sábado, 30 de julho de 2016

Apesar de...

O foda é que vivemos e temos que viver, apesar de. Apesar da tristeza, vivemos. Apesar dos medos, vivemos. Apesar do cansaço, vivemos. É uma lista infindável que colecionamos de apesares e inevitável é que a colecionemos. Vivemos apesar das dores: sejam nas costas, nas pernas, no peito que apesar de bater procura sentido para continuar batendo. Apesar do tempo que perdemos e do agora que não encontramos; apesar da ansiedade, apesar do passado, a pensar no futuro, apesar das falhas, ensaios, ilusões, desencontros, solidão, desejos. Apesar do desamor, amamos. Apesar dos boicotes, insistimos. Apesar do que incomoda, corrói, aperta, sufoca, atordoa, perturba. Apesar do mal estar e do bem-me-quer. Apesar da falta de sono, da falta de sonho, da falta de sorte; apesar do que é preciso esquecer e inevitável lembrar. Apesar das ausências, das neuroses, das cicatrizes, do horóscopo, dos remédios, das culpas, da lágrima, do sal, açúcar, glúten, lactose, alergia, intolerância, impaciências. Apesar das fotos, poses, mentiras, fugas, ressacas, vícios, esperas, insatisfação. O foda é que vivemos e temos que viver, apesar de. Apesar de vivermos tantas vezes sem viver; apesar de morrermos muitas vezes sem morrer...

Quem não haveria de ter um coração de herói?

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Inocentemente...

Inocentemente defendia-se de si mesma ao boicotar-se; não se permitindo alcançar o lado mais bonito de si e o ponto mais alto do amor por acreditar que irá sempre estragar a felicidade se ela vier; evitando-a para não se convencer do que por alguma razão já se convencera: de que não serve e não lhe cabem as alturas.

Assim, quanto mais busca, mais distante se põe do que é buscado.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Quando nos apaixonamos..

Quando nos apaixonamos, ou estamos prestes a apaixonar-nos, qualquer coisinha que essa pessoa faz – se nos toca na mão ou diz que foi bom ver-nos, sem nós sabermos sequer se é verdade ou se quer dizer alguma coisa — ela levanta-nos pela alma e põe-nos a cabeça a voar, tonta de tão feliz e feliz de tão tonta. E, logo no momento seguinte, larga-nos a mão, vira a cara e espezinha-nos o coração, matando a vida e o mundo e o mundo e a vida que tínhamos imaginado para os dois. Lembro-me, quando comecei a apaixonar-me pela Maria João, da exaltação e do desespero que traziam essas importantíssimas banalidades. Lembro-me porque ainda agora as senti. Não faz sentido dizer que estou apaixonado por ela há quinze anos. Ou ontem. Ainda estou a apaixonar-me. Gosto mais de estar com ela a fazer as coisas mais chatas do mundo do que estar sozinho ou com qualquer outra pessoa a fazer as coisas mais divertidas. As coisas continuam a ser chatas mas é estar com ela que é divertido. Não importa onde se está ou o que se está a fazer. O que importa é estar com ela. O amor nunca fica resolvido nem se alcança. Cada pormenor é dramático. De cada um tudo depende. Não é qualquer gesto que pode ser romântico ou trágico. Todos os gestos são. Sempre. É esse o medo. É essa a novidade. É assim o amor. Nunca podemos contar com ele. É por isso que nos apaixonamos por quem nos apaixonamos. Porque é uma grande, bendita distração vivermos assim. Com tanta sorte.

(Miguel Esteves Cardoso)

terça-feira, 26 de julho de 2016

O jogo...

