terça-feira, 31 de maio de 2016

Inclusive...

A certeza pode ser uma armadilha revelando-se no próprio reflexo: seja por uma verdade nela contida ou por uma ilusão que ela carrega como se verdade fosse. Às vezes enxergamos mentira como verdade numa certeza que escolhemos nos convencer. O risco é adoecermos pelo excesso daquelas que no tempo nos tornam inflexíveis e fechados dentro de nós mesmos, recusando-nos em trocá-las por outras onde possamos melhor caber junto às experiências que trazemos. Assim adoecemos. Assim nos sufocamos, por decretarmos que o que vemos deve continuar a ser ainda que não mais seja, desmentidos pela impermanência da vida que ignoramos. As certezas diminuem o mundo para que caibam todas, aliviando-nos a ansiedade e o medo que cultivamos pela necessidade de qualquer coerência e algum controle que acreditamos possuir. A vida nos arde não por conta própria, mas por insistirmos em ralar os joelhos e o coração nas mesmas velhas escolhas que não nos servem mais.

Quem decidimos ser depende inclusive das certezas que abandonamos.

Adoçante...

Tem muita gente que se acostumou com adoçante ao invés de doçura; e que se contentou com metade por não saber buscar seus inteiros. E que se prendeu às mesmas certezas por ser a única verdade que até agora encontrou.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Se despediu...

Ela quer se perdoar pelo tempo que perdeu.
Ela quer se perdoar pelo amor que insistiu.
Ela quer saber porque morrer se permitiu.
e o que ainda falta que não amanheceu.

Ela quer uma janela para a luz sempre enxergar.
Ela quer que o passado não lhe venha incomodar.
Ela quer que o presente traga um amor a lhe curar.
e que amanheça dos escuros de que tanto já sofreu.

Ela busca ser outra mas sem querer se perdoar.
Ela diz que tanto quer mas querer não é se libertar.
Ela carrega o seu passado sempre a qualquer lugar.
e acredita todo dia que o azar inteiro é seu.

Ela não sabe, mas
ela ainda não
cresceu.

Ela só sabe se vestir
como alguém com idade
para beber e mentir
insistindo em doer e sentir
por tudo aquilo que ainda
não se despediu.

domingo, 29 de maio de 2016

Inaugurar...

Ela queria desobedecer medos e frear ansiedades. Ela queria estrear-se num amor e nele, curar-se dos seus passados e metades. Ela queria uma vida que ainda não havia sentido.

Era a mesma vida que havia há muito encontrado. Apenas aguardava a hora certa para ser aquilo que apenas na hora certa poderia sentir.

Só não sabia que a hora certa toda hora por ela atravessava. Continuava a esperar o que não devia ser esperado.

Aguardava para sempre inaugurar o melhor de si.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Bonito...

O medo talvez nos seja, de alguma maneira, a primeira percepção sobre o amar, e a palavra à boca, a primeira expressão sobre o amor. O poema é um amor muito bonito; porque às palavras cabem entre outras coisas, as honestidades. O silêncio talvez nos seja o primeiro modo de sabermos, por serem os outros incapazes de discordar. Ao contrário, amor e medo são discordantes para cada uma das gentes, e equivalentes nisto: dão-nos nenhuma autoridade sobre o sentir. A única submissão de que não sofremos, talvez, seja a das palavras. Por isso falamos sobre amor como se soubéssemos. Como se donos um pouco de nós. Tudo quanto nos põe a viver tira-nos as certezas, essa segurança de que temos algum controle senão no que dizemos. Mas, nem no que dizemos temos controle, ou nem do que ouvimos. Apenas do silêncio, que confere-nos sabedorias pela inexatidão. Silêncio este que desaprendemos quando pouco depois de sermos sementes. O fruto é o poema. Um amor muito bonito. 

Um jeito de amor, e de aprendê-lo.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Teoria Geral do Desassossego...

