segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Como o teu próprio amor...

Somos irritantemente insistentes em criarmos uma distância entre o amor e nós. Somos excelentes em desviarmos do amor; excepcionais em sermos mancos no amar. Exímios defensores da nossa indignidade, criamos, para isso, as mais diferentes estratégias quando, por exemplo, nos apegamos a alguma versão anterior de nós mal sucedida e a ela nos resumimos, repetindo-a num padrão, dizendo a nós mesmos nas entrelinhas: "veja, eu sou isso ainda, não está vendo? Eu não sou digno de ser amado. Eu não mereço algo assim. Afinal, quem sou eu para receber? Eu não mereço ser cuidado". O que é o boicote senão um desejo nosso de navegarmos para o lado contrário do que também desejamos? Eis aí um deles que muito bem frequentamos. E tudo porque atravessamos o tempo sem nos perdoarmos nem nos permitirmos. E tudo porque o tempo passou e o que não se dissolveu se acumulou e endureceu, endurecendo-nos diante de nós próprios. E tudo porque não fizemos as pazes conosco, não abandonando seja lá o que tenhamos feito ou o que tenham feito com a gente, que nos tenha muito doído ou julguemos por demais reprovável. Diminuirmos, não permitindo que a vida venha em nós caber nos parece mais fácil a crescermos ao permitir cabermos nós na vida. Assim, repetimos o que não queremos mas sutilmente julgamos que merecemos. Assim, repetimos o que não queremos como se desta vez conseguíssemos ultrapassar o que nos cortou com afiada tristeza a nossa alma. E isto só poderá ser conseguido através da dissolução das mágoas, da despedida da raiva, do perdão para todos os lados. Caso contrário reincidiremos no que buscamos sem querer, dizendo que continuamos a ser os mesmos e merecedores do que nos falta.

Enquanto não nos encontrarmos, cada amor que vier será insuficiente como o teu próprio amor.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Alcançar...

As palavras nos dizem: nós temos o mesmo alcance das nossas vontades e a mesma altura das nossas escolhas. Mas não serão pelas palavras que alcançaremos estas verdades; jamais saberemos isso de pronto. Às vezes é preciso conviver por tempos com as nossas dúvidas para podermos caminhar em paz com as nossas certezas. Às vezes é preciso nos perdermos em muitos caminhos para finalmente habitarmos a nossa própria alma, e assumirmos o nosso próprio destino.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

A realidade...

Deve o escritor antes da sua escrita perdoar-se diante da palavra sob o risco de querendo se encontrar, perder-se. Ou, buscando expressar sua verdade, confessar exatamente seu oposto sem se dar conta. Isto porque a palavra é um espelho e escrever, uma busca. Porque a página em branco é um altar e a literatura, um confessionário. Quem escreve revela o que se é tanto quanto aquilo que somente desejaria contar. Afinal, refletimos de maneira direta o que somos nas nossas expressões, ainda que demoremos a perceber e tornar o insuspeito em óbvio. O escritor por detrás das suas histórias escreve como maneira de se reconhecer, seja pelo que diz buscando deixar de ser, seja pelo que diz desejando ser ou atenuando-se do que já é, ao negar ou afirmar seus escuros e iluminâncias. Nas palavras sussurramos - ou gritamos - o que tanto ignoramos e reprimimos. Por vezes falamos de inteireza porque nos sentimos em cacos. Por vezes insistimos na espiritualidade porque nos sentimos uma fraude. Por vezes insistimos na liberdade por nos sentirmos presos. Por vezes reincidimos no amor por não sabermos o que ele é. Por vezes narramos vitórias e derrotas para elogiarmos a nossa própria vaidade. O escritor tem como nobre ofício polir palavras tornando-as cristalinas para que o leitor se reconheça nas suas fragilidades e venturas particulares ou enxergue a condição na qual estamos todos imersos. Assim, escrevemos por excesso de mundo ou de ausências e vazios que desde distantes passados carregamos. Assim, escrevemos para reparar o erro e sermos reparados, por nós mesmos e pelo olhar que o outro nos concede para também nos enxergarmos. Deve o escritor antes da sua escrita perdoar-se diante da palavra sob o risco de não saber como doer quando esta descrever inesperadamente sua própria realidade.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Desconheço-me...

