sábado, 30 de abril de 2016

O lado silente do poema...

O mundo se cala quando choro. Ficam apenas os ventos à superfície a empurrar pequenas coisas vulgares. Enquanto choro estabeleço o lugar exato de mim e coerência ao tempo para que se aquiete; que se descanse enquanto sou. Possuem-me as lágrimas e eu nada mais possuo, e isto me agrada. A vida se revela em mim quando choro. Chorar exige-me todo para um só lugar em que choro, deixando-me para o lado mais vazio das coisas. A lágrima dá-me substância e intensidade de quem sepulta pressas e barulhos. Para além delas, não sou verdade. Significo-me com o meu corpo inteiro: limpo ou sujo, todo eu no aqui me pertenço. Difícil dizer coisas que não se sabem ser ditas; tão silenciosas como a breve lucidez que entrega-nos desprevenidos ao que sentimos. A renúncia de que nada mais seja além do ato mesmo de chorar, prestando atenção ao dentro, subtraído todos os cenários. Choro e não penso; absorvo-o e permito-me sentir a realidade que não frequento entre os dias comuns. Sem pensar e sem mais o que em mim perseguir, sinto-me livre para os limites da minha possibilidade. A fugaz libertação dos papéis, diálogos, compromissos, personagens e o medo de que inevitavelmente voltarei a me recompor e continuar consumindo minha vida pelas metades sem chegar antes a nada.

A lágrima é o lado absolutamente silente do poema.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Teoria Geral do Desassossego...

 Teoria Geral do Desassossego
(um ensaio dos afetos)

Um convite à maneira mais agradável de ignorar a vida e ao mesmo tempo afirmá-la; uma leitura em que falo aos teus olhos as coisas todas cheias de significado ao mesmo tempo que lhe digo de nossa insignificância. E explico que isto não é em nada ruim, visto que pelo vão das fragilidades acontecem-nos os milagres. E junto às questões e motivos que bem explico de nossa reincidência aos abismos, aos contrários e às promessas; trago receituário de amanhecimentos, notas e instruções para asas e os desapegos. Por facilitarmos sempre o fim daquilo que amamos, explico-lhes o que sei do amor pelo que o amor não é. Ou não deveria ser. A todos nós com sentimentos tediosos de domingo ou segunda, trago-lhes a notícia sobre o outro lado de nós pouco usado e que sabe ser outra coisa que não apenas cansaço e mais do mesmo. Venho celebrar as ilusões e chamar-te a festejarmos por reconhecê-las e podermos por isso descartá-las. Este livro tem tanto o peso das tuas tristezas como o das tuas esperanças. Dependerá de qual página teu peito decida aportar. Mas eis minha provocação: que tu não aportes, que tu saias por aí a atravessar tuas próprias marés e gradue-se num degrau acima daquele que por tanto tempo parado estiveste.

A quem interessar adquirir, mande-me um e-mail: 
guglicardoso@gmail.com
ou através do Facebook: fb.com/ailhadeumhomemso

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Palanque...

A questão é que por não nos aceitarmos, queremos antecipar o que buscamos, ficando por esta exata razão para trás de nós mesmos. Há uma parte do que somos forçando a barra para se ser o que ainda não se é, adiantando conclusões e criando certezas em cativeiro a permitirmos dar-nos algum roteiro para ser trilhado; jeito de nos sentirmos um pouco menos desorientados com o que somos.

O resultado será a tensão pela corda bamba que atravessaremos entre o passado que não fomos e o futuro em que "devemos ser". A cobrança tornar-se-á culpa pelo que não conseguimos alcançar. Por não nos enquadrarmos nas possibilidades que não escolhemos, inventamos de entender que por essa razão perdemos o alvo.

Mas será que não é exatamente pelo caminho já percorrido, mesmo aos trancos e barrancos, que então podemos fazer sentido para nós próprios? Visto que é a soma das machadadas nas nossas crenças e que não nos demos conta que farão a diferença, ainda que aguardemos que a próxima e última machadada seja a responsável pela libertação daquilo que decidimos nos prender.

Enquanto não nos aceitarmos agora e deixarmos de acreditar que tudo em nós deverá passar por um rígido controle de qualidade, nada estará bom, nada será o suficiente, algo ainda e sempre faltará, e qualquer coisa será palanque para que os nossos medos e fraquezas tanto falem a convencer-nos a continuar nos boicotando.

