.

(Texto do meu primeiro livro: "A Ilha de um homem só" publicado pela Ed. Penalux)
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. "Dar vida aos mortos é obra para infinitos deuses. Ressuscitar um vivo: um só amor cumpre o milagre." (Mia Couto)

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Abstração...

Não cabe julgarmos o presente do escritor pelo que ele escreve, pois poderemos olhar para o seu passado, para o futuro, para o possível ou para os seus sonhos. E não saberemos se estamos a olhar seus atuais tempos verbais, sua própria imagem ou a nossa própria projeção.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Esquina...

O que ela queria era
um futuro a dois quarteirões
de distância com o seu amor
a esperando na esquina.

domingo, 18 de junho de 2017

Padecimento...

Padeço por aquilo que já acabou. Anuncio discretamente as saudades. Denuncio meus medos. Revisito tristezas. Reincido nos erros. Prevejo o que nunca será. Sinto culpas de validade vencida. Calo silêncios a força. Enveneno os afetos. Ando em círculos, dou murro em pontas de faca, ouço o tédio das paredes. E me anulo de maneiras incríveis.

Reconheço corpos e memórias, diariamente.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Metade...

Ao longo dos caminhos, tornamo-nos metade. Metade para caber menos. Menos do sofrer, por certo, mas por infeliz (in)consequência, menos do viver e do amar. A metade nos acontece pela distância que criamos entre nós e o outro, entre nós e a própria vida. Quem se faz metade, anestesia-se para mais facilmente despedir o que o consome. Deixamos de sentir urgências em existir e pouco passa a nos devorar, a não ser nossa própria metade. Ignoramos as alturas do Amor, não mais sabendo a dor da queda, tampouco as nossas liberdades. (Não é pelo risco de cairmos no precipício que sabemos dos nossos voos?) Quem é metade, metade é para não se arriscar nos apuros de ser inteiro. Ser metade é sofrer menos, sendo menos feliz inclusive. Aquele que é metade garante não cair com a cara no chão nem trocar os pés pelas mãos, pois não sairá de casa, da casca, nem de si. Há quem escolheu ser metade porque um dia doou seu inteiro ao Amor que (se) partiu. Então não mais se permite, não se apega, não se queima e não se cura. Não morre, mas também não recomeça. Quantos de nós não escolhe morar neste conforto que faz a vida e o coração não pedir muito da gente? Aquilo que dói, facilmente se resolve. O amor, pela metade, abandona-se. O desejo, pela metade, engole-se. A possibilidade de fuga torna-se grande, nesta monótona linha reta sem os interessantes becos sem saída no labirinto das paixões. Dispensamos as riquezas dos encontros por não querermos lidar com os encargos que a vida junto nos cobra. E a única que sussurra entre os silêncios que instalamos à força em nossas marés é a tristeza que intui merecermos mais do que nos tornamos. Tornamo-nos hábeis em manter um pé atrás dentro da armadura emocional que construímos com o tempo que não aproveitamos em ressignificar nossas dores e seguirmos adiante. Encarcerados em nós, nada nos queimará infernalmente - nem deliciosamente - como antes. As asas não precisarão ser largas, e o mergulho nem tão profundo. Preenchendo-nos com vazios, focando trivialidades e fugazes prazeres, passamos às emoções em rodízio. Pela nossa fragilidade, queremos facilidades. Pelo nosso endurecimento, exigimos a qualquer custo a leveza. Assim, fugimos da responsabilidade de acolher o Amor com todas as suas sombras e deveres, porque o Amor nos convoca às inteirezas. O Amor rasga, mas também costura. Evitamos entrar e nos dedicarmos porque não queremos mais doer como um dia doemos. E o amadurecimento que deveria fazer nossa transição para dias melhores, não acontece porque resolvemos não despertar do sonho de ser semente. Quem sabe um dia lembremos que a beleza da flor aconteceu porque ela ousou ser cor entre as tormentas.