Viver vai além do que se quer garantir; do que se deseja controlar; do que se espera acontecer. Apesar da falta e do excesso de sentido desta vida, vive-se. Vive-se apesar de, apesar das: ânsias, angústias, esperas: pelo dia do pagamento, pelas férias, pelo final de semana, pelo final do campeonato, pelo fim do expediente, pelo churrasco de domingo, por um amor qualquer ou por qualquer amanhã onde se espera ser feliz. Viver vai bem além do que reconhecemos como viver. Apesar da ansiedade e do medo que nos anulam no presente, vivemos. Além do que ignoramos e insistimos para não sofrer, do que nos sujeitamos para não sofrer, vivemos. E sofremos exatamente pelo que insistimos, ignoramos, nos sujeitamos. Além do egoísmo que escondemos, da inveja que negamos, dos ciúmes que calamos, das mágoas cultivadas, das culpas cativadas, da impaciência praticada, das verdades aumentadas, das mentiras sustentadas, vivemos. Viver nos acontece além das justificativas de que o erro não é nosso, embora o cativeiro seja. Colonizados pela rotina, pelo espelho, pelas dietas, pelas ausências, pelos cansaços, pelas ocupações que nos distraem das misérias acumuladas nos anos perdidos. Vive-se apesar do celular, da compulsão, do sono interrompido, do sonho posto de lado, da tristeza de estimação, dos remédios usados para se lidar com aquilo que o peito não conseguiu.

O jogo que não aceitamos perder é o mesmo que não pode ser vencido.
E é por isto e só por isto - por não aceitarmos - que vivemos a perder.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

A seco...

Ela por bem engoliu a seco as palavras que fariam a diferença. E por bem guardou tanto e tudo porque não queria perder. Ela se sente longe de casa dentro do próprio peito. E não sabe o que fazer com o que sente, e como é não se sentir sempre incômoda, apressada, atrasada e na dúvida se o que viveu até então não poderia dar-lhe algum descanso. Ela quer o que a alivie desta sensação de não se encaixar; no amor que não encaixa, na solidão que não encaixa, na vida que não encaixa. Ela busca o que a salve do caminho sempre tão difícil, do que crê ser improvável, do que já aceitou ser impossível. Sofre das distrações que não alimentam; sofre da falta de sentido; da falta de amor próprio; sofre de boicote; de insônia; de um silencioso e crônico desajuste dentro de si. Cabe onde não lhe cabe mais e insiste. E se prende. E mastiga. E procura: nos romances que não vingam, entre os erros que se vingam, nos livros que devora. Distraindo-se na poesia, nas ansiedades, no sexo, no sono, na sedução, nos elogios dos outros que coleciona no espelho que não se enxerga. Luta contra os medos, contra o tempo, contra a velhice, contra o estresse, contra a tristeza. Conta histórias para acreditar. Conta lembranças para convencer. Conta vantagens para ocultar o tédio, o emprego, o amor e a rotina sem altitude. Não sabe o que é renascer, apenas se remendar. Assim não se perdoa, não esquece, não se aceita, se envenena: de carências, mágoas, frustrações, passados. Ela que agrada a todos queria ser rebelde. Ela tão rebelde não sabe sentir-se amada. Ela não sabe. Ela suspeita, ela planeja, ela deseja. Ela sonha, mas não desperta.

Ela quer ser quem ainda não foi.
E ver se dá certo.

domingo, 24 de julho de 2016

Eu te odeio...