Essencial...

Sou daquelas almas que as mulheres dizem que amam, e nunca reconhecem quando encontram, daquelas que, se elas as reconhecessem, mesmo assim não as reconheceriam. Sofro a delicadeza dos meus sentimentos com uma atenção desdenhosa. Tenho todas as qualidades, pelas quais são admirados os poeta românticos, mesmo aquela falta dessas qualidades, pela qual se é realmente poeta romântico. Encontro-me descrito (em parte) em vários romances como protagonista de vários enredos; mas o essencial da minha vida, como da minha alma, é não ser nunca protagonista.

(Bernardo Soares)

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Hoje...

Hoje, peço à vida ser abençoado e necessário abandono, para que o que restar de mim daqui pra frente seja a minha redenção, para que os amanhãs me acolham e me recebam outro, inteiro. Para que a próxima página esteja em branco e o coração, preenchido. Para que entre os meus erros, esteja também o meu próprio perdão. Entre os meus apertos, um horizonte em que lá eu honre os meus possíveis. Por isso escrevo, como prece, para acender luz, como pedido de absolvição da minha própria consciência; como pedido de renúncia dos medos que não me traduzem. Agora é o momento de reaver as asas. Por isso escrevo, como se aqui eu pudesse me confessar e me lembrar do que posso ser quando me sinto livre e amo; e do que posso ser ao me libertar naquilo que escrevo.

Hoje, eu me celebro.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Charme...

Diante do espelho, olhei-me, como que para ter uma conversa para a minha particular educação. Não me atrevia a perguntar nada. O coração que através dos olhos me falava. Sentia-se ele desajustado de mim, acreditando-me tanto adiado quanto atrasado para alguns saberes. Disse-me: repetes as flores e reclamas da primavera. Queres saber-se fruto sem amadurecer. Queres conhecer dos gostos ignorando sempre o amargo. A sedução não te pertence, visto que é arte do vento a mover com graça os panos que te envolvem. Isto posto, não enganes ninguém com tuas curvas ou palavras, para que fujas tu dos teus sentimentos burros. O charme do teu corpo deverá ser equivalente a elegância dos atos que te vestem; tua personalidade deverá ser leve, não importe o peso do corpo. Não disfarce mais as imperfeições da pele, melhor corrigir as da alma. A beleza real será este equilíbrio dos lados de fora e de dentro, soma fatal que faz com que sejamos quem verdadeiramente somos.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Âncoras...

A lucidez derrama-se sobre as palavras revelando-nos o padrão: a obediência ao óbvio que somos e ao lugar que ocupamos; como fórmula matemática de que padecemos; em que adequamos o incrível ao conforme e o peito aos previsíveis resultados de seus infortúnios. As palavras oferecem equação onde se é possível traçar a rota de colisão com as tristezas. Um sistema onde se é permitido saber quais vazios atraem quais ausências e como através deles nos relacionamos. Uma janela a mostrar-nos o que sobrevém às reações: depois da perda, depois do outro, depois de tudo ou mesmo antes; roteiros de diálogos prontos e calculados silêncios. A palavra antevê os passos ao descrevê-los. A leitura exata sobre os passados a dar-nos o preciso diagnóstico dos amanhãs previstos como labirinto emocional; um capítulo a mais incompleto e mal redigido por cada um de nós. A poesia e o amor concede-nos a liberdade do imprevisível; tabuleiro de peças excelentes que não mais se resumem a estreitos movimentos, anunciando derrotas e desfechos antecipados. Escrevemos por isto: desmentir os destinos. Amamos para desarmar agendas e corrigirmos a linha da vida no olhar das cartomantes. A poesia para rebelar-se contra a exatidão, contra a rotina. O amor a desviar-nos do cotidiano. O amor a calar os cinzas. Escrevemos para adestrarmos o medo e dele despedirmos ao amar. O medo é o padrão, o porão, o senão, o contrato, a promessa ameaçada, corredor sem porta ou enfeites, caminho seguro sem milagres; prisão a que nos permitimos banhos de sol e uma breve soltura das nossas âncoras.

A poesia sempre matou o medo.

domingo, 24 de abril de 2016

Curandeiro...