(Texto do meu livro "Teoria Geral do Desassossego", publicado pela Ed. Penalux)

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Subtração...

A tristeza é uma subtração dos dias dentro de mim; uma anulação do tempo para sentir-me vivo. Viro o rosto para o que mora comigo ainda que diariamente beba daquilo que ignoro. Vejo-me cheio de razões para tudo mas que para nada me aliviam. Aconteço-me sem planejamentos, como uma insistência em manter-me cego e adiado.

O descaso da chuva é sempre para mim.

domingo, 11 de junho de 2017

Amorosa...

O amor pousa mais facilmente naqueles que se encontram inteiros, caso contrário e nos será difícil discernirmos o amor de uma amorosa ilusão.

sábado, 10 de junho de 2017

As palavras...

O calendário é uma mentira para as saudades mas uma verdade para o amor. Ou vice versa.
O café é o cheiro exato na ausência do cheiro dela. 
A tristeza é uma novela na qual quase morremos no final. 
A vida é uma coleção de despedidas que nem sempre se despedem de nós.
O óbvio é aquilo que quase nunca sabemos enxergar. 
A lua e as rosas sempre servirão para os poemas de quem procurar por um.
A salvação começa por nós mesmos. A ilusão será pensar de outro jeito.
Às vezes é preciso entrar para poder sair. Tem gente que quer sair antes de entrar.
O sol é um convite silencioso para as esperanças.
O lado que ignoramos é o que mais sabe de nós.
A escravidão pode ser muitas coisas que não nos parece escravidão. 
Temos facilidades para obedecer cores escuras no peito.
As palavras podem ser doçura ou espinho: depende de como amanhece o coração.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Vício...

O homem insista em mais um copo. Era o oitavo, hoje. E era a terceira vez que voltava ao bar sozinho. Dispensou os amigos para se sentir à vontade. Dispensou-se mais cedo do trabalho para sentar no balcão e fixar seus olhos. E sorrir. E sorrir, apenas. A bebedeira o deixava envergonhado e atento o suficiente para não esbarrar na porção de amendoim. Bebia grandes goles para pedir mais uma. E outra. E outra. E isto por conta da mesma. A bartender do lugar. A paixão era seu único vício. 

Além do cigarro.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Culpa...

A culpa é o tormento insistente do erro: espiritual indigestão do tempo. O desajuste de uma máquina infeliz, rigorosa impermanência do amor próprio, a culpa é o amargor pelo perdão que a nós não oferecemos, tolice a deixar-nos ausentes para as generosidades. A culpa é uma afronta, uma atitude implacável do peito a vingar-se de si, xeque mate do mal estar. Um dizimar jardins por tornar-se cego. A alta conta pela infelicidade. Candeeiro apagado, protesto contínuo dos infernos, prostíbulo dos demônios, a culpa é o teimoso cobrador de um passado morto.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Notícia...

Parece-me haver um brilho intenso na tristeza que tantos de nós paramos para apreciá-la, seduzidos pelo tempo a tonar-se costume de diante dela permanecermos. A felicidade decreta-se como ilusório destino e coisa móvel, escapável de molduras e artifícios para prendê-la perto; apresentando-se discreta e volátil entre gostos e prazeres que não a fixam jamais no peito. A tristeza, por sua vez, denuncia esta facilidade para manter-se como companhia a diminuir um pouco de cada um.

A tristeza é como a notícia da casa a demolir-se onde já fomos felizes.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Dos afetos...

Sabia ela sobre tudo: cristais, florais, pirâmides, astrologia, radiestesia, tantra, runas, shiatsu, tarot, mandala, yoga, cabala, quiromancia, economia, anatomia, johrei, hermetismo, filosofia, búzios, teosofia, do-in, hebraico, física quântica, física clássica, xamanismo, umbanda, quimbanda, teatro, meditação, beatles, reiki, sânscrito, ovnis, plantas, mantras, yantras, shiva, vedanta, atlantes, lemurianos, cup cake e poesia.