Eu te odeio. Odeio por não conseguir despedir-me do que não deveria pertencer-me mais, e que leva teu nome. As lembranças tuas são de doce insuportável misturadas neste amargo presente. O contraste embrulha o estômago, oprime o peito, dá-me gosto ruim. Odeio-te por cair em todos os buracos que o meu amor próprio permitiu. Eu te odeio por querer-te demais, e há frustrações demais por detrás disto. Querer-te demais é a doença e a punição que sofro enquanto desejo. Odeio-te por caminhar para o abismo. Odeio-te por sua ausência cobrar-me qualquer obrigação. Eu te odeio porque espero que lembres de mim no mesmo grau e intensidade; que sinta o mesmo veneno filho das tristezas. Eu te odeio porque não é isto o que realmente espero e porque de ti não tenho notícias. Odeio-te por não saber o que fazer contigo. Odeio-te por não saber o que fazer com o tempo que sobrou. Odeio-te por perder o norte, o rumo, o lume. Eu te odeio porque não sei mais de mim como sabia. Odeio-te por enterrar certezas, esmiuçar cansaços e calar-me para que só ele fale. Dói-me o orgulho. Doem-me as fraquezas. Odeio-te por não haver palavra que alivie, prazer que alivie, fuga em que eu escape, e então, levo-te comigo a me castigar. Odeio-te por não haver nada bom o suficiente, ainda que seja nítido que tudo possa ser melhor que ti. Odeio-te pelos sintomas todos. Por estes pequenos grandes inúmeros tormentos. Por frágeis e inconstantes previsões. Odeio-te por não ter combinado nada para ser feliz amanhã. Odeio-te porque sangro para sempre. Odeio-te porque fui marcado pelo amor que trouxeste. Odeio-te por não servir para outra coisa senão o amor. 

Eu te odeio por isto, justamente porque te amo.

sábado, 23 de julho de 2016

Mais sábio...

Descobriu ela com certo alívio que era tanto a inquilina das suas alegrias quanto das suas tristezas. E que não haveria como insistir em uma ou resistir a outra. 

Assim, tornou-se o peito mais sábio por aceitar suas próprias impermanências.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Ansiedades...

Ansiedade é tropeçar no futuro que ainda não alcançou os pés; é adiantar relógio para chegar cedo na festa. Ansiedade é a descortesia com o presente que nos hospeda; querer acordar sem deitar para dormir. Boicote de quem não se aceita e por isso corre para não se alcançar, ansiedade é o comum sintoma que confessa só sabermos viver melhor entre os amanhãs.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Da gratidão...

A gratidão é dimensão essencial à vida, possuindo relação direta com as prosperidades e com a apreensão da beleza em nosso cotidiano. 

A gratidão nos imensa, agigantando-nos diante do nosso próprio tamanho.

A gratidão liberta-nos do passado, que entalado permaneceu no peito, ao aceitá-lo integralmente e apresenta-nos ao futuro, por nos atualizarmos no milagre do momento presente.

A gratidão dá-nos a oportunidade de escolhermos o melhor caminho que se faz o melhor caminho porque nos tornamos gratos a ele. 

A gratidão há de convocar sempre as nossas ocultas riquezas.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

O fim...

Quem disse que no amor há final ou mentiu ou se enganou, fosse para enganar a si mesmo e salvar-se da dor. Ninguém está à salvo de um final que não acaba, vez que o amor continua sendo o que é, ainda que tenhamos deixado de ser o que éramos. A verdade é que o fim nem sempre é o final, mas apenas doloroso e cansativo recomeço. Obrigação dolorosa de impormos distâncias, abraçarmos a contragosto as ausências, lembrarmos do que se gostaria de esquecer, pois, mudamos do plural para um inevitável e apertado singular. Cansativo porque abrimos mão dos planos, sonhos e cuidados colecionados ao longo da convivência: entre o que éramos e o que seremos, continuamos vivos mesmo depois de morrermos; vivendo precária existência a espera de nos sentirmos menos do que uma metade. Ânsia angustiada para que voltemos às cores; para que o interesse nos desperte e que nada mais doa quando nos toquem. Que deixemos de nos sentir estrangeiros na própria vida, desconfortáveis em nós mesmos, quando qualquer luz ainda incomoda e cega, ao invés de ajudar-nos verdadeiramente a enxergar. O que nos dói na morte mesma é que nem sempre morremos de amor; ficamos como intervalo entre o que sentimos e o que buscamos abandonar e dissolver, a um passo do abismo interior e da desordem emocional, carregando o gosto amargo e um peso no meio do peito, da alma, do caminho, imperceptível para os pedestres. O amor não nos pede justificativas para continuar sendo, independente de nós. Por isto doemos quando não mais se é, ainda que distante continue a ser.