Quando o calendário nos aproxima dos encontros, doem-me as coisas todas amor. Sabe meu corpo das urgências que acumulei, dos erros presos nas teias do que não me é mais. E agora sabes tu igualmente, ao chegar e sem cerimônias acender a luz da minha inconsciência, exigindo tua presença que os dissolva todos. Deixaste-me nu e trouxeste a felicidade para o meu guarda-roupa, provocando-me lágrimas apenas para lavar engasgos e soluços somente para oxigenar lembranças. Sem a autorização das minhas contrariedades, puseste para fora versões de mim com gosto amargo, despediste meus infernos de estimação, receitando-me diariamente não me perder para velhos e estúpidos fantasmas. Trouxeste à superfície da pele, as alergias à tristeza que por tempo ocultei, de mim mesmo. Os passos da tua vinda espantaram minhas frações e convocaram-me aos inteiros.

Com tua chegada, passei-me a sentir doente. Doente de vida.
Vieste tu a curar-me, trazendo mais dela.

O teu amor é curandeiro.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Venenos...

É espantosa a quantidade de coisas que jogamos dentro: adoçantes, corantes, tristezas, flavorizantes, mágoas, aromatizantes, medos, raivas e demais predadores. É espantosa a quantidade de coisas que ingerimos sem prudência: venenos que buscamos para realçar sabores do que tornou-se artificial - a própria vida - ou que permitimos que já dentro circulem em nosso sangue, músculos, órgãos, alma e anestesie-nos para coisas que não queremos realçar. Os venenos sabem como nos devorar enquanto fingimos que nada nos devora, usando-os para que se sobreponham à falta de gosto ou à dor. O essencial, deixamos de fora. O essencial, não ingerimos. O essencial, não expulsamos. Como se permitíssemos morrer aos poucos diante da inconsciência que há tanto nos sequestrou para que não mudemos os hábitos, a alimentação, o rancor, as impaciências, a falta de perdão. Mudamos a direção do que nos anula para depois nos dizermos vítimas de um coração que pelos excessos decidiu parar.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Acordar pra vida...

Mudar-me inteiro, dissolver-me todo, abandonar posturas. Não cultivo dignidades nem para ser semente. Não honro a vida, o tempo e a minha relação com o próximo. Eu não sou grato com o que a vida me dá. Ando excessivamente preocupado com o que tenho, com o que quero ter e com o que não consegui que não consigo espaços na agenda para ocupar-me com quem sou. Quero para agora, pois me frustro facilmente com as coisas que não dão certo. Acho que os meus erros machucam menos do que os erros alheios que sofro, por isso uso de abundantes desculpas e me perdoo sempre. Vendo mentiras para manter meus convenientes papéis e ocultos meus defeitos. Para manter minha notória e pública leveza custa-me muito esforço. Convenço. Covarde. Distrato, nego, renego, acuso, maldigo, minto, descarto, desconto, descaso, amargos. Massacro qualquer um que me incomode, em pensamento, sem para isso precisar me desculpar e sem aprender o que preciso. Sou um pedaço de nada flutuando na continuidade dos dias. Não separo o lixo de casa, não separo o lixo de mim. Sou um amontoado de atos pequenos de bondade que não me transcendem e de mim não me livram. Tudo me cansa. O outro me arde. Tenho facilidades para a violência: verbal e existencial. Sou uma agressão enquanto espero, com o tempo do outro, com quaisquer alheios amadurecimentos. Exijo mais do que dou; e nunca doo, a não ser o que seja dispensável e sem esforço. Invento histórias que conto para me salvar do meu próprio silente julgamento. Expulsei o silêncio a ponta pés, tornando-me apenas barulho e confusão. Prometo mais do que cumpro. Condeno e não absolvo. Coletânea de muletas e preconceitos. Tenho muitos medos e falo histericamente sobre coragens. Saboreio pequenas raivas cotidianas. Demando que as coisas aconteçam como se eu tivesse o direito de exigir dos outros, sendo que não ofereço nem um terço do que exijo. Envelheço acumulando fatos, jamais experiências. Atravesso os dias sem atravessar a mim. Perco mais do que ganho. Mato mais do que salvo. Morro mais do que vivo. Minto mais do que curo. Falo mais do que sinto. Adio amanhãs em que serei aquela ideia mais genial sobre mim mesmo. Adio quando serei mais solidário, participativo, sereno, equilibrado. Que Deus me perdoe. Que eu me perdoe. 

