sexta-feira, 30 de setembro de 2016

As saudades curtas...

Parecem estúpidas as saudades curtas. São certamente insensíveis e solipsistas, perante as saudades longas e profundas, que não têm cura nem, por serem insolúveis, têm a esperança de, um dia, deixarem de existir. São saudades de uma hora, de um almoço perdido, de uma tarde interrompida. Parecem irracionais e ingratas, estas saudades curtas, de que sofrem as pessoas apaixonadas e felizes ou infelizes. Mas não são. Daqui a um X número de horas, vou morrer. Daqui a um Y número de horas, vai morrer a Maria João. Morra quem morra, com a maior ou mais pequena das antecedências, o certo é que o tempo da vida e da saudade está contado. Cada hora que não estou com ela está para sempre, definitivamente, finitamente perdida. E é daí que vêm as saudades curtas do amor, que tomam cada momento por uma vida. Só por amor se vive assim.

(Miguel Esteves Cardoso)

terça-feira, 27 de setembro de 2016

O próprio peito...

Comprometidos com o tempo passado, presos ao nosso próprio futuro: entre todas as possibilidades e possíveis combinações, nós somos o que poderíamos ser. Não nos sendo possível sermos outros, aceitemos as versões que compõem a nossa história, aceitemos os lados e avessos que ora carregamos ora nos carregam. Ao navegarmos no rio do tempo, sopremos nós a favor ou rememos contra, somos e seremos sempre o nosso próprio destino.

Assim, sejamos generosos conosco, ainda que nos percamos entre as nossas marés. O melhor lugar para aportarmos será, se permitirmos, em nosso peito - a nossa casa.

domingo, 25 de setembro de 2016

Quem...

Quem ama, veste-se de poesia como o jardim se veste de flores. Quem não sabe do Amor, veste-se de palavras como o homem envergonhado veste sua velha roupa. Quem ama, põe-se de cores como o sol que colore o céu ao final da tarde. Quem não entende do Amor, enfeita-se de cores para gritar qualquer coisa que em si não lhe pertence. Quem não ama, contenta-se com esquinas. E quem sabe amar, sabe que o mundo inteiro lhe pertence.

(Do meu livro: "A Ilha de um homem só" da Editora Penalux)

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Compra!

Tem gente que compra.
Tem gente que não quer comprar.
Tem gente que diz que vai comprar e compra.
Tem gente que diz que vai comprar e não compra.
Tem gente que diz que vai comprar e esquece.
Tem gente que diz que vai comprar e desaparece.
Tem gente que se enrola pra comprar, mas compra.
Tem gente que te enrola pra comprar e não compra.
Tem gente que jura de pé junto que vai comprar e some.
Tem gente que diz que só pro outro mês, senão morre de fome.


Dedicatória bacanuda.
Preço bacanudo.
Conteúdo, capa, envelope, tudo bacanudo.


A quem interessar, chama-me:
guglicardoso@gmail.com
http://www.facebook.com/ailhadeumhomemso
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Queremos livros que nos afetem como um desastre. Um livro deve ser como um machado diante de um mar congelado em nós.

(Franz Kafka)

terça-feira, 20 de setembro de 2016

A meu respeito...

A alegria é um corredor que distraído atravesso. Escrevo para expandir-me do lugar que me encontro: jeito de viver duas vezes um pouco melhor na segunda. Reescrevo-me conforme o passado que ainda me dita o que não sou, pois, o que é o agora senão uma reedição incompleta de mim?  Na ordem rebelde das coisas, fixado na teimosia e na incompreensão, insisto em ressuscitar o que deveria manter morto. Pesa-me tudo aquilo que dou vida e revisito: cenários, diálogos, tristezas, monstros que sabem horríveis verdades a meu respeito. E o medo que não atravesso é o medo que alimento. O medo que alimento é o medo que tenho de atravessar-me. Mantenho-me então imóvel, a espera de que a solução prenda-se à tempo nas teias de vida que sem querer acabei por criar.

E paciente - o silêncio desconsertado de tudo ensaia-me a coragem no poema.

sábado, 17 de setembro de 2016

Será?

não duvide,
contrarie, argumente
ponha em xeque
a verdade de um poema.

porque mesmo não o sendo verdadeiro,
real, factível
será todo ele sincero:

e isto
porque feito de sangue
porque feito de nuvem
porque feito de sonho

isto
porque sempre
inocente.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Cadente...

No amor, suas palavras eram estrelas cadentes,
por lhe prometer realizar
os desejos todos
quando no peito,
nada mais
quisesse.

(o silêncio no amor era seu céu)

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Sul da Ilha...