Mentimos que há um fim para podermos novamente começar.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Prometo levar-te flores...

Depois de tudo e tanto meu amor, não precisarei matar-te dentro de mim. Lamento informar somente agora, mas havias morrido desde muito. O erro, confesso, foi não declarar antes teu óbito. Hoje o que está a doer-me não é o final - eu já esperava o dia para me livrar do teu cadáver - e sim a necessidade de encarar-me e abandonar o peso do passado que carrego. O que está a doer-me é voltar aos inteiros quando neles não caibo mais. O mofo, a mágoa e o medo que tua alma tornou a minha ocuparam o espaço das janelas para sair. A questão é que me desacostumei com a luz por conta da tua escuridão. Saiba, meu bem, enquanto me sufocavas com a tua demência eu te asfixiava com meu desinteresse. Por isto não choro qualquer adeus. Não há por quem chorar ou partir. Partido estou eu e, se nascem-me as lágrimas são por um passado que não aconteceu e pelo medo de encarar-me no que sobrou a colar os cacos. Choro, sim, de raiva por ter me tornado moribundo entre as tuas violências. O que me restou? Exorcizar-te e não lhe contar. Enganei-me acreditando ser ainda amor, enganei-te ao permitir teus passos ao lado de um homem vazio como defesa pelas dores que me deste. A tristeza não ocorre pela despedida, mas porque não sei para onde ir a encontrar-me com uma paz que hoje não alcanço. Tu te tornaste o fantasma do fantasma que me tornei. Sou eu agora a pagar o preço para ressuscitar, reanimar o amor próprio depois de acimentar doçuras e consignar levezas. E tudo para ficar contigo sem ficar comigo mesmo. Emprestei belezas que jamais poderia ter a ti emprestado, porque tu nunca devolveste. O que mais me dói é ter que recobrar a sanidade e encarar a vergonha de permitir-me perder tempo e ter sido o que jamais teria permitido-me ser. E ainda que eu seja toda esta aridez a lhe confessar, prometo levar-te flores. Num passado em que conseguimos nos amar porque nem no túmulo hoje mereces tu a minha visita.

domingo, 17 de julho de 2016

Meu próprio farol...

Hoje, quero ser o meu melhor encontro de amor, deitado no meu abraço mais gostoso a envolver-me macio como cetim e enfeitar de sereno e cuidados minha própria alma. Porque algo aqui dentro me convida a despedir tristezas como quem lava as mãos no rio do tempo, cantarolando baixinho música a lembrar-me da infância. Hoje, namoro silêncios para com carinho consertar meu vaso rachado de esperanças e acreditar mais em mim. É hora de vestir levezas, convidar a vida para dançar ciranda e me crer amada pelos amanhãs. Algo nesta noite tece mistérios que descortinam a alma feito mágica, a me trazer sensação de surpresa boa como a delícia de um sorriso de criança que se encantou com o truque de tirar o melhor suspiro da cartola. Hoje é dia de espalhar sementes sem precisar sair do lugar. De plantar um pé-de-sol dentro do peito e respirar macio. Hoje é dia de saber o tamanho das próprias asas. É dia de adormecer os medos e desempoeirar verdades, exercitando coragens para desatar nós em laços que não mais enfeitam e dissolver mágoas no perdão de si. Sou, antes, ser inacabado que existe sendo, frase de inspirações passadas a viver um presente sem rosto, mas que quer sorrir. Para além das marés que sinto entre as noites e tempestades eu sou o meu próprio farol. Sou antes de ser flor, primavera. Antes do amanhecer, meu próprio sol. Sou a promessa da semente e preciso pertencer-me toda e inteira antes, para poder saber-me depois. Sou a lenta despedida do que não me pertence mais. 

Eu sou um delicioso plural de mim.
 
(Guilherme Antunes & Li Vereza)

sábado, 16 de julho de 2016

Lançamento!

