quarta-feira, 29 de junho de 2016

Defeitos...

Amamos, e amamos cheios de defeitos. Ao longo dos venenos, dos invernos e das mortes que a nós e ao amor oferecemos, tão mais frágeis, tão mais resistentes nos tornamos. De alguma maneira no amor e na miséria insistimos. E obviamente tolos por querermos ser donos de qualquer razão, revelamo-nos no instante em que nos desconhecemos. Desmoronamos para continuar seguindo: a doer e ensaiar esperanças. Sem nos bastarmos exigimos dos jeitos mais estúpidos que o outro nos baste. Sobrevivemos pelas insistências. E a vida pouco oportuna aponta-nos os lugares em nós onde amamos e onde não; qual diálogo habitam os egoísmos; qual fala denunciam inseguranças; qual atitude mascara o medo; o que nos falta para poder bastar o outro. Às vezes enxergamos o amor exatamente quando não o vemos.

Porque são nas contrariedades todas que nos permite o amar que então o amor ensina.
E assim ensina porque amamos cheios de defeitos.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Teoria Geral do Desassossego...

Um livro para contar-nos tudo aquilo que já sabíamos, 
mas que não havíamos ainda descoberto 
que sabíamos. 

E que se faz essencial sabermos.
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segunda-feira, 27 de junho de 2016

Licença...

A vida pede-nos licença antes de nascer, e engana-se aquele que pensa tê-la desde seu próprio início. A vida é uma aquisição. Adquire-a aquele que toma posse de si mesmo como ato de coragem a derramar-se sobre seu próprio ser. A vida é um batismo anterior aos ensaios e uma conquista para depois deles. Talvez a única genuína a ser-nos possível, a revelar-se após as sucessivas mortes que nos acontecem. Amadurece-nos a vida como fruto no tempo. E o tempo engravida-nos de vida para parirmos já em avançadas idades; quando pudermos em nós nos sentirmos em casa. Anterior a isto, seremos sempre brevíssima varanda a enxergar passados. 

A vida desmente-nos a ideia de que vivemos e somente assim é que verdadeiramente nascemos, passando do acontecer para existir.

sábado, 25 de junho de 2016

Ontens...

O ontem me parece ser o único lugar onde não me é possível exigir e cobrar-me nada além daquilo que já fui. Pois não há urgências no ontem, ainda que sintamos a angústia como seus efeitos. Ali posso descansar-me no mesmo, sem correr os sagrados riscos em viver maiores alturas e eventualmente morrer de amor. O ontem é terreno fértil para distorções e ruas sem saída; e há gente de todo o tipo que ali se culpa dizendo que por lá se perdoou. Há quem volte ao ontem com habitualidade impressionante. Há quem o traga dispensando o próprio presente. Há quem, por isto, despeça-se dos amanhãs como se nunca mais fosse voltar a vê-los, numa viagem sem volta patrocinada pela tristeza a algum passado a dar-nos asilo e qualquer familiar conforto ainda que igualmente nos prenda. O excesso de ontens que colecionamos distancia-nos de nós mesmos pela repetição que anestesia-nos para os agoras. Ainda que os amanhãs façam caminhar as saudades, ontens em demasia as apodrecem dentro da gente. E não me parece acertado viver num lugar onde o sonhar jamais poderá fazer morada.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Respiro melhor...

Escrevo para abrigar-me das tristezas, como chuva que me acontece e me inunda, inesperada. Para além somente de vivê-las, venho para dentro de mim a buscar seus verdadeiros pais e devolvê-las à paternidade que acreditei por tanto minha desde que as encontrei na porta de casa, no meio do peito, ao final do poema, ao final de semana, entre os dias iguais. Disseram-me que pelas semelhanças cabiam-me, e eu, sem saber o que dizer, levei-as comigo. Consolo-me na palavra que as enfrenta, na beleza que as afasta, numa memória que me inocenta, num silêncio que as dissolve e me justifica por não esperar por mim. Aguardo-me feliz nas reticências. Ali, espero-me outro. À beira das palavras, respiro melhor.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Demais...

[...] Sabe qual o nosso problema? Pensamos demais! 
Embora falemos que sentir exageradamente seja o nosso sofrimento. 
A questão mesmo é que pensamos demais, e pensar demais nos causa incontáveis marés que nos roubam de nós visto que nos arrastam para longe por não sabermos dentro do peito navegar.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Piegas...