Que eu possa aprender por ser feliz, e não o contrário.

(escrito num passado distante)

terça-feira, 19 de abril de 2016

Concorda?

Não sejamos ortodoxos nem relativizemos tudo. 
Não sejamos preconceituosos nem xiitas do politicamente correto. 
Não sejamos coniventes tampouco intolerantes.

Viramos velhinhas moralistas, fiscais da vida alheia, do ânus alheio, do sal na mesa alheia, da linguagem que queremos distorcer e limitar para proteger. Proteger nossa burrice, claro.

Não se pode dizer mais isto nem aquilo. 
Se digo A, persigo B. Se digo B, logicamente oprimo A.  
Se digo B, excluo A. Se critico A, definitivamente defendo B.

Nem tanto ao céu, nem tanto à terra.  
Nem tanto blablablá, muito menos mimimi.

Onde raios se escondeu o bom senso? 

Há os que defendem o indefensável; os que alguma coisa afirmam porque todo o resto negam e os que não enxergam porque só olham para o outro lado. Ou para o próprio.

Não sejamos cegos, nem sejamos míopes a carregar inquisições e censuras por acreditarmos apenas no que queremos. Há os que defendem a verdade e não vêem que defendem uma crença. Axiomas, princípios, sistemas e livros podem tanto explicar quanto encarcerá-lo para bem longe da realidade.

A direita pensa que toda a esquerda é imbecil. A esquerda acredita que toda a direita é imbecil. Ambas acreditam que somente uma pode melhorar o mundo. 

Estou certo e o outro errado. 
Estou certo e o outro herege. 
Estou salvo e o outro condenado. 
E seja feita sempre a nossa vontade.

Não sejamos falsos humildes, tampouco arrogantes.  
Não sejamos ingênuos, muito menos maus caracteres.

Há os que argumentam sem a finalidade da reflexão. Há os que debatem apenas para impor seus pontos de vistas. Discutimos não mais para encontrar a solução ou desvendar o erro, mas ganhar do outro. E perdemos todos. 

Defendemos partidos e seus personagens com a paixão ignorante de uma torcida organizada. Tornamo-nos gado e dizemos que quem pasta é o outro.

A cada um que excluo aparecem 5 defendendo a idoneidade (?) do Lula.
A cada um que excluo aparecem outros 5 defendendo Bolsonaro como a salvação da lavoura.

Não sejamos inocentes, muito menos idiotas.
A merda, ainda que defendida por muitos, ainda assim é merda. Mesmo que perfumada.
Queremos destronar Satanás para empossar Belzebu. 

Bem aventurados aqueles que estão a tatear suas certezas. 
Bem aventurados aqueles que não insistem em justificar o injustificável. 

Como li outro dia: em quem eu preciso bater para ser expulso deste planeta? Enquanto eu não sou, a porta é serventia da casa, caso tenha se sentido dodói com o que leu.

Melhor para nós dois, concorda?

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Cordel...

o silêncio de uma dor que não cala
o silêncio como o amor que sussurra

a palavra de uma dor que nos fala
a palavra como o amor que se jura

a poesia para uma dor que a distraia
a poesia de um amor que nos cura

o verbo atravessando o tempo
o tempo atravessando o outro
o outro atravessando a gente
a gente nesta travessia
a gente nesta trapalhada
a gente nesta patuscada
cordel de lágrimas
e alegrias.

domingo, 17 de abril de 2016

Lucidez...

Quantas lágrimas serão suficientes a lavar-me dos escuros onde se encontra o coração? Quanto para chorar e tendo chorado secar-me, revelando-me lado até então imerso nas tristezas? Quanto de tristeza despeço e dela renovo para sempre ter o que chorar? Quanto em mim insisto e de mim desisto no mesmo instante? Quanto de mim é mar? Pois cumpro medos diários de que as memórias sejam feitas de água e eu para sempre me afogue. Quanto de mim é aridez? Pois trago receios de que minhas histórias sejam feitas de areia e eu para sempre me engasgue. A intensidade fez-me preso ao peito dessabido do quanto me falta expurgar para habilitar novamente meus amanhãs e acessar a minha própria paz. Desenham as lágrimas mapas e saídas que somente o tempo enxerga. Peço a ele calma para sentir tocarem nos pés as esperanças. Peço a ele qualquer saúde para sentir toda saudade, jamais lucidez.

sábado, 16 de abril de 2016

Espetáculo da aflição...