"Às vezes essa história de ser inteiro me deixa pela metade, de ser intenso um desgaste só. A dor sendo sombra e o prazer, fruto, qual a escolha daquele que evita o morno da vida senão sentir?"

A moda e a literatura.
Novo projeto. Em breve.


Poemetimize & Guilherme Antunes

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Narrativa...

Tenho nascido desde o início dos anos 80 até então e, ultimamente, não há um só dia que não venha a morrer. Aprender a morrer leva talvez mais tempo do que se vive e do que se aprende a viver. Sabes bem que isto não se trata de outra coisa senão de amor. Desde o cessar das pequenas coisas até a perda das coisas maiores. A morte dos amores por qualquer partida. A morte dá-nos singular e provisória percepção sobre a vida quando uma na outra se encosta, depois dissolvida no tempo e no cotidiano: este, a devorar-nos as sensibilidades. É pela devoração que aprendemos a amar com distâncias para não sofrermos aquilo que nos é inevitável: a perda. É pela devoração que aprendemos o medo, a fechar portas, abrir com cuidado as janelas, interpretar os sonhos. Buscamos no amor exatamente o que nele afastamos: motivos a sairmos do exílio no qual ininterruptamente nos colocamos. Amar é repatriar-se na vida. Viver é desaprender a morrer, e seguir. Morrer é doer para esquecer de doer, e viver. Porque torna o amor tudo o que atravessou feito de memórias. Os móveis de casa toco para sentir histórias. Meu corpo é uma costura de referências. O cheiro do café lembra-me a infância. Um livro trouxe-me de volta minha vó. Uma música devolve-me o primeiro beijo. Tenho morrido repetidamente para aprender corretamente a esquecer; isto porque grifamos estupidamente o amor quando este se torna saudade ou tristeza. Tenho nascido repetidamente para aprender corretamente a lembrar; para não perder aquilo que já perdi por não esperar o tempo de amadurecer: olhar, abraçar o suficiente, calar, declarar-se o suficiente, pedir perdão, perdoar, amar melhor. Somente o amor concede-nos prever o futuro, reparar o passado, suspender o presente, ainda que imprevisível o futuro, irreparável o passado e contínuo o presente. O amor permite-nos esta paradoxal narrativa que melhor se explica quanto melhor nos desesplica, absolvendo-nos das maneiras mais severas da sua ausência.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Os livros...

São os livros a escolher-nos e não o contrário. Silentes, farejam-nos no tempo. Sabem de nós muito antes de nós os sabermos. São feitos para nós; nascem para nós; dando-nos a acreditar que nós os encontramos. Para cada um de nós há um exato livro que nos aguarda. Para cada um de nós há verdades que nos esperam. Para cada um de nós há reflexos que somente a cada um de nós pertence.

Eis o seu momento de ser encontrado.

A última tiragem chegou.

e-mail: guglicardoso@gmail.com
fb: http://facebook.com/ailhadeumhomemso

terça-feira, 12 de julho de 2016

Problema...

O problema não foi nenhuma das nossas incontáveis, insuportáveis, intermináveis discussões; nas tardes lindas dos finais de semana em que passávamos mais tempo na cama apagando incêndios do que enamorados. O problema não foi seu incrível dom em arranjar problemas, ou até cisco no olho, naqueles dias pares e ímpares da nossa relação. O problema não foi o seu ciúme doentio, ou seus gritos, ou a sua falta de respeito, sua raiva desmesurada. O problema aqui, tampouco foi você sempre ter me sufocado, por tantas vezes me humilhado, condenado todo o meu passado, minhas escolhas e um dia quem eu fui. O problema não foi qualquer uma das minhas lágrimas, meu coração despedaçado, meu poço profundo de ressentimentos, minhas cartas rasgadas. O problema também não foi sua (in)vigilância, sua implicância, suas mil cobranças ou todas as suas tentativas de me controlar: corpo, mente e alma. Nem você ter estragado festas e noites, arruinado jantares, frustrado viagens, boicotado descansos, com pequenas bobagens que se tornaram vendavais. O problema não foi seu mau humor ser o pano de fundo da nossa história; ou todas as nossas brigas já previstas na agenda. Também não foi o meu desespero casado com a tua falta de lucidez. O problema não foi você ter despertado minhas sombras e demônios que jamais precisariam ter sido despertados. O desespero, a frustração, a nossa violência física, verbal e espiritual. Ou noites muito mal dormidas e lembranças doídas. O problema não foram seus dramas, suas mentiras ou qualquer uma das suas prisões: ter feito do medo, o ar que eu respiro; ter feito do peito, uma coleção de feiuras; ter como vício não ser feliz. A questão não foi você ter feito o inferno parecer parquinho infantil, e o amargo o pão nosso de cada dia. Não, o problema não foi eu não mais no amor ter crido, ou estar na vida morto enquanto vivo, ter por você adoecido, ou ter por completo apodrecido. O problema mesmo, meu bem, foi você um dia ter nascido.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Dos tolos...