O que jogo no palco para que se apresente é a sua inconsciência, em contraste com a sua própria claridade. O que ponho em xeque é a sua lucidez, sua astúcia em sempre justificar, em sempre fugir, em criar desculpas, em adiar as coisas. O que levanto dúvida são das suas certezas. Provocarei tanto as suas memórias quanto as suas mentiras, para que percam a pose, para que desçam do salto e, irritadas, entreguem as verdades todas que mantém caladas ou fingidas. O que provocarei são os seus intensos que você muito bem segura sob o verniz da educação, para que gritem suas impaciências, as suas feridas, para que apontem onde você tanto sangra enquanto finge que vive sem nada disto. O que invocarei serão suas confissões sem você precisar nada dizer. O que invocarei serão nossas vaidades, que escondem o que somos ao manter-nos reféns do que gostaríamos de ser. Somos autênticos personagens que se procuram entre atos e cenas que não prevemos. Que as páginas adiante cobrem a transparência que nos falta para enxergarmos aquilo que exatamente não sabemos o quê, mas que ainda nos falta e que sentimos diariamente esta ausência. Que com este livro possamos rondar e farejar este espaço onde nos encontramos inteiros e mais reais do que nunca, mas não sabemos onde.

E apontarmos para lá nossos destinos.

A quem interessar adquirir, mande-me um e-mail:
guglicardoso@gmail.com
ou através do Facebook: fb.com/ailhadeumhomemso

terça-feira, 24 de maio de 2016

Quem sabe...

Sou feito de contrastes 
e contratos
rimas ricas e pobres
versos poucos mas nobres

Sou feito de muros e espaços.
Sou feito de medos e memórias
mentiras e aumentadas vitórias
ilusões e sinceras histórias
que a ninguém convence.

Sou feito de outro
Sou feito de ouro
Sou feito de barro
Sou feliz só no meu bairro
(mas sou feliz também além dele)

Sou transbordante
e o ausente
o conteúdo
e o continente
o presente
e o faltante
o amado 
e o amante
o livro 
e a estante
o inteiro 
e o instante

Sou o moinho 
e a pedra
a queda 
e o ninho
o céu 
e a tela
que na aquarela
sou passarinho

Sou a viúva 
e a casada
a solteirona 
e a namorada
a traída 
e a honrada
sou a tarde 
e a madrugada
daquela que se sabe amada.

Sou assim afeito à poesia
quem sabe falando de asa
possa eu voar um dia?

Sou assim feito de letra
quem sabe juntando todas
tenha-se alguma que aproveita?

domingo, 22 de maio de 2016

O outro...

Talvez seja preciso irmos um pouco além do que acreditamos. Talvez seja preciso lidarmos com o que convenientemente vivemos a negar. Talvez seja preciso lembrarmos de que o outro é o nosso espelho e que aquilo do que nele vemos é exatamente o que não enxergamos em nós. Talvez seja essencial lembrarmos que o outro é também a nossa própria projeção. O que recusamos em nós, acusamos no próximo. O outro poderá despertar em nós a raiva, a impaciência, a insegurança, o ciúmes, a inveja, por conta do que mal resolvido trouxemos e que atualizamos nas nossas relações presentes. A auto estima será posta em xeque diariamente através de quem nos atravessa, e o outro é o convite e a provocação para a nossa própria e incômoda confissão ao refletir a nossa imagem. Através da relação com o outro me reconheço no que sou ou no que não carrego. Apenas com o tempo contínuo a projeção será diluída, sobrando-nos a verdade do outro a comunicar a nossa própria verdade, antes oculta pelas qualidades e ideias que somente elas insistíamos ver. Não há saída, pois, seremos ou desmascarados pela ilusão ou entregues pela realidade. Não há nada fora que nos incomode que não seja algo dentro a nos incomodar. Não há o que critiquemos que não seja algo que possamos criticar em nós. Não há nada do outro que não seja nosso, e vice-versa. Seremos sempre as convenientes vítimas de nós mesmos ao nos enganarmos em apontarmos para alguém culpas como desculpas para não assumirmos a responsabilidade pelo que tão difícil nos parece assumir.