Se um dia você receber uma carta, longa, linda e passional, com repetidas declarações coloridinhas, alcançando voltas no teu quarteirão, serei eu, diante de ti com sabor cafona de paixão adolescente. Se por um acaso você ouvir pela tua janela um burburinho, abra-a, pois lá estarei eu, fazendo serenata no sereno da noite, declamando versos, cantando liras e ganhando gripe sem me preocupar. Por favor, não me repreenda! Deixe-me ser o que no amor ainda não fui. Se por um acaso você olhar para o alto e me encontrar, ali estarei eu, aprendendo a pilotar avião só para jogar lá do alto pétalas de rosas dinamarquesas que colhi para ti. Mas não fique brava comigo, não! Além da minha reação alérgica, deixe-me voar no teu amor, seja nas asas da metáfora ou num teco-teco bem velhinho. Se um dia andando na pracinha você encontrar escultura sua feita de palitinho de sorvete, serei eu, aprendendo por ti nobres ofícios e me tornando amigo do sorveteiro. Não fique chateada comigo! Diga no máximo que sorvete demais faz mal pra minha garganta. Permita-me ser clichê, lugar-comum, piegas, batido, romântico açucarado, bobo e feliz! Deixe-me ser no teu amor aquilo que sonhei quando acordasse. Deixe-me ser aquilo que ainda serei quando no teu amor crescer.

domingo, 19 de junho de 2016

Mão estendida...

É comum dizermos palavras pequenas quando o outro precisa coisas maiores de nós. É comum colocarmos a aflição do outro na fila de espera enquanto ainda carregamos a nossa. É comum passarmos por cima das dores do outro com as nossas próprias enquanto não paramos de perder a oportunidade em sermos amorosos. Às vezes nosso egoísmo entende o que o outro é como ameaça; às vezes nossas raivas enxergam o que o outro não é como inimigo, e tudo por conta da semelhança dos sintomas que apresentam e que convocam aquilo que também nos falta para estar presente e lidarmos. Talvez por isso seja mais simples medirmos o outro a partir do que não nos fará sair perdendo. Talvez por isso seja mais simples olharmos o outro a partir de nós mesmos, onde o outro sempre será o outro. Por isso seja essencial não buscarmos sempre entender ou não analisar a dor do outro, mas sermos para ele aquilo que precisamos ser para ele; sendo para ele aquilo que precisamos ser para nós mesmos: sujeitos de compreensão e compaixão. Ou do contrário gritarão as nossas feridas quando é a ferida do próximo quem tanto precisa dialogar. Ou do contrário aproveitaremos o momento do outro para expormos o nosso. Parece-me que pela guarda baixa do outro aproveitamos para nos sentirmos um pouco melhores - ou menos piores - do que estamos, e por indigna comparação. Às vezes falta perceber que podemos nos deixar para depois para darmos a vez e ainda assim estarmos juntos. A nossa mesquinhez veste-se com boas roupas apresentando-se com outros nomes para não nos sentirmos, assim, mesquinhos. E quando a deixamos de escolher, quando o outro mais precisa de nós, que nós mais precisamos do outro também: para lembrarmos que só somos amor quando o amor em exercício. E que sendo amor tornamo-nos uma via de mão dupla.

Às vezes quando mais precisamos de uma mão estendida é a nossa própria mão que devemos estender.

sábado, 18 de junho de 2016

Qualquer jardim...

Se a rosa não aceitasse seus próprios espinhos não poderia ela revelar sua beleza e, sentindo-se culpada pelo que é, desejaria ser outra que não a si mesma.

Assim, a rosa viveria ocultando parte do que é e sofrendo por isto, incomodando-se por ver nas outras rosas aquilo que também carrega.

Adoeceria a rosa por recusar-se, sentindo-se menos exatamente por negar seus inteiros, acreditando não merecer qualquer jardim ou primavera.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Reflexo...

As misérias são as mesmas porque nossos erros são os mesmos. Os amores são os mesmos porque nossas escolhas são as mesmas. Os medos são os mesmos. Os tamanhos são os mesmos. A diferença encontra-se no nome, profissão, endereço e outros detalhes que servem a dar-nos sabor às experiências como se elas fossem únicas e exclusivas, e nós, ímpares. Não somos. Somos feitos da mesma matéria de que são feitas as sombras e os sonhos. Bebemos todos do mesmo riacho de vida. Sofremos das mesmas dores, dos mesmos enganos, das mesmas mentiras, das mesmas verdades, embora em épocas e cenários distintos. Sentimos alturas já alcançadas em outras histórias.  