Os tolos não vivem por completo. O que nunca aceita e sempre exige, na vida encontra-se desperdiçado de tudo. Contrariado, fervem-lhe as ânsias. Contrariado, rebela-se incapaz de transpor suas frustrações. Trouxe consigo o menino que um dia lhe deixaram ser e nada negaram. Hoje finge sentimentos educados até que lhe desmintam por aquilo que não lhe dão. Contrariado, torna-se predisposto às fúrias e pela lógica, as perdas. Aniquila-se no próprio veneno que o afasta do bom senso e do que ama. Devem os outros reagirem apenas aquilo que silencioso aceita. Pois se contrariado, ressente-se, pondo a coerência em xeque, o peito ausente, o corpo menos aliviado. Sua fragilidade é que o mundo lhe desdiga e desmascare. Sua fragilidade é o medo que o apavora e veste-o de raiva que muito sente se desdito e desmascarado. Dono das certezas e das inverdades que convive, vence apenas para não perder, e perde sempre sem saber ganhar. Os tolos não vivem por completo, mimados de tudo para suas crenças.

domingo, 10 de julho de 2016

Quando...

Os olhos fechados servem para evadir-me. Ocupo-me para justificar as fugas. Mudo de amor por covardias e permaneço neles pela mesma razão. Recuo sempre como se sempre seguisse adiante. O que desaprendi contigo me ensinou como nunca, mas para nada.

Diga-me: quem sou eu quando não estás?

sábado, 9 de julho de 2016

Se...

Se soubéssemos dos frequentes milagres e possibilidades que ocultos vivem nas distraídas escolhas do dia a dia, aguardando pacientemente a nossa permissão - uma inexatidão de nós, uma guarda baixa, uma distração - para que venham a revelar-se e salvar-nos das insistências que cultivamos em tons de cinza e naquilo que não se é mais, renasceríamos mais vezes...

sexta-feira, 8 de julho de 2016

A saída...

A única saída será aquela pela qual ainda não se entrou. Ela não será uma resposta visto que a saída não é nada que se pareça com uma. A única saída será atravessar o que se oculta. A saída é o óbvio que não se enxerga. A única saída é aquela que se tardará uma vida a perceber que ela se trata exatamente da entrada. Ela se encontra por detrás do medo. Ela se sabe por detrás da vergonha. Ela se revela por detrás do orgulho. A saída não será o final, mas antes o real início. A única saída será enfrentar-se tão completamente que isto se trate de aceitar-se completamente. Ser quem se é para aí então buscar-se como aquele que se encontrou.

Ser a si mesmo é a única saída que até agora ainda não tentamos.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Outras vezes, não.

[...] e ao longo do tempo vi que entre o leitor e eu há a palavra. E entre o leitor e a palavra há um universo seu que bebe do meu universo a partir dos seus próprios humores, amores e vazios. Por isso muitas o leitor enxerga somente aquilo que pode ver: o seu próprio reflexo.