Eu não sei ao certo quando é que ponho a matar-me um pouco de mim ou avivar-me naquilo que escrevo. Confundo as confissões com os sonhos, estes com as verdades e aquelas com as mentiras. Dissolvo-me no sutil território das minhas afirmações. Permito-me nas negações de que me aproveito. 

Para antes de um ponto final, busco saber quem sou. 
Para depois dele, desconheço-me.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Mera visita...

Ao dizermos "estou cansado de mim" ou "preciso de umas férias de mim" declaramos tanto um desabafo quanto um sintoma. Cansar-se de si pode vir a indicar o ciclo interior que já poderia ter sido superado pela compreensão, mas que insistimos em permanecer por inúmeras e particulares razões, naquilo que em nós já se esgotou. Acredito que será a compreensão adequada esta nossa superação. Antes, o que viermos a dizer será a evidência de que temos entulhado coisa demais e que precisamos da leveza de quem pode resolver, desatar, despedir e deixar para trás. Desejos, mágoas, culpas e quaisquer destas e outras coisas sejam em excesso ou desnecessárias. Qualquer um destes invisíveis que andem nos prendendo na gente mesmo. Pedir pelas férias de si muito fala sobre nossas acumuladas frustrações que passaram de mera visita a hóspede em nossa casa. Por não sabermos - ainda - como convidá-las a irem embora, pedimos pelo alívio temporário de quem pretende ir e voltar, para encarar inevitavelmente com aquilo que deve em nós ser entendido e por isto, atravessado.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Botar lume...

Para você me enxergar como diz enxergar, confesso, há muitos pontos cegos. Pontos onde muito sou e nada apresento; onde tanto tenho e não revelo; onde há para ler e pouco contei. Para que você me veja como diz me ver, tanto construí e destruí ao longo do tempo, moldando-me seja pelo encontro com minhas verdades como com minhas mentiras, permitindo-me reconhecê-las por cair nas tentações, armadilhas e vitórias da minha própria vaidade. Eis o paradoxo: eu sou uma amálgama bem planejada e completamente imprevista. E não saberia dizer-te hoje o que é meu desde antes ou o que tomei dos outros e assumi como sempre meu. Vejo que ambos são legítimos, pois que dão-me o preciso lugar onde me percebo e você me vê, ainda que existam tantas mentiras e verdades como pontos cegos a botar-lhes lume. Creio que assumir histórias e farsas e mofos que colecionei diante da consciência fez-me sentir pela primeira vez honesto, e por conseguinte, inteiro: sem falas decoradas, distrações, troféus, citações, crenças e outras muletas. Senti-me eu mesmo. Originalmente imperfeito. Talvez isto seja o efeito de botar lume e dissolver os pontos cegos.

Não dos teus olhos, mas da minha própria existência.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Phalaenopsis Lilas...

Deu-me um beijo no rosto e uma flor morta
Amputado o estilete, a cor e o cheiro
Disse assim (o olhar baço): “a vi primeiro”
Deu-me o beijo e a flor, mas o que importa

Deu ao Tempo que o fez seu prisioneiro
Deu, também, a outra mão que o reconforta
Desta flor que meu dedo, agora,  entorta
Sobe a náusea das frestas de um bueiro

Uma orquídea vestida em borboleta!
“Obrigada, meu bem, quanta bondade
posso ler nesta pétala violeta…”

Uma orquídea, a gran mestra em falsidade!
Qual você, que já agarra a maçaneta…
… Sempre li nas suas costas a verdade.

(Clarrissa Yemisi)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Da desaprendizagem...