Por isto a literatura é confissão. 
O escritor, espelho. 
A poesia, reflexo.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Postura de amor...

Para compreendermos determinadas razões nesta vida, e sabermos respostas para os interiores temas da alma, faz-se preciso estarmos disponíveis às singelezas e aos detalhes que nos compõem. É preciso abandono das trivialidades que orbitam a personalidade e que nos distraem. É preciso adormecer medos com sucessivas felicidades, acalmar aflições com abençoada fé, dispensar vícios convidando as superiores e esquecidas imensidões de nós. É preciso dose de coragem e desapego do que não nos serve e não mais nos cabe, abrindo espaço no peito para habitarmos a versão mais bonita de nós. Faz-se preciso atenta sensibilidade que costumamos dispensar ao longo dos cansaços e erros para encontrarmos conosco mesmo. 

Em suma, faz-se preciso estar na postura de amor.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Chuva...

Quando chuva dissolveu a poesia
(minto, foi a tristeza)
afoguei-me nas palavras
com intenção.

e mesmo assim, imerso
perdi os rumos
da minha história. 

isto porque
para para não ser arrastado 
morri agarrado ao meu medo 
de não ser 
feliz.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Ensolarado...

Vivo, embora ateste minha incompetência em bem viver. Apesar dos apetites e desejos, não aprendi a devorar o mundo sem junto me destruir. Atesto a incapacidade de lidar comigo e com tudo que me orbita: medos, paixões, mágoas, prazeres, ansiedades, tristezas. Não há ponderações para o peito. Os intensos arrastam-me todos para longe de mimAdestro-me por sobrevivência; protegendo-me num personagem que crio a andar sobre o raso sem qualquer excesso que me derrube. Calo o que condeno e perco o que amo. Os meus sentimentos são para uso doméstico, apenas. Assim, desvio da dor repetindo meus dias uniformemente num roteiro a dar-me sempre uma consistência cega e inútil. Mantenho-me vivo com a ajuda de rotinas e ilusões a cercar uma lucidez que me agarro para não me afogar, para não ser despedaçado por aquilo que não aprendi a lidar. Sou meu próprio desencontro e igualmente um choque, entre erros, o passado, os destinos, o amor, o outro. Sou um estrangeiro de mim sem coragem de falar a língua dos meus interiores movimentos; levado de uma cena a outra buscando parecer o que fui. O que fui será sempre melhor do que sou. E talvez a lembrança do que tive me impeça exatamente de que eu venha a ter. Vivo, embora declare imperícia, estupidez, inabilidade, barbeiragem em viver-me. Declaração que nada alivia, visto que não há direção contrária onde temporariamente me salve. A minha salvação é um exercício diário a que exausto me dedico debaixo das superfícies do meu dia ensolarado.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Azuis...

Como se pela sua boca pudesse eu saber de alguma verdade desavisada de mim. Como se pelos seus olhos pudesse eu saber entre os azuis a minha imagem. Ela é a inexatidão a que me permite enxergar. Eu sou o inexato que a ela permito entender. E são nos desencontros de cada um onde melhor nos encontramos. Aquilo que se dá na cumplicidade de um amor. Aquilo que se tem no melhor das amizades. Aquilo que se vê no reflexo das águas. As minhas armadilhas ela desarma. As suas armadilhas de desamor, eu a ela explico. Ela se despe para vesti-la com flores. Ela costura suas próprias feridas na minha carne. Eu abraço seus medos levando-os para longe. Os seus erros falam dos meus. Ela chora as minhas tristezas. Eu celebro as suas vitórias. Ela se tornou refúgio da tempestade que me descobri. E me tornei silêncio para calar seus vendavais. A minha força é a sua força porque a verdade nos faz eco, porque as ilusões nos são parentes. Ela quem confessa e sou eu que suspiro aquilo que de mim escondo. Ela se oculta e eu verso suas entrelinhas no poema. E toda vez que nos procuramos, revela-se ao outro um inédito, uma outra cor, um novo tom para os já repetidos cansaços. Eu abençoo o seu tamanho. Ela abençoa o meu. Porque vemos aquilo que nenhum de nós enxerga: as nossas próprias alturas. Como canção, somos um dueto. Onde apenas um sabe a letra que ao outro compete.