Às vezes é possível alcançar-me. 
Outras vezes, não.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Toda para nós...

 E nós, atrapalhados entre sermos tolos e apaixonados, dizíamos tanto por conta da tolice quanto por culpa do coração que o outro ainda nos salvaria por trazer consigo a felicidade toda para nós. 

Deixemos esta ideia assim, por enquanto.

terça-feira, 5 de julho de 2016

A doença...

A doença é um sintoma do impedimento das verdades que em nós deixam de circular. Quando verdade se prende no peito, no estômago, na garganta, o desequilíbrio acontece. A doença é o aviso de que a alma está corrda, sufocada ou fragmentada.

A doença é a revelação da verdade que por tanto tempo ignorada engessou-nos a nós mesmos. A ansiedade, o medo, a inveja, a tristeza por vezes são esses engessamentos de uma verdade não expressa devidamente em nós e por nós. 
Por isto a necessidade de reconhecê-la para nos reconhecermos, praticando-a como integral aceitação do que insistimos em negar, e, como desapego essencial do que insistimos em carregar a por-nos envenenados.
Às vezes exatamente por não aceitarmos uma verdade que nos cabe dispensá-la é que continuamos a carregar.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Das fidelidades...

Ao navegarmos no rio do tempo, ganhamos velocidades que não mais respeitam nossos olhos que ainda buscam acompanhar os detalhes do percurso; não nos sobrou idade e dia na agenda para isto. Quando jovens queríamos alcançar nossos objetivos, e agora nos perguntamos o que alcançamos com eles. Quantos de nós não se perderam do caminho de sermos aquilo que não somos? O que diria hoje nossa infância sobre nós? Continuamos fiéis aos sonhos de antes? Penso ser esta a mais bonita fidelidade a que nos devemos. Não estamos sozinhos na viagem: sofremos das mesmas faltas pela ideia de que éramos sempre mais felizes no passado. A vida se consome quando nos permitimos entrar neste carrossel ao mesmo tempo que da própria vida nos afastamos. Deixamos que a saudade e a tristeza sejam nossas companheiras. Você não é o único e não sei se isto te conforta. Sinto as mesmas contrações na alma que você e agora que tenho mais do que antes, sinto-me como nunca a colecionar vazios. Talvez seja esta toda a nossa miséria: a angústia de que nos falam os livros e o peito. Quem sabe aí esteja a necessidade da busca e da religação, seja através do mergulho ou do salto no interior para o encontro consigo ou com algum deus - quem sabe? Mas, quem tem tempo de encontrar seu deus para além das imediatas aflições, urgentes pedidos e minutos antes do sono? Porque estamos todos ocupados em cumprir o cotidiano. Afinal, somos pessoas tanto responsáveis quanto ansiosas e não temos tempo para nada disto.

domingo, 3 de julho de 2016

Ausências...

Transformou ausências, ainda agarradas nos contornos de dentro, em planos muitos. Calou medo com o olhar no silêncio festejou, impedindo boicote de entrar para roubar a festa e celebrar também. Convidou seu melhor sorriso para amanhã se reinaugurar.

E nunca mais permitiu aproximar engano sem saber qual sua proposta.

sábado, 2 de julho de 2016

O que queremos do amor...