Eu gostaria de escrever para te dizimar, para me despedir e te desabrigar de mim; responsabilizar-te por todas as dores e erros que suportou meu coração. Como não sou corajoso para além das reticências, fiz da minha raiva o meu diário que me envenena por não saber te envenenar. Sou adiada revolução: uma abafada e doída revolta. E não posso buscar vingança nas letras ou em qualquer outro lugar porque me impede a parte lúcida e não naufragada de mim. Teu amor foi cilada que me despreparou para os amanhãs, destroçou meu amor próprio e impropriamente consagrou apenas meu passado. Lá, eu era mais. Antes de ti, eu era angélico. Depois de ti, tudo é infernal. Queria manter-me naquela ignorância de um sofrer que tão bem me ensinaste. Enquanto não te mato, não consigo renascer. Enquanto não te despejo, não posso mais chegar em mim. Os dias tornaram-se carrossel a dar-me vertigens e cansaço. Destruo-me com minhas contradições, por querer te aproximar e nunca mais te ver; ao querer saber de ti para nunca mais saber. Quero ser lágrima a me aliviar e desesperadoramente voltar a sorrir, sem a ajuda de falsas esperanças ou distrações em que te enterro num breve esquecimento. Saiba, eu também quero tua alma livre, menos que a minha. Quero teu sorriso largo, menor que o meu. A ausência tua evidenciou os meus defeitos. A tua partida pôs os meus pecados no lugar. O que sei é ser meus ciúmes sintomas de magoada insegurança: um apego ressentido por ter que se desapegar. Sou encruzilhada que se carrega e a nenhum lugar leva. Meu pedido de socorro é este meu silêncio em que tento matar-te sufocada e deixar-te viva também. Contigo nunca vivi bons sonhos, mas eras somente tu a dar-me razões para sonhar. Ao desejar te cortar, sangro. Ao querer te amar, morro. Ao tentar te aniquilar, mais vives em mim. Sou um espetáculo da aflição. 

Uma constante luta para ser quem eu nunca fui, e para um dia voltar a ser.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

O quase óbvio...

A nossa própria realidade é resultado de uma soma que costuramos a cada hora, momento e experiência. A honestidade que dispensamos pela conveniência de contarmos melhores histórias sobre nós, permitirá a lucidez em percebermos que nosso palco é montado a partir dos nossos pensamentos (idéias, memórias, crenças, valores, etc.) e emoções (medos, ansiedades, raivas, etc.) que muitas vezes não se apresentam nítidos, evidentes e lógicos como gostaríamos, contracenando diariamente uns com os outros e todos conosco, permitindo e determinando nossos diálogos, escolhas, reações, relações, passos e amanhãs, deixando pouco espaço para dizermos que foi o acaso ou o destino como algo separado de nós que assim nos quis. A responsabilidade que costumamos jogar no colo do destino ou de qualquer outro e que dela nos afastamos pela mentira que contamos ou pela verdade que escondemos deve ser retomada como o olhar generoso para nos apropriarmos do que nos é consciente e do que consciente ainda não se tornou. O olhar generoso é aquele que entendeu que julgar, exigir, criticar e culpar não adiantam em nada para nós. Assumirmos nossas frações permite reconhecermos o território e as dimensões da nossa própria realidade. 

E se e quando e então a partir disto você quiser e decidir mudar, você irá mudar; porque já está mudando.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Órfãos...