A liberdade é o carinho que a ela eu daria caso pudesse.
Dou-lhe a poesia.

domingo, 12 de junho de 2016

Cartomantes...

Vivia ela de improvisos: encontros, caminhos, diálogos. A única exatidão de que tinha posse eram dos seus erros: encontros, caminhos, diálogos. Para ela, a soma dos erros não lhe facilitavam acertos, mas a inevitável direção dos seus destinos. Acreditava que os videntes se aproveitavam da vida medíocre de seus consulentes. Acreditava que liam nossos erros para a partir deles anteciparem outros mais e uma ou duas sortes entre os intervalos. Os acertos não apareciam contundentes nas leituras pois não lhes eram suficientes para consistentes constatações. Quão melhor a leitura dos equívocos, melhor a leitura dos possíveis. Assim se valiam as cartomantes - dos desajustes descritos na combinação das suas cartas. Apenas o amor poderia recombinar as pré-visões e salvar-nos das tristezas a que nos destinamos. O amor concede-nos a liberdade pelo despejo dos fantasmas e das repetições. O amor revela-nos a inédita porção do espírito onde não alcança nenhum cálculo sobre os amanhãs. 

O amor nos reinventa. 
E é ele quem dá as cartas.

sábado, 11 de junho de 2016

Estilhaços...

Com metade do peito a funcionar, esquecia
diariamente um pouco mais para que servia o coração.

é para as alturas - diziam os estilhaços.

e assim dirão, sempre, a lembrar-nos do que não se deve nunca esquecer.

porque crê o amor na gente muito mais do que a
gente crê na gente mesmo.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Topada...

Vivemos a partir do medo de sermos expostos a nós mesmos; e por consequência ao outro, pois, deixar-se vulnerável é permitir que se manifestem as inevitáveis partes nossas que ao longo do tempo ocultamos pelo sofrimento que nos trouxeram. O medo é uma reação ao sofrimento passado que nos trás ao presente o próprio medo como defesa. Sofremos por ele para evitar sofrermos.

É como chutarmos uma pedra para que a dor nos impeça de sairmos do lugar e não corrermos o risco de cairmos ou chutarmos uma pedra no meio do caminho.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Testemunha...

Aos teus olhos gastos pela tristeza, refaço-os na poesia que cultivo somente a ti. Às tuas mãos castigadas pelo tempo, empresto-lhe as minhas, a levar-te a qualquer descanso. Aos teus lábios com gosto amargo, ponho-te flores à boca, lembrando-te de que o teu nome é um dia bonito. Assim, falo sobre esperanças; deito-te no colo da noite; amanheço-te com os teus sonhos. Anuncio as primaveras. Costuro o teu próprio amor para que o vistas e, traço o meu viver para tocar na tua vida. Anuncio-te aos amanhãs, este espetáculo de cores novas em que será o mundo quando tu novamente tornar-te o poema, e estiveres outra vez a florescer. 

Serei eu, então, amante e testemunha dos teus milagres.

(Guilherme Antunes & Patrícia Pinheiro)

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Primeiros socorros...

Quando mais precisamos do amor próprio para seguirmos adiante, mais o colocamos em xeque pela sua ausência. Quando mais precisamos nos aceitar para nos alcançarmos, menos nos aceitamos, ficando nós para trás de nós mesmos.

Queremos nos aceitar sem nos aceitarmos; acreditando num amanhã qualquer que por algum motivo seremos outros, com menos culpas, dúvidas, raivas e ansiedades, e aí, então, poderemos nos aceitar e nos encontrar com a serenidade e o equilíbrio.
 
O que insistimos em não perceber é que será a partir do amor próprio - sendo ele possível  existir sempre no presente - que então seremos outros sem precisarmos ser; podendo nós a partir dele dispensarmos culpas, dúvidas, raivas e ansiedades.

Aceitando-nos agora e poderemos nos aceitar amanhã. O caminho inverso não é possível, embora tanto acreditemos nele pela facilidade com que se apresenta.

Amor próprio é condição, a primeira delas. Amor próprio é o espaço onde nos aceitamos verdadeiramente sem julgamentos e cobranças, e apenas a partir do que aceitamos podemos enxergar verdadeiramente, transformando-nos se assim quisermos ou despedindo o que quer que seja se assim necessário.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Qualquer coisa...