Se tenho alguma coisa a dizer sobre o amor é que não tenho coisa alguma sobre o amor para dizer. Aliás, alguma coisa sempre se tem mas qualquer conselho que eu venha a dar, penso que a maioria seja desaconselhável. De qualquer maneira, cá estou a dar minhas impressões e pitacos. Aos estreantes ou em vias de estrearem neste inevitável e atualíssimo assunto, peço desculpas, pois falarei àqueles já estreados no confuso palco dos relacionamentos e que carregam no bolso existencial da vida, curriculum amoroso com aquelas frases manjadas de que somos dinâmicos e estamos sempre dispostos a aprender e a fazer nosso melhor, cousa que usamos para impressionar o próximo nalguma entrevista disfarçada de encontro. Pois bem, o que queremos do amor é que ele nos reconduza a ele mesmo. Nada mais evidente! Depois de tantos desatinos e pés pelas mãos, queremos um amor que nos leve de volta ao amor mesmo. Queremos novamente as borboletas no estômago que matamos ao usarmos os antiácidos da discórdia e do cansaço, e levezas outras que passamos a ver léguas de distância porque não nos pertencem mais. Para isso é preciso desconvocar mágoas, despir-se das armaduras e desconstruir fortalezas sentimentais erguidas com a argamassa de desesperançosas desilusões. Devemos desmurar o medo deixando-nos disponíveis para que o amor volte. Mas isto não quer dizer que o amor seja avesso às batalhas pois, para conquistá-lo pede-se uma, para deixá-lo limpinho e cheiroso pede-se outra, para não asfixiá-lo outra e para evitarmos centenas de milhares de implicâncias são ainda outras tantas. O que queremos de fato do amor é que ele nos dê férias do dia-a-dia que tedioso se repete como uma engrenagem, engraxando-nos com algum encanto, dando ventilação ao peito congestionado de desânimos. Mas para merecido descanso, devemos redobrar o trabalho e a dedicação aos detalhes que compõem o universo de dois. O que queremos de fato do amor é que ele nos devolva a atenção, fazendo com que o mundo seja saboroso novamente, que o milagre seja permitido a qualquer hora e que a vida volte a ser uma grande atração, ainda que de curta temporada. O que queremos de fato do amor é que ele nos mostre com alguma delicadeza os nossos próprios espinhos, que ele nos permita saber o verdadeiro alcance daquelas raivinhas e tolices que pecamos por orgulho ao acumulá-las e que estrategicamente - sem querer - jogamos no outro. O que precisamos saber do amor é que o amor não é econômico: para que ele nos dê o que desejamos é necessário investirmos sem nos pouparmos. O amor rende quanto mais descomplicado ele for. Discussões em excesso, dores de cabeça em série e elucubrações alongadas o matarão aos bocadinhos, devendo nós usarmos de tais expedientes apenas para periódicas recauchutagens em caso de desalinhamento. O que precisamos saber de fato do amor é que o amor não precisa ser épico para ser grandioso, tampouco dramático para ser intenso. O que precisamos saber de fato sobre o amor é que ele é passaporte para o nosso inevitável - e sempre oscilante - direito à felicidade, e que ele sem acrescentar-nos em nada, nos dará muito.

(Texto publicado na antologia "Crônicas de um amor crônico" da Editora Penalux)

sexta-feira, 1 de julho de 2016

O homem absurdo...

Era um homem absurdo; vivendo ansioso por carregar-se em cada pensamento; por carregar-se no medo de ser ele mesmo. Arrastava vazios com todo o peso de si e admitia ser para si mesmo metade; isto a ele bastava. Qual seria o poder que haveria de ter se se soubesse? Como despertaria cheio de vontades e sonhos? Ocuparia o lugar inteiro do mundo, justificando-se quando até agora um rascunho, um improviso. Qual dor não traria esta lucidez?  Era um homem absurdo. Por deixar-se vítima; ser vítima dos outros era lucrar com algo que não era, permitindo tristeza à paisana, a raiva pronta para o ataque, a sorte a buscar sempre o erro, o coração sempre burro descalço à beira dos abismos. Sem responsabilidades para ser reflexo, preferia-se assim a saber-se. Encontrar-se é resolver-se e isto é dar o que se tem. Todos damos o que não temos, e no prejuízo saímos fingindo que estamos todos a ganhar, com a vida e os sorrisos em dia. Resolver-se é enxergar aquilo que se poder enxergar; tornando o óbvio, óbvio. E por que se atreveria a isso? Era um homem absurdo, como todos os outros homens. Um homem inseguro e covarde é capaz de tudo, menos de enxergar para buscar-se em paz. Esta, entre todas e tantas, não era a sua maior ambição.