Só não sabia sobre os afetos.
Só não sabia sobre si.

domingo, 4 de junho de 2017

Arma...

Sua arma para ferir o coração era a palavra. Trouxe consigo esta violência desde menino quando adoeceu de mundo por lhe faltar amor. Sobreviveu apesar disso. As cicatrizes silenciosas a moldar o seu destino inscreviam toda e cada vez na própria carne os traços da sua glória e suas tragédias. A palavra era o punhal que usava sobre o seu próprio reflexo a curar-se pela renúncia da ferida. Para depois do travessão, a mentira. Para além do ponto final, suas verdades.

sábado, 27 de maio de 2017

A vigésima segunda visita da generosidade...

O nome nos veio como uma revelação. A ser desesplicada pelas lógicas e anteriores teorias. O nome nasceu na beira do sonho de minha amada, que a mim despertou com ele vivo dentro da boca. O nome nela pousou como pássaro numa janela aberta. Como solo sagrado para se deitar palavras. E as palavras como nítida presença de uma generosidade que caminha ao lado de cada um de nós, independendo dos calendários ou tristezas.

Um livro para reacender esperanças antigas.
Uma releitura generosa dos óbvios.

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Belíssima fotografia da querida Jaci Bathista.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

The end...

Não deu crédito ao autor.
Não dava jamais crédito ao autor.
Dava crédito apenas à sua própria mediocridade.

E Satanás, atento que só, a acompanhando por aqui, deu-lhe caganeira e urticária.

Pedagogia do terror, sabe?

Mas a mediocridade era tamanha que ela não ligou o com o cré.

Satanás, então, a cegou.

The end.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Aqui...

Aqui, escondemos as tristezas sob o verniz da permanente e invejável felicidade com a qual nos enfeitamos. Aqui, para além dos invejosos e acima do bem e do mal publicamos fotografia com uma frase motivacional. Aqui, temos remédios para todos os males. Os alheios, é claro. Receitas para a criminalidade, para a depressão, para a situação econômica e geopolítica. Um oceano de boa-fé e opiniões sobre tudo aquilo em que nos afogamos. Aqui, somos interessantes e inteligentes além da conta e da medida. Somos os astros do que gostaríamos de acreditar, presos neste carrossel que nos distrai e inteiro nos consome. Aqui, confundimos nossos personagens sem limites com nossas vidas tão comuns. E no vão entre os dois habitam nossas mentiras e inexistências. Neste museu de grandes novidades nos apegamos às palavras como dignas de vida ou morte. Enquanto on-line nos fragmentamos, a vida segue inteira e lá fora.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

A fotografia...

A fotografia. O único porta retrato da casa. Um registro apenas de si mesmo. Sorrindo numa festa dezoito anos antes. De quando era mais magro e seus pai ainda eram vivos, de quando viajava com os amigos e voltava tarde pra casa, de quando comia mal mas vivia bem, de quando dormia mal e acordava bem, de quando ainda não havia sido demitido, de quando ainda acreditava no amor, de quando se sentia mais leve, mais livre, mais outro, menos outro, mais ele mesmo.

Sentiu inveja de si, raiva de si e culpa de si por não ter sabido nunca se usar melhor. Ele foi feliz e não sabia, nunca soube. Soube apenas agora.

Jogou o porta retrato fora.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

As coisas divinas...