Quão órfãos somos da própria realidade? Quão carentes somos de nós mesmos? Espanta-me o desespero pelas palavras como uma compensação que nos garanta, que nos alivie, que assegure, controle, prometa, alcance. Uma palavra qualquer que nos encante. Uma palavra qualquer que nos engane, mas que a cada uma nos agarramos como certeza, como um tosco salva-vidas neste mar da vida. Queremos ser salvos da nossa própria e das suas inúmeras incertezas. Queremos evitar colecionar mais dos inúmeros tons de cinza que permitimos colecionar. Entre eles e nós, cimentamos palavras, garantindo-nos o mínimo. Queremos nos proteger do outro impondo-lhe condições. Queremos nos proteger do amor impondo-lhe condições. Queremos roteiros, rotina, controle: promessas e verdades registradas em cartório que jamais mudem de ideia; o dia seguinte igual onde o milagre jamais estará presente. E para que o acordo vingue, dispensamos o imprevisível pelo provável, oferecendo obediência e resignação, o sentimento educado, a alegria controlada, a tristeza muda, as conveniências, a palavra acostumada: cláusulas de medo num contrato de risco que outro nome damos para disfarçarmos quão grosseiras são nossas fragilidades e quão gritante é a nossa dependência.

A palavra pode ser amor. O verbo pode ser amar. 
A maioria das vezes é sempre gaiola.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Para quando acordar...

Talvez o amor fosse um modo de envelhecer. O amor colocara os meus amigos, irmãos e as coisas todas a envelhecer. O tempo também se conta distorcido pelos amores. Talvez por isso, sinta-me tanto com cem como com um pouco mais de dez anos. Pelos amores que magoaram-me e decidi não serem amor. Pelas paixões que acenderam-me e que depois pensei amar. Pelas amizades que floresceram-me e que depois soube ser o que amor é. Pelo amar que reincidi nas manhãs de outono. Pelas demoras de esperar o próximo. Pelas distâncias de aguardar o mesmo. Entre somas e subtrações sobrou-me apenas o coração. Como se por tê-lo restado soubesse melhor o que fazia; o que sentia; quem eu era. E exatamente o contrário disto. Mas, como fosse, permitido de fazer futuros com ele. Quem sabe o futuro servisse, entre outras coisas, para desentristecer o passado e alegrar o coração como pássaro que visitamos a gaiola. Acreditava existir em mim dois corações: um a pulsar-me os sangues e guardar lugar para as tristezas. Como nas gaiolas. E este outro, um ainda não crescido, a estrear-se para a felicidade e levar-me junto com ele. Deitava-me toda a noite com esperanças de sonhá-lo. Para quando acordar, vivê-lo. 

Assim eu desejava.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Sobre os recomeços...

Às vezes os recomeços nos acontecem quando estamos desprevenidos, e talvez seja exatamente por isso que eles então nos aconteçam, neste intervalo entre os ensaios em que ainda não encontramos o suficiente de nós para virarmos a página e nos reinaugurarmos.

A vida não pede nossos inteiros para bater à porta; a vida bate à porta para então permitir que venhamos a encontrá-los.

domingo, 10 de abril de 2016

Recadinho...

Amigs,

Vejo gente neste vale de lágrimas, também chamado de redes sociais, a publicar cousas alheias sem o devido crédito. Vejo uma, duas, três, quatro, cinco, seiscentas e oitenta e três vezes a mesma coisa. Por semana, por dia, por hora, por minuto.

Desta patuléia efervescente e vitaminada, há aqueles que fazem de caso pensado, premeditadamente, esperando o reconhecimento e a glória que não lhes pertencem.

A estes, desejo de todo o meu coração o mármore do inferno.

E há outros, fulanílsons de coração ingênuo, para quem vai o meu recado: não, meu caro! A vida é mais do que isso e pede mais de ti. Se você se empenhou em copiar e colar - transcrever é para os fortes! - o texto, faça a gentileza de dar o crédito. Seja ao falecido, ao moribundo ou ao muito vivo. As suas mãos nem suas ações da Petrobrás irão cair. Eu lhe asseguro.

A sua atitude inocente pode virar uma confusão dos diabos quando outros a partir da tua publicação começam a levar embora as palavras emprestadas.

O que era Shakespeare vira Pedro Bial. O que era Drummond vira Jô Soares.
Deus nos livre e guarde.

A semente quando semeada já leva consigo o nome de sua flor.

Atenciosamente,

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Mesa de bar...