Eu desaprendo algo todos os dias. Assim, pouco a pouco, desaprendo, sabendo menos do que sei e do que sabia. E sem me impor ao que conheço e venho continuamente a conhecer, desaprendo pela contradição. Eu desaprendo porque me confronto comigo e perco, porque me lanço ao fracasso e ganho; desaprendo pelo cansaço do enredo e pela liberdade a que me permito enredar-me. Eu desaprendo por desistir, ou no instante em que a vida insiste em convocar-me ao acerto e eu, insistentemente, erro. Eu desaprendo porque desamparo, porque desapego, sem qualquer esforço ou investimento para desaprender, como se apenas nunca ouvisse falar, como se nunca soubesse, como se jamais conhecesse: rostos, lugares, livros e o amor que cotidianamente esqueço. O que me sobra é a atual e inédita sabedoria dos ventos. O alívio das memórias que se misturam e de mim se perdem e se despedem. Eu reuni uma multidão de mim exatamente para isso, mas, não que eu tenha planejado. Trata-se de uma perda inevitável em que me diluo. Somei todos os territórios e máscaras e cicatrizes para abandoná-los. Colecionei nomes e cidades e histórias para dissolvê-los.

Eu desaprendo para tombar-me no mistério que em mim habita e perceber que sou eu que habito meu próprio mistério. E é nesta alternância entre uma e outra onde vivo e mal percebo.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Clichês...

Há gentes por todo lado com preconceito contra os clichês.

Tem implicâncias, aquietam-se se chegam à ponta da língua, desconversam, fingem que não são com elas e viram a cara quando uma estende a mão para cumprimentar.

Eu gosto, por isso não entendo. A vida é cheia delas. O amor é clichê, por exemplo. E qualquer destas duas frases anteriores se tratam de clichês.

Uma, um clichê sobre o que sentimos. A outra, um clichê sobre os clichês.
Vejam, não há chances de escaparmos sem esbarrar em alguma, cedo ou tarde.
Cedo ou tarde, outro clichê.

O óbvio quando se repete no tempo e no espaço condensa-se numa constatação. A constatação quando se repete na boca de qualquer sujeito torna-se um clichê. Ou ditado, que é um clichê mais bem arrumadinho e com pinta de sabedoria de avô.

Clichês são sementes de verdade que todo mundo pode levar no bolso.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Cadente estrela...

soprasse eu à cadente estrela
desejo para que fosses vizinha

a pedir-me açúcar pra bolo,
velas para o escuro,
colo para o peito,

convidando-me a
repartir o bolo
dividir os dias
partilhar a casa

dizendo-me: 
amor é celebrar as horas todas do dia.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Sobre o sofrimento e os tempos...

Por que ao homem parece mais fácil declarar que fora feliz no passado? Parece-me que éramos sempre mais felizes no passado. Parece-me que, embora algo sempre nos faltasse, felicidade havia de ser coisa bocado mais duradoura e simples entre os enganos e as dores de antes. Parece-me que concedemos ao passado algum ar de inocência que perdemos ao aterrissar no presente, atenuando o olhar com que julgamos nossas páginas anteriores. Ao agora lançamos o rigor da nossa insatisfação. Ao hoje gritamos os incômodos de existir, os medos, as culpas, angústias, ansiedades, a incapacidade de lidarmos conosco mesmo por morrermos um pouco mais a cada dia por estes incômodos. Ignoramos o óbvio: pela inclinação à insatisfação o presente não nos satisfará. O presente nos é incompleto pela projeção da nossa incompletude, pois não há o que enxerguemos sem que nos acompanhem nossas sombras e pontos cegos. Assim, apenas o passado se faz perfeito visto que é irretocável e em nada se pode acrescentar. Não sem distorcê-lo e torná-lo outra coisa, prática comum que usamos para convivermos com mentiras que contamos para sobreviver com alguma coerência. O presente é o único tempo vivo, imediato, contundente a cortar-nos na carne as ilusões, trazendo-nos a urgência da vida, a iminência da morte, da perda, a possibilidade do erro, o temor da loucura, o sentido da vida e do próprio passado. Quão frágeis somos e quão seguros nos sentimos ao nos abrigarmos nas memórias que escolhemos contar, ficção onde acreditamos ter alguma consistência? Quão melhores nos sentimos por elogiarmos dores passadas apenas porque passadas são? Desta maneira, alternamos entre saudades, nostalgias, planos e sonhos para podermos viver sem nos sufocarmos pelo excesso de qualquer coisa, fracionando a existência em tempos; sofrendo inevitavelmente por esta razão. O que buscamos para nos distrairmos da dor será o que igualmente nos fará doer. A fuga que viremos a criar para nos perdermos será também a ponte para nos encontrarmos. A memória será material para os sonhos. 