As ausências e prolongados vazios dão-nos demasiado tempo para nos preocuparmos com coisa nenhuma ou, formularmos discursos e defesas sobre qualquer coisa. Ocultos por entre as falas e os triviais comentários e as cotidianas reclamações, queremos as coisas divinas, que as espezinhamos pela nossa falta de generosidade. Desenvolvemos medos feitos de tristezas que a eles recorremos, diariamente. Derramamos as saudades dos tempos aos móveis de casa, convivemos com silêncios feitos das memórias tristes, ressignificamos o mundo pelos olhos amargos cultivados. Aí, como que por descuido ou distração, dá-me tu ao amor que mais futuro entrega-me do que qualquer esperança ou previsão, salvando-me de tão grande morte por preservar os sonhos que lhe dedico e celebrar o tempo futuro nos teus abraços, alongando-me a vida sem um passo a mais. Toco o teu nome em minha boca para falar das certezas e beijar-te nas distâncias. Diante dos teus olhos, fecho os meus. Brilham as estrelas em paz agora.

(Texto do meu livro "Teoria Geral do Desassossego", publicado pela Ed. Penalux)

sábado, 6 de maio de 2017

Porão...

Semeamos o erro e queremos a flor mais bonita. Carregamos os cacos e reclamamos doerem as mãos. Enfeitamos a alma com medos e não entendemos doença. Ao amor fecho os olhos mas cego é o coração. Somos donos de casa vistosa numa rua sem saída. Somos parte de um encontro que já aguarda a despedida. Versamos na boca a liberdade mas vivemos mesmo é no porão: um sufoco com porta que à parede leva e uma esperança com escada que ao teto chega. E quando soube o homem ser o seu porão apenas sonho ruim, gaiola virou ninho, corrente virou caminho, farpas e pedras, o seu jardim. Que por lá moravam três ventos, quatro lágrimas, duas promessas e um só pé-de-sol, que ao florescer de luz inundou riacho e arrastou para longe as tristezas, abrindo com força a janela da casa e o próprio peito, espantando as sombras que por lá dormiam presas.

(Releitura de um texto antigo meu de 2011)

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Sobre a espera...

São 182 envelopes.
São 182 envelopes com o nome e endereço de cada um.

Os livros estão ganhando vida na gráfica e virão de uma só vez; única tiragem; filhos únicos.

Aqui, eu e Anna esperamos a chegada para deixá-los prontos para postagem. Com a dedicatória merecida. 
 
A previsão é que tanto cheguem quanto partam na semana mesma do dia 15/05. Ou antes.
Eu sei, eu sei. Eu estou tão ansioso quanto vocês. E impaciente.

Peço que aguardem um pouco mais. Um pouco mais, apenas.
Volto a dizer que a espera valerá a pena. 
E a ansiedade será superada pela boa literatura. É o que reza a lenda.

Uma vez mais agradeço a cada um que garantiu o seu e colaborou para o nascimento da obra nova. Por isso a pré venda, que se tornou a única venda.

Aos que guardam alguma dúvida, podem me chamar no e-mail: guglicardoso@gmail.com. 

Estou à disposição.

Guilherme Antunes.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

O sonho de Anna...

Criou-se o sonho para haver manhãs. E ela despertou-me cheia de estranhezas. A palavra é por si só uma bruxaria. O nome pertencia a ela como um fruto. A partilhar comigo e para além de mim. O nome a ensinar-me o essencial sobre os pássaros. Criou-se o sonho para haver claridade. E ela despertou-me cheia de notícias. A palavra é por si só uma verdade. O nome pertencia a ela como uma semente. A partilhar comigo por amor. O nome a ensinar-me o essencial sobre a generosidade. Anna deu vida ao nome, ao livro, aos pássaros, ao amor. Através de suas noites para haver dia; para haver páginas; para haver verdade; para haver destino. E algum amor. A salvar-nos todos. Como proponho. Como convido.

Conto-lhes aqui o sonho de Anna.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Sempre...

A esperança se usava sempre da voz dos pássaros.

domingo, 23 de abril de 2017

Maturação...

Seria possível dizermos que não há medos e ansiedades? Olharmos para tudo o que vivemos com nossos pais e aceitá-los, entendê-los e perdoá-los? Seria possível afirmar que nos vemos livres da carência, dos ciúmes, das irritações, do egoísmo? Conseguiríamos aceitar com generosidade aquilo que se viveu, errou e sofreu sem culpas, mágoas, ressentimentos e tristezas?