Estou no extremo sul da ilha. Se eu nadasse numa linha reta, imagino que em algum momento chegaria ao Antártico. Terras austrais. De qualquer forma, o extremo sul não significa muita coisa, quando o extremo norte fica a pouco mais de duas horas de carro. Poucas horas de carro, e pronto, terminou a ilha. O mar, em compensação, parece inesgotável. Assustador. O mar aqui é um mar que ainda não foi domesticado. Nunca lhe foi imposto limite algum. Até mesmo as cores, o cheiro, as algas, tudo nele parece que acaba de surgir. E me vem sempre a sensação de estranhamento quando olho em volta e vejo estradas, casas, pessoas, como em qualquer outro lugar.

(Carola Saavedra)

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Tal qual...

parece-me que apenas
a eternidade bastaria:
calar as marés, saciar-me com
o silêncio e despir-me das tensões.
mas sou filho do tempo -
de mãos vazias me despedi
de mãos vazias regressarei


eternidade é palavra
vazia
tal qual eu.

domingo, 11 de setembro de 2016

Amargo...

Não, eu não sou um cara legal. Afinal, do que sabem os olhos quando não convivem comigo? Eu sou uma coleção de manias, pecados, neuroses, defeitos, esquisitices e encrencas que enganam muito bem o espelho, nos elogios de que me sirvo como terapia de que nada me serve. Quer exemplos? Sou um ressentido; lembro daquele dia cinza que você tingiu o meu céu em agosto de 1946. Sou de arder em azia pelas palavras que você disse e que eu não digeri bem naquele recreio da 6ª série; sou de me consumir em silêncio enquanto em alto e bom som prego sobre o perdão. Guardo cartas, imãs de geladeira e rancor, muito rancor. Cada pisada no meu pé e eu viro monstro. Uma ofensa tua que me corte equivale a trezentas ofensas minhas a te massacrar. Sou bem justo, como você pode perceber. O tratamento aqui se dá como se eu fosse a alma mais pura e você, o mais sujo vilão. Pinto ares de apocalipse pra qualquer vento mais forte. Cobro a cura dos meus arranhões quando não me preocupo em evitar tuas dores. Clamo vingança pelo ego doído enquanto verso a compaixão como minha natureza; isto quando me convém. Uso da violência para calar fragilidades e das palavras para conseguir o que eu quero, sem pesos ou medidas. Meus ciúmes são sintomas de controle; minha inveja é reflexo da pobreza; meu mal-querer é fruto de antigo coração partido. Sou demônio disfarçado de arcanjo que aprendeu a sorrir somente pra sorrisos receber; que aprendeu a falar dos milagres como digno de todos eles; que fala virtudes como se falar fosse o mesmo que vesti-las; que diz amor nas linhas para atenuar as faltas na carne. Troco qualquer nobre valor por conveniências que pro meu orgulho interessam. Guardo no bolso, mentiras, gentilezas, amantes, histórias e outros prêmios que uso para me enfeitar e me deixar bem aos olhos dos outros, enquanto silencio egoísmos e feiuras, jogando tudo pra debaixo do tapete. E pra que varrer se eu posso jogar a culpa em alguém? Acreditar que o inferno são os outros e que o mundo gira ao meu redor me absolve dos estragos que faço no jardim alheio. Mas você não vai perceber os meus avessos, porque comigo você não dura muito tempo. E saiba: minha bondade é apenas um verniz, uma fuga, propaganda, degrau em que piso para me sentir o mais alto dos mortais. Por debaixo da fina camada de doçura que fácil se arranha, há um gosto bem amargo que guardo em mim, difícil de engolir. Sou cego de alma, como eu jamais pude notar.

(Do meu livro "A Ilha de um homem só" publicado pela Editora Penalux)

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Formalidade...

Mas como a gente chama alguém que foi embora? Alguém que está longe, alguém que não está? A distância deveria imediatamente impor um tom mais solene, ou menos íntimo, afinal há a distância. Mas como a gente trata com distanciamento alguém que acabou de estar tão perto, ao meu lado, há pouco deitado ao meu lado, na minha cama, onde todo dia, todas as noites, algo tão íntimo como dividir a cama e os lençóis da cama quando o dia amanhece e os lençóis ficam lá, abertos, escancarados, com suas manchas e sua noite impregnada. Como alguém sai da cama da gente para a formalidade?"

(Carola Saavedra)

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Quando serenos...

deitam teus lábios nos meus
repousam teus olhos nos meus
e então finalmente desperto,

a envolver-me em rede tecida pelos milagres 
pequenos e cotidianos
estes! que nos permite enxergar o amor
quando serenos.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Labirinto...