Dançamos com a ansiedade porque não saberíamos o que fazer parados. Apressamos o tempo para sairmos do lugar onde estamos. Incomoda-nos demais não fazer, não esperar, não beber, não comer, não assistir, não dormir, não ler, não escrever, não sair, não aparecer, não "qualquer coisa". Ocupamo-nos de todos os jeitos para nos distrairmos de nós mesmos. Se conseguíssemos por um breve instante parar, o que ouviríamos se nos déssemos ouvidos? O que enxergaríamos se nos permitíssemos ver?

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Para respirá-lo...

Se tão estranho é que depois de tanta mágoa podemos ainda pensar no amor, se tão estranho é que depois de tanta tristeza podemos ainda lembrar do amor, se tão estranho é que apesar de tanto sofrer podemos ainda querer o amor, se tão estranho é que apesar de tanto morrer podemos ainda renascer no amor, se tão estranho é que apesar de tanto medo podemos ainda desejar o amar, se tão estranho é que depois de tanto fugir podemos ainda encontrar o amor, se tão estranho é que depois de nos destruírmos podemos ainda perdoar por amor, que mesmo depois de muito podemos ainda sentir o amor, que mesmo depois de muito pouco podemos ainda reinventar o amor, se tão estranho é que depois de tanto, de tudo, apesar dos pesares, dos pedaços, dos cacos, das reticências, das desistências e dos cansaços, podemos ainda sonhá-lo e respirá-lo mesmo quando não há o que respirar, é porque de amor somos todos feitos.

domingo, 5 de junho de 2016

Imagem...

Somos fascinados pela imagem que mostramos ao espelho e não pelo que o espelho nos mostra. Por não sabermos lidar com tudo o que somos, declaramos o que somos para convenientemente nos convencermos da própria história que contamos, e a partir dela podermos aparentar o que gostaríamos de ser como se já fôssemos. Não à toa vivemos recheados de certezas como se estas fossem verdades reconhecidas pelo peito. Calamos os vazios e dizemos que estamos preenchidos. Calamos a raiva e declaramos que estamos em paz. Calamos a ansiedade e afirmamos que sabemos aproveitar a vida. Assim bebo até o exagero, tiro incontáveis fotos dos momentos em que digo que onde estou, com quem estou e o que faço é a vitrine de minha vida feliz. Saímos até a exaustão por não sabermos ficar conosco. Não paramos porque não sabemos parar. Não sabemos olhar para os medos, para a solidão, para as carências. Assim, direi que só serei feliz ao ser amado. Assim, farei qualquer coisa que me distraia de mim, do que também sou mas não tolero, do que também trago mas não suporto. Não, eu não sou invejoso. Os outros que me invejam. Não, eu não sou maledicente. Os outros é que falam mal de mim. Não, eu não sou impaciente. O outro é quem tanto me incomoda. Somos fascinados pela imagem que mostramos ao espelho e não pelo que o espelho nos mostra.

Às vezes, somente olhando verdadeiramente para a ilusão poderemos enxergar a verdade.

sábado, 4 de junho de 2016

Vela...

Ela continua a pensar em mim. E não há fracasso que a impeça disto. Ela continua a aguardar que seja o tempo a se arrepender e volte. Que o tempo volte e restaure o que por nós foi desfeito. De alguma maneira ela sofre com detalhes para passar a limpo nosso passado. De alguma maneira ela insiste nos detalhes para passar a limpo nossos pecados. Ela intenciona o absurdo. E não há fracasso a impedi-la disto. Ela busca ser reincidente no amor perdido. Isto porque crê não haver mais o que fazer depois que se perde o amor. Sonha, escreve, lê e chora como se pudesse resolver o passado. Como se fosse possível corrigir a rota do que com o final já colidiu. Alivia-se repetidamente no que guarda. Angustia-se repetidamente no que deveria esquecer. Como a ferida que deixou de doer mas limita os movimentos, o que fomos limita sua vida para dentro de si ainda sermos e estarmos. Consagra-nos, assim, não no romance, mas na tristeza que trouxe como sequela. A perversidade de voltar ao que não se pode e o prazer de voltar ao que não se deve. Como se em alguma das visitas à memória pudesse encontrar algo a resolver-nos. Algo desavisado a dissolver o sofrimento, o apego e devolvê-la a algum futuro. Algo para sentir que a alivie de sentir. O que soube ser amor amplificou seus medos, deu-lhe ansiedades, revelou mágoas, denunciou raivas. O que soube ser amor a diminuiu para não caber mais nada. O que soube ser amor oferece diariamente o veneno que recusa matá-la de vez. Ela continua a pensar em mim para não mais em mim pensar, e ainda insiste por não conseguir nos perdoar. Reviverá o passado para não arruinar-se no inevitável. Reviverá o passado para tentar arrumá-lo. Não sabe que o perdão é a única maneira de resolvê-lo. E não há fracasso que a impeça disto. Ela apenas desconhece. Pois não é o amor a questão. Ela me amou como vela que a ambos queimou e em seguida apagou-se. 