Qual degrau estamos? E qual acreditamos estar?

A resposta, guarde para devida maturação.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Das implicâncias...

Há gente de todo lado a louvar coisas que por certo não agradam a toda gente, como chouriço, mocassins, férias na praia e dessincronias. Quero, pois, versar sobre os embaraços criados por estas últimas a que menciono. Defino a dita cuja como o descompasso entre tempo e o ritmo na ordem dos fatos ao facilitar desagradáveis pormenores e causar-nos alguma turbulência em nosso plácido céu de brigadeiro cotidiano. A "sincronia" dá-se por conta da desoportunidade e a sua possibilidade de causar-nos pequenas frustrações e vergonhas. Dou exemplos: o inexato instante que decide com dúvidas avançar a faixa de pedestres por não saber quanto tempo de sinal verde resta para você e vermelho para os carros. Você dá o primeiro passo adiante e descobre. Não restava nada. Os carros aceleram e você recua, sentindo-se uma besta. Outro: elevador parado no andar com alguns gatos pingados dentro. Ao longe você, calculando os passos, a velocidade no trajeto e um sentimento que só nos aparece em horas assim, aquele de acreditarmos na humanidade o suficiente para pensar que algum bom samaritano segurará a porta para nós. É o tempo preciso para colar com a fuça na porta que acabou de fechar. Ninguém a segurou e você mais uma vez com cara de besta. Outro clássico: lépido, faceiro e distraído, caminhando pela calçada avista pessoa a lhe acenar. Um filme se passa com todos os rostos possíveis e situações prováveis. Você chega a conclusão de que é um desmemoriado e cheio de dedos resolve acenar em retribuição. Sorri, inclusive. Na sua direção a pessoa atravessa seu corpo como se você não existisse a abraçar a outra atrás de ti. Seu castelinho de cartas emocional desaba num só golpe de vergonha. Cara de besta e saída pela tangente. Tem aquela quando acenamos ao ônibus e ele passa direto, ou quando continuamos falando alto no momento em que a música acaba e mais outros milhares de pequenos constrangimentos patrocinados pela dessincronia. Talvez ela seja fruto de uma distração dos anjos ao permitir maquiavélica mancomunação entre o tempo e o capiroto, a arrancar-nos a dignidade e a orientação num breve segundo, devolvendo-nos logo em seguida. Nunca saberemos.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Controversa...

Uma grande tristeza lhe era como uma exuberância controversa. Acreditava que no íntimo de cada um dos homens havia um envergonhado orgulho de sustentá-las. Uma das razões de não as despedirmos mais cedo.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Carta V...

[...]  Por isso não vale a pena decretarmos nossos amanhãs a partir dos humores tristes de hoje. Não vale anteciparmos a tristeza porque decretamos que algo será ou deixará de ser, como uma constatação míope de um peito carregado que pouco permite que enxerguemos.

(Carta a uma amiga)

quarta-feira, 12 de abril de 2017

De quem, afinal?

A vida é coisa muito frágil e para protegê-la deixamos de viver. Qual o sentido de evitarmos o que não se deve, insistirmos com o que não se pode e nos perdermos? Por que fazemos questão das tristezas, dos cacos, dos escuros e tempestades? Por que insistimos tanto e tantas vezes em morrer? Perdemos o amor como quem perde o ônibus. Aguardamos o amor como quem aguarda o ônibus. As urgências estão equivocadas. As insônias estão equivocadas. O que nos dói é o que de nós mastigamos. E nos cremos muito por não aceitarmos qualquer desaforo.

Mas, de quem, afinal?

terça-feira, 11 de abril de 2017

Para trás...

A dor que insiste em permanecer é aquela que mais fala de ti. Escutar a verdade que ela insistentemente sussurra nas entrelinhas é o que lhe dará o direito a deixá-la para trás.

domingo, 9 de abril de 2017

A vigésima segunda visita da generosidade...