Talvez seja essencial lembrarmos que o outro somos nós, e que nós somos o outro. E que não há diferença. Se assim nos parece, trata-se desta ilusão que insistimos manter. 
E sofrer por ela.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

E o óbvio...

Quantas coisas não dizemos que assim são apenas para nos convencermos de que são assim?

Vendemos certezas apenas para nós mesmos comprarmos. Falamos para nos escutarmos e nos sentirmos melhores com isso.

Somos capazes de acreditar em mentiras sabendo de alguma maneira que mentiras são, apenas porque nos dão qualquer ilusória garantia.

Queremos eliminar as dúvidas exatamente porque elas nos são inevitáveis.

A questão é que ao sufocarmos as dúvidas, ignoramos também as verdades.

E o óbvio costuma se calar quando se trata de nós.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Equívoco...

O mundo pensa felicidades; todas elas acusam o prazer e sofre o mundo por esta razão. As palavras usamos como resgate do que não se é tranquilo trazer às superfícies. As palavras falamos para atenuarmos intensos por as usarmos com toda a intensidade. Atiramos pedra para não nos atirarmos dela - isto fazemos. Prolongamos a palavra fertilizados por esta descoberta: ela faz por nós o que não fazemos por nós mesmos. Um pouco em cada oportunidade e vamos disto nos convencendo; convencendo-nos das palavras gloriosas. Cada som a viver por si, como alma perfeita a tocar a nossa própria como uma harpa feita de silêncios. A palavra a tocá-la e traduzi-la, escutando-a acerca das decisões para os próximos gestos; denunciando-nos mais resistente do que julgávamos, e mais frágil do que pensamos. A própria vida a admirar-se no espelho. A mentira a acreditar-se no espelho. A verdade a descobrir-se na palavra. Devoramos a música crua, o tempo sem ensaios, a dor sem preparos, o amor ainda falidos. O que não se revelar palavra, se tornará sintoma. Entendemos assim enquanto acreditamos carregar sentimentos incorretos. Morremos pelos venenos do equívoco.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Sementinha...

Quem és tu, pequena sementinha para saber os contornos dos teus amanhãs? Como ousas definir o destino somente numa péssima previsão? Não sabes que da janela cinza apenas cinza enxergas? Que audácia é esta em dispensar a providência dos teus caminhos, prometendo a si, tristezas numa próxima estação? Quem és tu para prever os passos da vida se vives a tropeçar? Sabem as sombras profundas raízes mas cuida a luz, das sombras, e não o contrário. 

Contente-se e ocupe-se do agora. 
É a única coisa que verdadeiramente tens, 
e a única que verdadeiramente herdarás.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Coma profundo...

Queridos camafeus de nozes,

Uma narrativa constrói-se através da compreensão dos acontecimentos. Se esta compreensão é apreendida através dos conceitos de algo que busca através da relação destes mesmos conceitos explicar a realidade, o risco é encaixarmos o que as coisas são nas conclusões a que chegaremos, e assim, a realidade ficará de fora. 

Pode-se não perceber o quanto se é afetado por comprar discursos onde há coerência, mas não verdade. Onde há certezas, mas não verdade. Não à toa a lógica é uma ciência e a argumentação uma arte. Todas elas bem longe das opiniões de facebook. 

A realidade não será enxergada, ou melhor, será sim, pelo filtro permitido entre o sujeito e a própria realidade. Um filtro feito de ideias anteriores a moldar os olhos de quem vê.

A ideologia é isto, e pressupõe que as ideias e certezas que promove são anteriores à realidade que a explica, encaixando esta no inevitável limitado tamanho daquela.

A partir de então e de maneira sutil, a realidade passará pela legitimidade do que o sujeito entender como legítimo, dizendo o que a realidade é pelo que ela deve ser. Outras narrativas serão tidas como falsas, canalhas, burras, etc.

São poucos os que se permitem ir para o outro lado e entender como o outro é e vê. Na impossibilidade, nega-se. Na impossibilidade, acusa-se, odeia-se, destrói-se. Afinal, a verdade é minha e o erro, do outro. A leitura é minha e a miopia, do outro. A bondade é minha e a maldade, do outro. 