E os sonhos servirão para nos acordar.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Afinemos os ouvidos...

Não basta somente a dor; dói-nos ainda mais porque doemos. Dói-nos mais por permitirmos chegar a doer. Afinal, quem de nós ousaria deixar-se chegar a este ponto? Quem permitira atestar a própria inabilidade, a incompetência emocional em se gerir? Quem baixaria guarda aceitando a própria queda diante de si? Rezam velhas vozes que aceitar as próprias derrotas é se permitir acertar na próxima. Reconhecer nosso real tamanho é árduo mas necessário ofício. Assumir fraquezas é ato honesto de coragem, pois que tendemos a nos agigantar para fugir da responsabilidade que dizemos não ser nossa, ou nos apequenamos a decretar nossa incapacidade de não lidarmos com o que nos ameaça. O irônico é que embora seja difícil nos encontrarmos em qualquer uma destas polaridades, parece-nos mais fácil do que aceitarmos o peso e alcance das nossas ações. Por cômodo equívoco, desconhecemos a exatidão da nossa grandeza. Culpamos o outro pela impossibilidade de não sermos melhores - gritando à vida as injustiças que nos cometeram pela infelicidade que não coube em nossas metades - ou nos projetamos maiores e mais perfeitos: é o outro que erra, não eu; é o outro quem sempre erra, jamais eu. Não assumimos a paternidade dos monstros por não querermos que eles nos devorem, quando na realidade é por aceitá-los na nossa casa que então na hora certa poderão partir. Nós que estamos tão certos de tudo e não sabemos fazer nada, nós que buscamos o céu mas não sabemos o que fazer quando perdemos o chão, cumpre lembrarmos aquilo que nos conta a alma: as sombras nos gritam certezas, a luz nos sussurra verdades. 

Afinemos os ouvidos.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Zona de conforto...

Sair da zona de conforto nos pede energia, tempo, paciência e coragem. A energia equivale ao impulso para sairmos na busca de nós por não aceitarmos mais aquilo que não nos serve. O tempo como cenário para nossas transformações, feitas elas de ensaios, erros, acertos e recaídas; elementos inevitáveis e necessários do caminho. A paciência como companheira a lembrar-nos que devemos ser bem menos imediatistas e mais amorosos conosco. E coragem para atravessá-la tomando ciência destas nossas fragilidades e aceitando-as com amor as partes nossas que deixamos por tanto tempo no porão, em razão dos medos, condenações culpas e outras inconsciências de que nos cobrimos. O amor servirá para amarmos esta versão de nós que ainda culpa e se culpa, condena e se condena, sente medo e não se permite ir além de onde se está sem florescer.

Leva-se tempo para aprendermos a olhar para cada uma destas partes que por tanto e pela conveniência das nossas misérias acabamos por ignorar. Leva-se tempo para aprendermos a nos perdoar, já que o perdão permitirá olharmos mais e com mais nitidez e ainda mais amor para estas partes. Leva-se tempo para metabolizarmos a compaixão e podermos nos abraçar hoje por inteiro.

Isto equivale a sairmos da zona de conforto: sairmos das nossas velhas crenças e ideias sobre nós mesmos que impedem respirarmos aconchegados em nós, lançando-nos para um caminho sem planejados roteiros, mas que definitivamente haverá de nos oferecer entre o nosso próprio amadurecimento, frutos muitos, alturas tantas e outras riquezas que merecemos

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Dos essenciais vocabulários de dentro...

Saudade: unidade de medida para os vazios da alma que nos trouxe o tempo.

Dor: limitação e justificativa da alma para não sentir, vestir, saber ou cultivar o amor em si, e por isso partir, temer, morrer, mentir, não se despir e não se entregar no verbo amar.

Alma: dimensão de nós que habitam os milagres e os pontos de interrogação. A promessa da semente e a dor depois do espinho. O que antecede os tempos e justifica quaisquer memórias. O elo entre as irmãs pedras e arcanjo. O olhar ante o pecado e o perdão, a escolha ou a omissão, o suspiro ante o medo e o encanto. A inexata resposta da reflexão. Aquela que garante a existência do amor em nós.