Uma releitura generosa dos óbvios.

O meu terceiro livro, pela Editora Penalux.

A pré-venda está aberta.
R$ 42 reais já com o frete.

A quem interessar, 
mande e-mail: guglicardoso@gmail.com

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Devoção...

éramos tão novos e já amávamos um amor antigo.

aqui,
peço que olhes o teu reflexo nos meus próprios olhos:
não há intimidade maior do que olharmos juntos para o que se ama.

na ausência tua,
os lugares todos te reconhecem
(e eu neles não me reconheço mais)

diga-me amor,
de que país se é quando se ama assim?

a palavra é impaciente quando não escutas,
o sossego é incompleto quando não estás
quando regressas
beijo-te dez segundos
e sou feliz para sempre

prometo amar-te até
a última folha do calendário,
e a primeira

prometo amar-te até 
o último limite,
e amar-te quando 
não houver nenhum limite mais

na aritmética exata dos desejos
a geometria perfeita do teu corpo no meu;
se te desenhasse seria um homem completo

trazes-me
a fome absoluta. o prazer absoluto.
a entrega à vida

debaixo de uma lua só nossa
tua silhueta brinca-me com as sombras
nas cores rubras do abajur do quarto

por debaixo desta luz
minha devoção:

Deus é uma bailaora.

sábado, 1 de abril de 2017

A vigésima segunda visita da generosidade...

"A vigésima segunda visita da generosidade"

Uma releitura generosa dos óbvios.

À força do instante,
inesperado o saber
das asas. 

A quem interessar possa, mande-me mensagem:

quarta-feira, 29 de março de 2017

Carta IV...

[...] a outra coisa é que iremos atrair para a nossa vida as experiências que confirmem as crenças que temos sobre nós. A repetição dos padrões e frustrações se dão por conta das questões interiores que para cada uma delas ainda não olhamos profundamente e com generosidade. O que penso é que ciente dos nossos engessamentos poderemos mudar a narrativa emocional que andamos a escrever e a repeti-la diariamente. Dissolvendo os nós e libertando-nos do passado, ganhamos a liberdade e o espaço para permitirmos que o novo realmente venha. Quanto mais olharmos para nós, melhor enxergaremos a vida. Quanto mais nos amarmos, mais o amor poderá chegar. Creio que esta seja a lei.

(Carta a uma amiga)

sexta-feira, 24 de março de 2017

Companhia...

Enquanto bebo uma cerveja, aguardo o amor vir sentar-se do outro lado da mesa. Não carece saber o que me dirá em seguida. O que quer que me diga será o suficiente.

Afinal, não é sempre que o amor nos faz companhia.

terça-feira, 21 de março de 2017

Saiam...

Aos demônios, convido a se retirarem.

Obrigado.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Emocionais, é claro.

A previsão do tempo nos permite escolhermos ou não os guarda-chuvas. Apenas isto. Sem garantias, como gostariam nossas ansiedades. Sem certezas, como precisariam nossos controles.

A previsão do tempo é apenas um pretexto para prevermos.

Somos dependentes das previsões e receitas de bolo.
Emocionais, é claro.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Humanidade...

Amar alguém é amar todos os outros. Assim como matar alguém é matar todos os outros. Isto se considerarmos a humanidade que nos atravessa indistintamente como uma verdade que nos comunica e nos define.

(Um atrevimento como resposta ao pensamento de Albert Camus)

segunda-feira, 6 de março de 2017

E não o contrário...

O amor perdeu o amor. 
O amor perderá o amor. Os amores. 
O amor se perderá. 
Mas, o amor jamais perderá o amar. 
E o amar há de perdoar o amor.

É o verbo quem nos salva das desesperanças.
Uma e outra vez e cada vez mais. Sempre.