A simplificação das coisas elimina o raciocínio e por consequência a verdadeira reflexão. Compraremos certezas com rótulos de verdades que ditarão silenciosamente o que as coisas são por como devemos entender o que as coisas são. Sem qualquer possibilidade de fuga.

O sujeito acredita que pensa sozinho mas sozinho ele não pensa. Ele pensa que vê mas enxerga a sua própria projeção. E ele acredita que sabe, mas na maioria das vezes ele acredita. Acredita que sabe. Acredita que vê.

Suas conclusões são influenciadas pelas preferências, equívocos, pontos cegos, emoções, etc. Emprestam-lhe deduções e pré-conceitos, cenários e cores. Quão difícil é enxergarmos as falhas do nosso próprio pensamento?

Nós tateamos a realidade através da linguagem; e se esta for limitada você entenderá a partir dos cacoetes verbais e mentais que explicam uma coisa ignorando outra, distorcendo tudo adiante.

Uma coisa poderá ser outra coisa de acordo com a intenção e a articulação das palavras. Assim foram com os sofistas. Assim apareceu Sócrates para por ordem no barraco.

E assim voltamos para a cena política, onde uma palavra torna-se outra e esta outra torna-se conveniente para alguma narrativa. Assim nos encontramos, onde nos sabemos certo e o outro absolutamente errado.

Aqui, poucos pensam. Aqui, muitos pensam que pensam. 
Assim se aproveitam tanto destes quanto daqueles.

Assim, os idiotas úteis que jamais saberão idiotas úteis, servirão a propagar através da legimitidade concedida pelas suas cartilhas, a compreensão da realidade e o interesse de muitos.

Ontem, comemos o pão que o diabo amassou.
Hoje, o diabo que nos carregue.

A nossa inteligência está em coma profundo.

Lei da gravidade...

Eu, tão dependente de mim, quero tornar-me independente do que ando sendo, para saber-me frágil diante do que sou, exposto às verdades que nego para fingir-me ser enquanto me finjo forte. Eu, tão exageradamente atento ao que sou e repito ser, quero permitir-me, pôr-me disponível e aberto à vida para que ela entre a dizer-me aquilo que preciso ouvir, mas que nunca escutei pelos barulhos que sempre fiz. Eu, tão dependente de mim, que não me permito ir a lugar nenhum para além daquilo que conheço, quero recusar os convites dos medos e convocações diárias dos passados para que eu fique, e então partir do que tenho há tanto tempo sido junto às tristezas que acumulei. Sair do lugar que estou para habitar o lugar que sou; e dar-me sentido. Reinventar-me sem saber exatamente como, dar-me sentido sem encaixar-me exatamente onde; dar-me sentido não por estar pronto mas por procurá-lo. Não quero o sentido persistente e único a ilusoriamente entregar-me uma paz de mão beijada. Quero o sentido plural de mim a cada época em que sou: o sentido quando amo; o sentido quando perco; o sentido quando cuido; sem o desejo de algo pronto. A felicidade não me pede oferendas para me atender, aliás, ela não deixa de se oferecer para mim. Nós é que a perdemos pela sua sutileza; pelo seu sutil reflexo com os inteiros e com os agoras; enquanto a transferimos para alguma próxima estação, quando seremos alguma coisa que ainda não somos. Quanto gastamos para nos evitarmos? Quanto investimento para reinventarmos a verdade e o erro que não permitimos sem jamais o percebermos como a arte de revelarmos, não o certo, não a verdade, mas a nós próprios como verdadeiros, sem manipularmos a vida pelo que somos ou deixamos de ser.

Queremos ignorar a lei da gravidade por medo de não querer continuar caindo.

domingo, 15 de maio de 2016

Responsabilidade...