Amor: inevitável milagre que nos seus primeiros sabores e tons nos iniciam os outros. Sentir de personalíssima definição que orbitam os poetas e que conhece apenas o peito que sente.

Ego: aquele que guarda para si o melhor para depois, anunciando orgulhoso que guarda mais do que realmente tem e ao final se desilude, por esquecer o lugar de dentro onde acreditou que alguma coisa havia guardado. Ver também: ilusão.
Ilusão: dentro de nós é a força do desnecessário. A sombra em que adormeceram sejam olhos ou o peito. Véus despercebidos ou muito bem escolhidos. A irmã mais velha do erro. Alimento que não sacia, a cama que não descansa. Remédio amargo, sem data de vencimento ou de cura. Ver: Ego.

Mentira: facilidade para lidarmos e ajeitarmos a realidade conforme nossas conveniências ou necessidades; maneira de desculpar o engasgo das nossas virtudes. A prima-irmã do medo e intérprete das fragilidades. Usada quando evitamos assumir ou atravessar erros, coragens e a própria verdade, isto é, os compromissos que estabelecemos conosco e com o próximo. Embora possa ser usada de maneira abundante, custa-nos algo a ser cobrado sempre em algum momento no futuro.

Modéstia: fina cortina que ao mesmo tempo oculta e transparece, seja uma virtude, seja um talento; podendo também esta mesma cortina transparecer o nada que lhe oculta, sendo falsa a imagem porventura anunciada visto que inexistente. Ver: Ego.

Milagre: A dimensão do encantatório e dos impossíveis que nosso nome sabe mas espera-nos para visitar-nos quando à vida nos entregamos e nos permitimos. Ver também: merecimento e amor.

Merecimento: A primavera após o inverno. O dia depois da noite depois do dia. O destino que conseguimos carregar nos bolsos; o inevitável sempre diante de quem somos. O resultado das nossas ações despido dos acessórios da contrariedade e da reclamação. As exatas matemáticas da alma.

Definição: uma articulada tentativa de explicar à alma através das razões, as verdades que desde sempre já sabíamos.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Agrotóxico...

O cabra:

  • fuma mais que puta apaixonada;
  • bebe diariamente um caminhão-pipa de café;
  • tonéis de aguardente vagabunda;
  • miojo e bacon são seu segundo nome;
  • come frituras e doces como se não houvesse o amanhã;
  • sedentário;
  • viciado em trabalho e Coca-Cola;
  • tem um encosto de estimação;
... e vive pleno até os 145 anos;

O outro cabra:

  • não fuma, não bebe, dorme cedo;
  • medita;
  • abraça árvores;
  • toma chá-verde;
  • evita glúten;
  • leite sem lactose;
  • carboidrato só até às 18h;
  • ouve música clássica;
  • fitness;
  • entusiasta da acupuntura;
  • faz oficina de arte com garrafa PET para desestressar;
  • aplaude o nascer do sol;
... e tem todo tipo de enguiçamento, ziquizira e alteração possível nos exames médicos. Tá quase dando a mãozinha pra São Pedro antes dos 50.

Deve ser o excesso de agrotóxico nas verduras e frutas que consome.
Só pode.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

A sério...

Perguntei-me o porquê 
de todos os meus caminhos 
darem no mesmo.

Percebi que era eu o mesmo 
a perguntar-me o porquê 
depois de cada caminho.

Pois não poderia o mesmo 
prever outro, 

nem o outro 
dar no mesmo.

Não mais me levei a sério.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Das despedidas...