É o amor quem nos conjuga no tempo, e não o contrário.

sábado, 4 de março de 2017

Em nós...

alegrava-me por desaguar 
em nós o me
destino.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Sensatez...

O perigo de ser um excessivo sonhador era não viver o bastante para redimir-se de qualquer coisa que não havia lhe dado outro futuro e melhor oferta ao peito. O risco era bastar-se com suas interiores ilusões e invisíveis esquecimentos, prendendo a vida imensa no limitado da própria cama. Era nítido o contraste disto com as esperanças; estas que não permitia entrada no quarto a despertá-lo para continuar a procura de melhores destinos e algum amor.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Açúcar...

A miséria intelectual por aqui chega a tal monta que aquele que critica o uso abusivo do açúcar é imediatamente condenado como inequívoco defensor dos amargos.

Isto é, a estupidez de uma ideologia lançando sua própria cegueira sobre os outros.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Sobre você...

O que desejo é que você tenha todo o amor do mundo. Que o descubra aos poucos, no tempo certo de amadurecer, que é o tempo de melhor saber o amor em si. Descobrir o amor é saber amar-se. Saber amar-se é conceder a gentileza à inconsciência dos erros. Assim, que você se revele mais generosa consigo, despedindo culpas, mágoas, ansiedades e demais prisões. Que esta generosidade seja a luz a te esclarecer e iluminar os outros. Que você seja mais íntegra, honesta e leal consigo. O mundo a seguirá logo depois. O caminho se fará conforme a sua própria caminhada. Seja paciente com os seus próprios pés. O coração se fará abrigo para os que te amam e te querem bem. Será também janela para os seus ainda insuspeitos milagres.

(Carta enviada a uma amiga)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Urgências e demoras...

[...] enquanto o tempo com suas demoras faz girar o mundo e acontecer a vida, com a tua inesperada travessia em mim, passei a sofrer de urgências. Depois de ti, não acompanho ritmos nem respeito prazos, os dias se dissolveram em noites e as noites em esperas. Antes de entardecer e já amanheço sem descansos. Antes de prometer e já me cumpro, apenas para adiantar-me de algum jeito. Sobra-nos tudo, falta-nos as horas. Sobra-nos desejo, falta-me a lucidez. Ando a dormir sendo metades em que parte busca-te por entre os sonhos, e a outra mantém-se alerta a esperar tua volta. Lanço-me ao passado para cumprir minhas lembranças, revivendo abraço que não foi dado e a palavra que não foi dita. Busco-te uma vez mais para corrigir minhas tristezas e apagar ausências que sabem meu nome, mas desconhecem o teu quando por perto. És a confissão do meu mais íntimo pensamento. Por isto, sofro,  porque o teu amor se fez espelho e, sabendo de ti meu amor, saberei de mim também.

(Guilherme Antunes & Jhully Inácio)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Dos mistérios...

As infâncias nos ensinam encantamentos. Aí, quando adultos, o tempo vira relógio.

Deus, hoje, desalojado das preces despediu-se para fazer morada no amanhã:
lugar este onde estamos sempre a chegar.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Sempre...

O amor toma-me sempre nos braços.
(imagem: @carolguimaraesfoto)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Impede-nos

A própria clausura do fracasso impede-nos de percebê-lo.

sábado, 28 de janeiro de 2017

9 horas...

São 9 horas. Como combinado. A esta altura, estarei sorrindo para ti. São 9 horas e somos felizes. São 9 horas e não há tempo. São 9 horas e carregamos todos os sonhos do mundo. A esta altura, estarás sorrindo para mim. Caso-me contigo para antes e depois dos ponteiros, pois não há dia ou hora melhor para casar contigo senão o dia ou a hora em que te amo. São 9 horas. Como combinamos. À nossa volta, os pais, irmãos, a vida, os anjos, os frutos, Deus, os padrinhos, o amor.

A esta altura, todos sorrindo para nós.
E em cada um de nós, para sempre.