Um livro é uma responsabilidade; nem tanto para o escritor e sim para o leitor. Ao escritor cumpre nascer e morrer, sucessivas vezes na obra realizada, sem poder disto se desviar, cada vez que esta é lida, relida, rememorada, comentada, abandonada, posta em xeque. Ao leitor cumpre o não morrer, mas renascer repetidas vezes, quantas vezes possa aproveitar-se da leitura, negando-a ou a afirmando. Ao leitor cabe devoção aos seus próprios olhos, carecendo para isso de algum esforço. A sabedoria encontra-se não exatamente nas páginas, mas na maneira que com as palavras semeadas trarão para ele a revelação dos seus invernos e primaveras. Do leitor espera-se a crítica, a reflexão, uma reação que o leve a ser outro depois do livro atravessado. Do leitor espera-se que abra a porta e leve tapas na cara. Do leitor espera-se que abra a janela e ganhe beijos na boca. Do leitor aguarda-se realizar algum desejo de alguma forma na literatura: sentir-se mais vivo ou menos morto, sentir-se outro ou a si próprio como um ineditismo, para que ouça as verdades para as quais ainda não se havia até então atentado.

O menos amargo...

O menos amargo. O tédio para os domingos. O chá para dores no corpo. As lágrimas para a persistente tristeza. As impaciências. Os amores nunca mais celebrados. O medo. As distrações. As metades. As defesas. Os ciúmes. A compulsão. O descontrole. Os dramas. Aquilo que contamos. O que acreditamos. O menos amargo. A redução dos danos. O controle de qualidade. Os medos. Os sintomas. As ansiedades. A insônia. As terapias. Café com adoçante. O sódio. O açúcar. O amor próprio. A falta dele. A inveja. A luxúria. O espelho. A superfície. Os elogios. As alternâncias. O tempo. O rascunho. A mediocridade. O arrependimento. A culpa. A desculpa. O interesse. A dúvida. As dívidas. As férias. Os sonhos. A agenda. A semana. O expediente. A discussão. As mentiras. O menos amargo. A recaída. Os recomeços. As mágoas. O que não vai embora. O que não despedimos. Os vazios. A não entrega. O não perdoar. O menos amargo. Qualquer coisa. Qualquer festa. Qualquer um. Qualquer dois. As lágrimas. A cama. O cansaço. O poema. O alívio. As vidas perdidas. A inconsciência. Os amores perdidos. O menos amargo. O tédio para os domingos. A cerveja. O churrasco. A torcida. O amanhã. O mais do mesmo. O non sense. 

O sentido.
Assim, qual?

sábado, 14 de maio de 2016

Olhos fechados...

Caminho de olhos fechados entre as minhas ansiedades; atravessando-me para sair de um lugar que não me enxergo para um lugar onde não me encontro. Os medos servem-me para isto: apressar os passos e distrair-me dos próprios medos que me apressam. Uma ficção que crio a crer-me ocupado e distraído para uma vida inteira que me espera. Sentir ansiedades é uma injustiça para os agoras que diariamente pratico sem mais saber razão. Como poderá felicidade pousar entre as aflições? Engana-se o ansioso que poderá chegar na outra margem, mas sem antes se afogar em si. O medo é este convite inútil para lugar nenhum em que aceitamos fugir; uma maneira de se dar sentido à vida sem perceber qual sentido se dá. 

Vivemos num carrossel que nós próprios construimos sem mais saber parar.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Sempre um reflexo...

Nossas misérias são as mesmas porque os erros são os mesmos. Os amores são os mesmos porque as escolhas são as mesmas. Os medos são os mesmos. As ansiedades são irmãs. Os labirintos são parentes. O que variam são os endereços, nomes, cidade e detalhes outros que servem para dar sabor às nossas experiências como únicas e exclusivas, e nós, ímpares viventes. Não somos. Somos todos feitos da mesma matéria onde nascem os sonhos e igualmente nossas sombras. Bebemos todos do mesmo riacho de vida. Sofremos as mesmas dores e alegrias, ainda que em épocas e cenários tão diferentes. Chegamos ao fundo e aos poços já frequentados. Sentimos alturas já alcançadas em outras histórias. Por isto a literatura é a nossa própria confissão. A palavra, um espelho. A leitura, convocação. A poesia, sempre um reflexo.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Era uma vez...

Era uma vez...