Não há crise que se sustente nem angústia que não se diminua numa mesa de bar. Diante da atual intolerância social e religiosa, o boteco é o templo contemporâneo que a todos aceita, sem distinções. A mesa de bar é o divã com colarinho e bolinho de bacalhau. Confessionário com burburinho e música ao vivo. Ali, amigo vira filósofo, economista, fofoqueiro, jurista, conselheiro amoroso ou qualquer outra coisa que se exija o assunto. Juntos, tornam-se assembléia de especialistas. Ou palpiteiros, tanto faz. Gosto da cerveja e da prosa fácil na mesa do bar. Tabuleiro em que se põe em xeque as dúvidas e se (re)descobrem certezas. Ao chegarmos penduraremos na cadeira nossas armaduras e demais seriedades. Convocaremos o garçom, gênio moderno a atender nossos pedidos. A cerveja, lúdica, pede-nos este ritual. A patrocinar nossas ideias. A brindar nossa existência. Beberemos todas as nossas emoções. O boteco é o álibi, o culpado e a testemunha, tanto da nossa coragem como das nossas fraquezas. Ali, histórias se desenrolarão com a imponência de um teatro grego. As confissões com detalhes de um sistema filosófico. A mesa do bar é a renovação rotineira das nossas esperanças. A terapia estendida aos finais de semana. Afinal, há bares que vem para o bem. E um homem sem bar é definitivamente um órfão, um pagão.

O boteco é a nossa alma pronta pra festa.

Realidade...

Só então pude livrar-me de idéias e maus sonhos que me perseguiam, quando percebi que era eu quem, de alguma maneira, os perseguia. Esta sutil e inesperada percepção revelou-me a responsabilidade por coisas na vida que pensei jamais ser responsável, criando caminhos sem me dar conta que minhas próprias escolhas os criavam, desenhando eu a realidade que pensei ter sido por tanto tempo e na maioria das vezes para mim imposta.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Baralha-me...

Cansado de nada fazer. Cansado de ser nada. Cansado das coisas todas. Das boas e das más. Cansado dos medos. Os motivos são vários. Tantos. Não sei como enumerá-los, cansaria-me mais ainda se o fizesse porque não conheço todos os cansaços de que padeço. Bucólicos muros. Estranho-me. Não me posso adiar para outro século. Só tenho este. E é tão curto. Não sei nunca por onde. Vou daqui para ali apenas por ir. O espelho reflete um personagem sem face. Rosto sem expressão. Sou uma constante fractura exposta que não se trata.

Gasto algumas das minhas horas assim, olhando ao redor. Respiro e deslumbro-me. Mas as nuvens pesam-me e cansado fico. A claridade confunde-me. O dia baralha-me. Ideias desconexas e desencontradas surgem na noite. Fantasmas de espírito acordam-me nesta escuridão temporária. A obscuridade nasce.

Não sou o meu lugar. Não me sinto aqui. Simplesmente aceito tudo isto. Hei-de encontrar coerência em tudo e sentir o sabor de não estar só. Quero respirar mais alto.

(Antonio José Ribeiro)

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Receita

Um incômodo se não dispensado pode vir a tornar-se uma frustração.
A frustração se reincidente pode vir a tornar-se tristeza.
A tristeza se acumulada pode vir a pedir-nos remédios.

Nós e o nosso mau hábito de cultivar o que não se deve, alojando aquilo que deveria ser tão-somente passageiro. A repetição crônica do sentir e do pensar alimentam mágoas e culpas, levando-nos às reincidências e círculos viciosos interiores, impedindo-as de se dissolverem através do tempo, restabelecendo nossos inteiros.

O que é a doença senão um pedido de socorro pelos cansaços, quando deixamos a vida escapar no momento em que o vazio entrou? Não esperemos para dizermos "basta" ao que devemos dizer "basta", seja lá dentro ou fora da gente, seja para o outro ou conosco mesmo.

Mudar amanhã é desculpa para repetir o hoje.

domingo, 3 de abril de 2016

Represar...

Aceita, meu filho, o inevitável curso do rio ao mar e abençoa a nascente, mesmo que o rio todo se perca na sua foz. Permita o amor também chorar seus medos.

Assim se faz a sabedoria de jamais represarmos em nós a própria vida.

sábado, 2 de abril de 2016

O equívoco...