Eu nunca saberei como me despedir de ti, visto que não há chance ou ensaio em que eu saia inteiro. Despedir-me é a renúncia de parte do amor que parte e deixa uma lembrança de nós dois. Despedir-me de ti é o mesmo que abrir mão deste meu lado feliz e satisfeito com o mundo, em troca da versão chorosa e arredia de quem ficou preso e perdido pelo caminho. Sobrou-me anestesiada esperança e uma metade que respira mas não sente, que caminha mas não sonha. Hoje sou árida mansidão, um homem sem pressas nem vontades. Sinto dores por não saber no amor ser temporário, e com os vazios no lugar de ti, restam-me todos os desamanhãs. E não irei sorrir nem prosseguir com o que escolhi deixar imóvel no instante em que te encontrei. A tua despedida de amor foi um jeito de morte, e por vezes deveríamos saber fazer qualquer coisa contra o inevitável em nós que não nos desague na tristeza. Eu não soube ser diferente, então a vida irá chamar mas não responderei, enquanto o peito estiver ardendo a sua falta. Eu não previ nem me preparei para o que serei na tua ausência. Depois de ti, ganhei eternidades quando talvez só me reste o tempo. Sou um fiel exemplar dos que não sabem o que fazer depois que o amor vai embora. Serei assim para sempre, morna metade e mais de um mesmo que não convence. Um estado de espera para sonhar e viver outra vez. Agora que regresso aos meus habituais abismos, espero, com braços que não se cansam, com desejos que não secam, por um amor que não muda mesmo quando a lua é outra, ou quando a vida inventa um novo jeito de seguir. Quem sabe um dia eu possa nascer pedra enquanto você flor, pra te namorar sem doer entre os silêncios do jardim e primavera, dessabido da língua das saudades que invernam os homens.

(Guilherme Antunes & Camila Heloíse)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Deus qualquer...

leio para iludir-me
leio para tombar-me nos mistérios
leio para por-me na boca dos pássaros
leio para que as dores
sejam mastigadas
pela boca misericordiosa
de um deus
qualquer.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O que nos falta...

Não é amor o que nos falta, não. Toda gente tem amor, esse sol que é sempre sol, é da natureza dele ser assim. O que varia, como variam os instantes, é a quantidade de camadas de nuvens de confusão, de ignorância, de raiva, de medo, que o encobrem. Tem vez até que acinzentam o céu todinho pra depois fazer a vida chover torrenciais embaraços. Tudo bem, chuva sempre passa, tempestade que seja.

Não é amor o que nos falta, não. O que, muitas vezes, nos falta é soltura. É expressão. É desarme. É poder dançar com a vida sem passo marcado. É parar de dar trela pra bobagem. É desacreditar que somos especialistas em afeto. É parar de julgar. É parar de encher barriga de dor. É mudar a faixa do CD que canta o passado com drama.

É escolher deixar de chorar pelo sofrimento vivido em 1815. É levar luz pra conversar com a sombra e deixar que as duas se entendam e se tornem amigas. É a ousadia de descolar o umbigo de qualquer orgulho, arrogância e redondezas.

Não é amor o que nos falta, não. O que, muitas vezes nos falta, é perceber que os relacionamentos são mais vivos tanto o quanto são imperfeitos porque perfeição, no contexto humano, é quimera. O amor é perfeito, mas nós, seus recipientes, ainda não. Dizemos tolices, fazemos tolices, quando queremos apenas dizer a nossa admiração ou gratidão ou encanto ou tudo junto.

Todos nós falhamos no amor, e às vezes falhamos muito, mas o que continua a nos mover, mesmo quando nos atrapalhamos, eu acho, é o destino de acertar cada vez mais um pouquinho. De soprar mais um pouquinho as nuvens. De deixar o nosso sol dizer mais um pouquinho o seu tamanho todo.

Não é amor o que nos falta, não. O que, muitas vezes, nos falta, é a capacidade de perdoarmos a nós mesmos e aos outros.

Perdoar com a consciência da terna compaixão, da generosidade, da empatia, porque muitos de nós vivemos boa parte da vida como sóis culpados, como sóis assustados, mas todo sol, por trás de toda culpa, de todo susto, de qualquer enganosa aparência, quer apenas sorrir o seu lume.

Às vezes, apenas ainda não sabe como. Saberá. É da natureza do amor. 
O que nos falta não é aprender o amor. O que nos falta, sobretudo, é desaprender o medo. 

Nisso também, não importam os enredos, estamos todos juntos.

(Ana Jácomo ::: Um carinho que ganhei de suas mãos e que depois de tanto tempo cá comigo decidi semear aos olhos que precisam se encontrar com ele. Assim como um dia ela semeou aos meus. Espero que me perdoe)