Satanás convidou Belzebu para ser seu par. O inferno, dividido, acabou por escolher Satanás para liderar e Belzebu para articular os demônios. Era essa a estratégia.

Satanás fez e aconteceu, e tantas maldades fez que ultrapassou o orçamento do inferno.

Lúcifer então iniciou o processo para saída de Satanás. Saindo Satanás, ocuparia Belzebu o seu lugar. Afinal, aqueles que escolheram um, acabaram também escolhendo o outro.

(Depois cassaram Lúcifer, mas isto é uma outra história...)

Hoje, destronamos Satanás para empossar Belzebu.

Belzebu a partir de então, comporá sua nova equipe, com capiroto, anhangá, cramulhão, etc.

Seja como for é um demônio a mais expulso; um demônio a menos para lidarmos. 
Um curto alívio para os sofredores.

Mas não há o que aplaudir. Depois de tudo, a partir de agora será preciso melhorar muito para ficar apenas bom.

A esperança saiu chamuscada e com cheiro de enxofre.

Comemos por tanto tempo o pão que o diabo amassou.

Agora, o diabo que nos carregue.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Rigor...

A vida, filho, é demasiadamente emotiva e temos por isto, medo. Assim nos prendemos aos números, como necessidade de algum sossego e de garantir a perfeição: quanto se deve ganhar para que não falte, quanto se deve sobrar para bem viver, qual a distância para chegarmos, qual a idade para sonharmos, quanto de cansaço para partirmos, quanto nos falta para amarmos? Assim nos garantimos, sem garantirmos coisa alguma, com esta ideia de querer maquinarmos o mundo como uma disciplina de rigor.

O rigor, meu filho, embora seja jeito de controle dos medos é um conceito muito estúpido para o espírito.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Nada é como queremos...

Tu és aquela que habita os escuros do meu pensamento destroçado. A quem tanto neguei para afirmar-me, agora que te ponho distante, busco afirmar-te. Afirmar-te como peça minha, página minha, parte do que fui, projeção das memórias tristes que colecionei e hoje volto a sentir, rever, reviver para despedir. Sinto-te para não te mais sentir. O que tu és hoje me é saudade - mas saudade do quê, meu Deus, se tudo nos era tragédia? Acredito que tu sejas a minha própria sombra a que dei o teu nome para que através dele eu possa atravessar o que muito me atravessou: os medos, as vinganças, as mortes e as humilhações que calei fundo demais para contigo continuar seguindo sem nos matarmos num adiante que tornava-se denso, insuportável e para nós anunciando o inevitável: o de que não seríamos mais. Do imperdoável nasceu-me a necessidade do perdão para continuar-me. E tu és aquela que habita minha casa para que dela tu então possas partir. Porque a vida sem ti já não me dói. O que era o que tanto queria quando contigo.

Nada é como queremos, não?

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Sentido de existir...

Entre as evidências e a própria ignorância, costuramos jeito que amamos e vivemos, como contínuos sustos de que nunca nos recuperamos. Estamos tão à mercê do mundo que o corpo nos é nossa casa inteira. Uma casa com requintes de sonhar; cheia de segredos. Lugar onde fabricamos continuamente o sentido de existir e continuamente esquecemos que ali existimos.

domingo, 8 de maio de 2016

Sobre a impermanência...

A impermanência é o que nos toca e nos alerta para dissolvermos ilusões e insistências com as quais decretamos como imutáveis nossas certezas. A impermanência põe-nos em real perspectiva sobre ideias que se alternam entre o nunca mais e o para sempre; abrindo o jogo acerca da vida para ensinar-nos a enxergar melhor as relações e aproveitarmos seus tempos - dando valor ao que é merecido - pois nada temos que não seja temporário e nada somos a não ser agora. A impermanência comunica insistentemente sobre o perdão, as ansiedades e a paciência, a morte e os inevitáveis renascimentos nas diversas dimensões que atravessamos.

A impermanência é uma boa notícia.

sábado, 7 de maio de 2016

Suficiente...