Não. Eu não estou satisfeito e talvez eu nunca vá estar. Eu não a visto porque não me cabe; ideia que ocupa lugar na alma mas que não preenche. Parece que essa estranheza, essa inexatidão de mim, essa metade com que calculo minha vida inteira, essa falta e esse vazio me dão um sentido torto; uma direção avessa, uma fome que me sacia por esquecê-la. Sou o mendigo que não quer abandonar sua pobreza. Sou o sofrer que não quer despir-se da tristeza. Eu sou a cobra que persegue a própria cauda e a si inteira devora. Eu persigo horizontes e me canso parado; reclamo do que me falta por ignorar o que tenho; reclamo da luz por me assustar com as sombras. Sou ampulheta que areia devora o passar do tempo; sou o amargo descontente por não ter achado ainda o meu traço, o meu passo, minha canção, o meu par. Sou ingrato ao jardim pelas sementes que poupei. Sou ingrato à boca pelos sorrisos que não mereci. Sou também o medo, a desconfiança, o meio amor, o mero acaso, a meia entrega, o vazio todo, o inexato, a incerteza. E me despeço todo dia dos meus amores. Ensaio as perdas todo dia ao nascer do sol. Vivo a me recuperar dos pesadelos e me convalescer das ilusões. Eu sou a fome a recusar o alimento, o náufrago a não querer mais salvação. Distraio-me com qualquer labirinto e me perco com qualquer distração. Sou daqueles que não sabem o que querem por saber bem o que me topa, o que me serve, o que eu mereço. Coleciono manias, carências e angústias no porão de mim em que verdade envelheceu e onde o amor desbotou. A loucura e o sereno vivem dentro, a paz e o desespero são o meu reino. Sou eu o velho rei, querendo fugir do próprio trono a tropeçar no próprio manto.

sábado, 3 de setembro de 2016

Meu maior medo...

O que custa é acreditar naquilo que se tem, quando todos os dias, ao longo de longos anos, se consegue encontrar esse amor que se procura, na pessoa que se ama e no lugar e no tempo - aqui, agora, daqui a bocadinho - em que mais gostamos de encontrá-lo. Hoje a Maria João e eu fazemos doze anos de casados e a única esperança que eu tinha - que se tornasse mais fácil acreditar na sorte que me coube na pessoa que ela é e na cegueira de olhar uma segunda vez para mim - acabou por ser mentira. Há um castigo para tudo: até para a maior felicidade. É o medo não só que tudo acabe mas que se descubra, de alguma maneira, que nunca tenha começado. Por exemplo, se ela se apaixonasse por outra pessoa. "Não vai durar, não pode durar, é bom de mais para durar": é isto que repito no êxtase da minha alegria roubada ao sol, como se o nosso amor e a nossa vida um com o outro fossem um prazer retumbante com um fim à vista, naturalmente aceite quando chega, como comer um gelado. Mas dura e, quanto mais tempo dura, mais medo tenho que esteja mais perto de acabar. Não há habituação possível a esta felicidade. Não há conforto nenhum na passagem dos anos por este amor. Cada vez mais, torna-se a única coisa que peço a Deus e a ela: Maria João, por favor, não me deixes nunca. 

(Miguel Esteves Cardoso)

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Cafajeste...

Leva-se tempo para nascer entre o comum dos homens, original canalha. Assim como a natureza inclina-se em suas demoras para desenhar perfeição nas paisagens, igual se dá a construção do caráter genuinamente cafajeste. Ainda mais o cafajeste versado nos lirismos como meio e fim. Un hombre com o olhar de um Nelson Rodrigues aliada à paixão de um Vinícius. Um homem de sagrado ofício nos encantamentos da mulher, eivado de exclusivas dedicações às palavras como tentação e convite; com a precisa sutileza a seduzir, nos labirintosos caminhos da paixão, a alma de uma fêmea. Aliar os carnais desejos à poesia é uma daquelas raras probabilidades matemáticas que abençoam os poucos e únicos canalhordas da modernidade. Uma alquímica combinação de predicados e dons, a desenhar de forma ideal dentro do poeta, delicioso e sonoro canalha. Crê este homem - fruto do lírico pecado - ser a poesia sublime pretexto para as entregas. Crê também este homem, que a poesia nasceu mulher. Pois fruto do encanto e do desejo, impreciso e imperfeito, busca através do sagrado feminino, oculto nas curvas das letras e da mulher amada, dedicar-se e ser inteiro; ainda que a descarte no dia seguinte como páginas já percorridas de um livro já conhecido. Afinal, todo personagem em sua história tem seu tempo e sua vez. Ao poeta-canalha filho do tempo e dos desencontros, o que mesmo importa é a imutável natureza que permeia todas as fêmeas, e o inspira; o amor abstrato e imenso onde navegam seus corpos e movimentos, e que o seduz, para além das formas e nomes e telefones que coleciona. Assim se atreve, sintonizando alma com nudez, sexo com redenção. Alimenta-se das luxúrias que a linguagem nos concede para, tal qual serpente astuta do paraíso, envolver sua dama e presa nas artes do convencimento e da entrega. Deita-se a mulher pretendida na cama da poesia.

(Texto do meu livro: Teoria Geral do Desassossego)