Amei-a da mesma forma.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

A única linguagem...

Às vezes a dor é a única linguagem que nos resta. A única que não podemos desaprender. Talvez porque todos dela saibam notícias. Um jeito exato de comunicar ignoradas verdades e exigir desilusórias providências. A dor é um modo de restaurar a realidade e impor consciência e lucidez a nós próprios, ainda que perdendo-as provisoriamente.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Teoria Geral do Desassossego...

Eu leio você. Você se desnuda no preciso instante em que me visto com as palavras. Você se entrega toda e inteira quando sou eu próprio a confessar. Eu leio você no momento exato em que você me lê. Isto porque nossos erros são previsíveis, não nossos acertos. Isto porque nossos labirintos são previsíveis, jamais os sonhos. Isto porque nossas mentiras são previsíveis, não a nossa liberdade. O plano é que façamos destes nossos escuros, degraus, e alcancemos nosso real tamanho. O que proponho é que desviemos da tristeza encarando-as com a coragem de quem sabe despedir-se sem dispensar-se, partir sem partir-se, e na hora certa. O livro é um centramento, um pedido de perdão para si que não encomendaste, um alívio que não previsto, um tempo extra para as tuas novas páginas. O livro é convite para que deixes de ser engolido para saborear: a vida, o outro, o amor, o que mais quiseres.

Definitivamente, um guia prático e impreciso de renascimentos.

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quarta-feira, 1 de junho de 2016

O paradoxo...

O coração não pondera as tempestades. Cúmplices, acreditamos que devemos naufragar; que devemos sempre naufragar por acreditarmos que não valemos coisa para sermos salvos. Afinal, tão cheios de nada, por que mereceríamos? Por conta do passado castigamo-nos para não haver futuros. Culpamo-nos para nos desculparmos; jeito tonto que encontramos para aliviar-nos enquanto sofremos; a culpa como punição e justificativa pelo que não fomos e pelo que não conseguimos ser. O paradoxo que não enxergamos é aquele que vivemos: queremos nos aceitar como somos sem aceitarmos como somos; queremos ser aquele que viremos a aceitar a partir do que ainda não aceitamos; queremos deixar de ser isto sem olharmos para isto. Insistimos na miopia e na culpa sem perceber que na culpa insistimos porque míopes. Dizemos olhar para o que somos, mas sem jamais o amor necessário. Apontamos para nossas limitações com ansiedade, para nossas frustrações com mágoas, para nosso passado com ressentimentos, para nossas fraquezas com intolerância. Olhamos sem enxergar porque sem compaixão. Somos implacáveis críticos de nós mesmos sem espaço para o perdoar. Assim, negamo-nos, pois, ao encontrarmos nossos inevitáveis escuros, logo somos maus sem direito a recomeços. E o que sobra-nos de bom não se faz suficiente visto que não sabemos do perdão. E sem sabermos o que ele é, remendamo-nos com mentiras e dores seguindo adiante presos em algum lugar. Por isso nos partimos, fracionados entre as partes que merecem a vitrine daquelas que ocultamos no porão sem qualquer voz. Não há verdade que se encontre pela metade, e é exatamente assim que vivemos: sendo menos do que somos, sendo impossível qualquer paz. A compaixão devolve-nos a nós mesmos, aceitando nossas variáveis, fraquezas e fragilidades sem distanciá-las a nos convencermos de que somos o que não somos. Só podemos despedir aquilo que aceitamos, e a compaixão é o descanso do mau hábito de rejeitarmos as partes do que inteiro é. A reeducação pela compaixão é trabalho árduo de colocarmos o dedo na ferida que fingimos por tanto tempo nunca haver.

A compaixão concede-nos a lucidez e a limpidez dos olhos para saber do peito.
A compaixão permite que nos amemos como gostaríamos de sermos amados.