É comum estarmos ao contrário do que nos pediríamos caso nos encontrássemos conosco. Eu me diria que nada está a prender-me embora precise eu muito de fugir. Estava em fuga sem sair dos habituais lugares que frequento. Mas era como pedir-me que não gostasse demasiado de mim mesmo para não estragar o jeito que arrumei os passados e inventei-me desde lá. Ao fugir não há tempo de reparar nas tristezas e outros sentimentos sem educação que seguem-me mesmo de longe. Como se eu imantasse as coisas passadas para que viessem a ser comigo sentimentos sem educação ainda hoje. E eu sem maneiras no coração, sentia cada coisa de antes como coisas de agora de indisciplinada força. Somente um algo novo se aparecia entre isso. A frustração. Como tivesse sido inventada somente para grifar os momentos zangados e sentisse eu como se prometessem nunca ir embora. Queria que tudo se calasse. Se calasse ouviria a todos nós pedindo o mesmo: que tudo se calasse. Qual a vantagem de fugir ou se achar valente consigo se com todo o amanhã levássemos um velho fruto de mesmo gosto? Queria ser semente para estar árvore e nunca mais saber, tanto de passado quanto de futuro. Amanhecer me era todo um suficiente.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Adiante...

É comum que tentemos aparentar estarmos melhores do que estamos, talvez para acreditarmos que estamos melhores do que realmente estamos. Como é possível seguirmos quando se está carregado de inconclusões, tristezas acumuladas, raivas engasgadas, memórias mofadas, mágoas represadas e outras verdades sem nome que conosco empurramos? Não podemos ir adiante, apenas andarmos em círculos, o que muito bem fazemos ao dizermos que se está tudo bem apenas porque andamos.

A mais bonita...

Talvez a palavra mais bonita entre todas as palavras, escutando a tristeza dos nossos dias, recusou a revelar-se para isto. Talvez a palavra mais bonita entre todas as palavras tivesse vidências do futuro, adiando-se para algum poeta ainda mais tarde. Talvez a palavra mais bonita não quisesse fazer parte dos assuntos; ser dada como garantias; causar invejas às demais palavras. Talvez a acusassem por sua beleza, a assustassem por sua beleza, fizessem perguntas demais e a ameaçassem. Talvez a palavra mais bonita não possa ser exposta ou discutida porque se cale ou se torne outra. Talvez a palavra mais bonita entre todas as palavras esteja a pensar mais profundo, sentir mais profundo, viver mais profundo.

Talvez a palavra mais bonita entre todas seja um sonho ou um silêncio.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Teoria Geral do Desassossego...

Quero agarrar-te pelas tripas e interrogações do teu peito há tanto presas. 
Quero que o mastigue e o devore e cuspa aquilo que te amarga. 
Quero devolver-te verbos desaparecidos. 
Quero ajudar-te a recuperar desejos perdidos 
e sonhos amarelados. 
Quero ensinar-te rotas de fugas 
e apontar coragens. 
Anseio por tirar-te da condição de rascunho, 
de fração, de fraude, de que já é tarde. 

Use-o como mapa dos territórios das verdades que te compõem. 
O que acontecerá ao encontrá-las, não saberei dizer; 
porque dei conta apenas da metade, 
para que te ocupes com a outra 
reconhecendo os teus próprios inteiros.


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quarta-feira, 4 de maio de 2016

Sobressaltos...

Dizia aquilo para me enganar, mas gostava muito que ele fizesse o esforço para me enganar. A dar-me colo e dizer-me flores, como se levasse carícias para o interior todo do corpo. Anunciava pequenas esperanças, muitas delas, para que poucas viesse eu a lembrar e a cobrá-lo por elas. Apontava-me pássaros como contrário aos medos, a migrarem para longe de mim qualquer um deles. E eu, com tanta impressão de enganar-me aqui sobre tudo, gostava muito que ele fizesse o esforço para me enganar. A dar-me o mundo em pequenas gotas, para que não me engasgasse com ele. Havendo tantas histórias e ruas e pessoas dava-me ele de beber o suficiente para que não me afogasse, ensinando-me a navegar aos poucos em mim mesma sem sobressaltos.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Piada...