O amor não nos causa doença ou mal algum. O que nos causam males são os nossos escuros; estes com que envolvemos cada uma das coisas que sentimos. O equívoco está em acreditarmos que nossas ausências e medos e egoísmos não interferem no amor. O equívoco está em nos permitirmos esquecer que nos relacionamos também através da nossa imaturidade e ignorância. E por recusarmos enxergar tanto os equívocos quanto os escuros, colocamos a culpa no amor como inevitável tragédia a mastigar-nos o peito, antes ou depois de elevar-nos aos céus. É exatamente o amor quando amado junto aos enganos que o comprometem. O amor não deixa de florescer por sua própria culpa, mas por nossa responsabilidade. Ele, pelo contrário, por sua claridade, permitirá que diante do outro venhamos a reconhecer os escuros com que nos vestimos e nos abotoamos para o desnudo e entregue verbo amar.

Talentos...

Se tem coisa que muito me sobra é o talento que tenho para reunir talentos. Variados deles. Vejam, há talentos que não são como toda sorte de gente pensa ou deseja. Há os que nada tem que ver com técnicas e engenhos a realizar feitos por aí afora. Há, por exemplo, os que se tratam de uma facilidade para nada fazer ou os que carregam habilidade em se lascar. E este é o meu caso. Tenho talentos, por exemplo, para ser o que não quero e fazer o que não me apetece. Talentos em adiar compromissos ou aceitá-los todos para o mesmo dia e hora. Talentos para perder as horas e procrastinar a vida. Talentos para falar merda e não pensar duas vezes. Talentos para não lavar pratos e esquecer o feijão no fogo. Um talento hollywoodiano para as preguiças. Todas elas. Em suma, tenho habilidades em fazer merda e apagar incêndios depois. Eu sempre nadei contra a corrente destas minhas inclinações. O meu plano que por muito tempo havia sido ser um revolucionário tornando-me um outro novo que não um velho eu, nunca foi posto em prática. Sempre o executei em fases e parcelas, adiando reestréias e reformas, alongando mesmices e mudando detalhes, um aqui outro acolá, fazendo com que o plano deixasse de ter mesmo qualquer coisa de revolucionário. Então percebi o que havia necessidade de perceber e é aí onde se encontra a defesa que faço. Para ser e continuar sendo o melhor em cada um destes talentos, não careço de esforços nem ensaios. Eles me caem bem e com muita facilidade. A conclusão é que talento pode ser muitas coisas, menos sofrer por querermos ser tudo o que não somos, ainda mais com vistas a agradarmos alguém. Quando diz o filósofo que o inferno são os outros, penso que inferno seja a falta de tolerância para com os outros que se incomodam com aquele que pouco se incomoda consigo mesmo. Por isso elogio os talentos que fazem de mim quem sou, seja lá como sou, ao contrário da luta contra estas queridas características e outros simpáticos pecados. Uma coisa é disciplina, a outra é o talento para sermos fluídos. Uma é imposição, a outra aceitação. Uma não exclui a outra, e o que não se pode é a outra anular esta uma. Para sermos o que os outros nos pedem temos mandamentos e manuais, mas nenhum apontamento sobre como sermos nós mesmos. 

Reconhecendo-nos e nos perdoando. 
E seguindo adiante.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

1º de abril...

Amigos,

Sendo eu o portador eleito das verdades de que sou merecedor, declaro ser homem em vias de beatificação, vez que dissolvidos meus apegos e vaidades, encontro-me acima do bem e do mal, inclusive das picuinhas idiotas das redes sociais.

Em razão da minha atual pureza e simplicidade, tendo eu pagado todos os meus pecados e sem outros mais para pagar, aviso que muito em breve serei arrebatado aos céus, a ser amparado por querubins e serafins, deixando a vós apenas e tão-somente o meu legado de humildade e tolerância.

Assim, aproveito o ensejo, até por acreditar que cada um de vocês aqui é lindo e bonito - mantendo axilas sempre cheirosas, médias acima de 8,5, um bom senso invejável acerca da política brasileira e o nome longe do SPC/Serasa - para pedir que escolham vossas causas impossíveis e com ardorosa fé dirijam-se a mim com uma módica quantia de R$ 550,00 - para que recebam o milagre de vossas vidas de minhas abençoadas mãos em até 6 dias úteis (3 dias para a grande São Paulo).

Palavras da salvação.

PS.: De brinde levarão ainda um "squeeze" com água gaseificada do Rio Jordão e um calendário a la açougue do bairro, sem o primeiro dia do mês de abril.