Apegam-se à coisas demais para sofrer os que insistem em exigir que a vida garanta qualquer verdade sobre nós, sem que percebam isto os insistentes. Quem poderá negar? Asseguramos certezas como imutáveis para mantermos alguma coerência, aparentamos alguma solidez sem nos flagrarmos nas inevitáveis contradições que carregamos. Somos rigorosamente lógicos porque a lógica nos falta. Dizemos o que as coisas são para escutarmos o que as coisas são e assim nos convencermos. E não ouse a vida nos desmentir nem o outro nos desdizer: somos frágeis para contrariedades. Por isto nos agarramos às convicções de que sabemos porque assim pensamos, para não nos perdermos na inexatidão de todas as coisas. Apegamo-nos à bloco de admiráveis e confortáveis verdades perdendo a própria generosidade por querermos controlar a vida. O amor - próprio e alheio - passará por um rígido controle de qualidade. Seremos inflexíveis com o inesperado. Não daremos o braço a torcer ao que nos revele, não abriremos exceções ao que nos desminta. Enquadraremos o amor e o restante em nossa particular área de segurança: não levaremos o peito para conhecer o outro ou a si mesmo; não riremos de nós com facilidade nem nos perdoaremos porque erramos. Pouparemos felicidade para evitarmos as dores. Anestesiaremos as dores com outras. E não sendo possível iluminarmos o total território dos amanhãs, exigiremos promessas, garantias, precauções, construindo personagem que ao público finge saber relacionar-se e lidar com seus azares. Distrairemos os sentimentos com a ansiedade de quem exige o controle dos próprios sentimentos, e tudo porque não sabemos sentir, doer, viver, partir. Como quem não quer mais perder porque não sabe o que tem a ganhar, nos levaremos a sério demais.

O bom humor se vier a não perdoar, nos tornará piada. De mau gosto.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Que não lembramos...

O amor jurava lembrar-se. Mas não naquele momento. Quem sabe para amanhã haveria de ter mais sortes. Ela gostava da ideia de ajudá-lo quando soubesse ao certo o que fazer. O mundo era um lugar de gente enganada, menos o amor. O amor apenas não lembrava. Por ora e por hábito, substituíamos deus pela oração e a felicidade por ideias poéticas a colocarmos versos no lugar de cada coisa. Para lermos depois, enquanto o amor não se lembra. Para reescrevermos depois, muitas vezes, enquanto não lembramos do amor. Talvez o poema seja como termos encontrado uma coisa perdida há muito. Que não lembrávamos.

domingo, 1 de maio de 2016

Por um dia...

Às vezes por um dia em que não somos; por um dia em que deixamos de ser; por este um dia em que nos pegamos desprevenidos sendo aquilo que não gostaríamos, não significa dizer então que estamos condenados a ser o que neste dia fomos, nem afirmar que em razão deste dia não possuímos aquilo que já possuímos.

Ou seja, por um dia em que faltemos com amor não significa dizer que não amamos. Por um dia em que faltemos com a bondade não significa falar que somos maldosos.

Carregamos tanto a escuridão da nossa ignorância quanto a luz do nosso aprendizado; trazemos conosco tanto os invernos quanto as primaveras a revezarem-se conforme o palco que atuamos. Isto serve para mostrar-nos o quanto nos falta e o quanto já conquistamos. Isto serve para mostrar-nos que somos muito mais do que pensamos e que somos menos do que acreditamos ser.

Afinal, acreditar não é necessariamente saber.

As verdades, tão contraditórias quanto possíveis, servem-nos tanto para dar voz às virtudes quanto para calar as vaidades. As verdades, tão opostas quanto reais, podem coexistir em nós como capítulos que nos ensinam o que há ainda para ser trabalhado, para ser descartado e para ser construído.

Tenhamos a compaixão com nossas alternâncias, que avisam-nos que não somos absolutamente bons nem completamente maus, e sim que estamos na travessia para nos reconhecermos, e a partir disso, atuarmos na versão mais nobre de nós mesmos.