domingo, 31 de janeiro de 2016

Óbito...

"O amor morreu". Assim, decretei a morte do amor. Como riacho que esqueceu de seguir e definhou, como tarde que desacreditada anoiteceu. Como lágrima seca ou batom gasto, o amor morreu estirado no chão do cansaço. O amor morreu porque matei o amor. Deixei-o morrer ferido por descaso, dissolvido no abandono. Quanto não gargalhei quando avisava o amor sumir em razão da minha própria ausência. Maltratei com meus medos, controles e farpas. Torturei com jogo de palavras e invertendo os papéis, fiz acreditar que a culpa era sempre do amor. Joguei todo o meu peso em cima dele e o acusei de não mais me trazer levezas. Eu perverti o amor. O amor morreu porque o destrocei com minha boca cheia de dentes e vomitei verdades; aniquilei com meus sintomas de boicote, assustei com meu vício de não se contentar, envenenei com meus egoísmos cotidianos, deixei-o distraído na esquina para me divertir com meus convites todos errados. Escolhi o pecado para ser minha amante, despedi o sagrado e escolhi o mundano para ser meu par. Cometi crimes, mas dele não fui cúmplice. Calei sua boca e aleguei legítima defesa dos meus erros. Cuspi e menti porque ele era meu, e sendo meu, achei que pudesse fazer o que bem quisesse. Esqueci do detalhe que o amor tem vontade própria e dói muito facilmente. Eu o expulsei de mim a suaves pontapés, pela repetição das imaturidades, com destrambelhamentos emocionais e caprichos desnecessários. Bati a porta na sua cara. E ela foi embora como se não houvesse ninguém para esquecer. Nem a escuridão me sobrou, nem a saudade quis ficar. Nunca mais eu matei, nunca mais pude amar.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Se escute...

Há sempre algo para ouvirmos em nós e em nós nos reconhecermos.

O que nos pede o corpo? O que nos aponta a ansiedade? O que nos cala o medo? O que grita a raiva? O que nos revela a dor? O que esconde o orgulho? O que oculta o egoísmo? O que mendiga a carência? O que exigem os ressentimentos? O que nos confessam os sonhos? O que nos avisa a intuição? O que nos fala o espírito? O que nos demonstram os barulhos? O que nos ensinam os silêncios?

O que é o desequilíbrio senão linguagem a avisar-nos sobre aquilo que não ouvimos?

domingo, 24 de janeiro de 2016

Sopro...

Ensinou-me o seu amor com carinho de vento a soprar cortinas e varrer tristezas.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Enquanto isso...

Quão insistentes somos com coisas que jamais deveríamos insistir? Insistimos, por exemplo, em esperar que aquela versão que um dia fomos e tanto gostávamos - mais segura, menos ansiosa, mais leve e independente - possa voltar. Enquanto isso, nos adiamos. Por não nos sentirmos com os dois pés no próprio existir, nos encarceramos nos ideais do que se deveria ser, prendendo-nos nas certezas que adotamos para não lidarmos com a inexatidão da vida que nos porá em xeque caso permitamos abandonar o controle daquilo que não é possível controlar: a vida mesma. Eis a rotina, que reduzimos o viver como repetição a dar-nos a segurança pelo falso controle que sentimos. Enquanto não nos reinauguramos num futuro tão bom ou melhor quanto o próprio passado, nos consolamos com estes controles a nos ocuparmos e distrações a nos aliviarmos de algum vazio - feito ele de tristezas, ressentimentos, culpas, medos, inseguranças - que preenchemos com comida, sexo, compras ou alguma outra fuga ou compulsão qualquer. E pelo tempo que amontoa em cima das nossas cabeças o que não queremos ser, resistimos às verdades com mentiras tão sinceras quanto, a nos sentirmos próximos de um alívio que perseguimos e ao mesmo tempo ignoramos. A resistência em doer é por vezes pior do que a própria dor, ou seja, convivemos com dores para evitarmos outras, antecipamos o sofrimento para evitá-lo, sem precisarmos lidar com o que enxergamos como erro, feio ou inadmissível em nós; sem precisarmos perdoar e libertar, ir embora e a dizer não. Adiamo-nos pela inconsciência que insistimos contra o que poderemos vir a ser e perder o que provavelmente não nos faria falta. Assim, continuamos a fazer coisas e usar dos hábitos que mais queremos nos livrar, tentando evitar o que já nos aconteceu. Estamos vivendo ao contrário, sobrevivendo porque acreditamos que voltaremos ainda a viver com a luz que se estilhaçou em algum momento da nossa história, enquanto morremos um pouco mais e mais cegos a cada dia, sem sabermos que a questão é olhar para além dos olhos para enxergarmos a nós mesmos de forma honesta, já distantes dos monstros mofados que um dia entulhamos dentro.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Rascunho de si...

Qual escritor não teme que suas ideias sequem no chão de suas palavras e se torne ele uma aridez? Que a inspiração dê seu último suspiro, a poesia despeça seu encanto, a palavra seu charme e as mãos sua colheita? Teme o escritor não saber mais descrever suas próprias dimensões pois, despido do papel de homem, vive para realizar-se naquilo que escreve. Reconhecendo seu próprio sentido no espelho das letras, escreve o homem para não ser apenas um rascunho de si mesmo. Assim, escreve o poeta suas imensidões para ser maior que o mar, e salvar-se para além do horizonte do possível. Desespera-se em se tornar riacho, resumo, raso e sem rumo, nas linhas do seu próprio destino.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Liberdade...

Anunciamos verdades como se apenas por anunciá-las, verdades se tornassem. Buscamos legitimar palavras somente por declará-las, para acreditarmos nelas e por consequência em nós mesmos. E por acreditarmos nelas, legitimamos a nós mesmos pelas palavras que falamos, criando círculo vicioso a convencer-nos do que não somos como se fôssemos, e do que não temos como se tivéssemos. Vejam, a liberdade, visto que é assunto em qualquer lugar que se olha, mas que não se enxerga, mesmo que nela e por ela nos afirmemos, seja em mesas de bar ou de jantar. Tal qual felicidade, reduzimos a liberdade à mera palavra como estratégia para nos levarmos a muitos lugares, exceto a nós próprios. Vivemos na superfície da palavra, morando em sua idéia e a vendendo, fazendo dela sinônimos do que ela não é. Queremos ostentar pela aparência do que, na verdade, não é necessariamente aparente. O que se pode saber pelas fotos das festas e viagens? Quais garantias temos de saber que aquele que fez ou deixou de fazer é, por esta razão, livre? Mudamos os relacionamentos, mudamos o estilo, mudamos de casa, de chefe e não encontramos a paz. Dizemos o sim para o não e o não para o sim e não encontramos silêncio. Modelamos o corpo e não encontramos alma. Repetimos os dias e não encontramos sentido. Viajamos para os mais belos lugares e nos acompanham as nossas misérias. Talvez, para além das fugas e distrações, liberdade seja a coragem em olhar-se para o que não se aparenta ou se declara, encontrando-se com seus erros, culpas e fracassos; com a sua própria fragilidade. Por isso, liberdade tem aquele que pode despedi-los de si. A liberdade tem aquele que perdoa a si e ao outro. Vive a liberdade aquele que se permite sentir, ciente de que não é preciso ser e estar por qualquer conveniência. Pois liberdade não trata de ignorar, mas de compreender. A liberdade é, sobretudo, aprender a atravessar os próprios medos e inquietações para encontrar-se consigo. Embora seja comum que o primeiro encontro conosco seja no caminho da contramão.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Da mística...

A felicidade fruto do amor é um privilégio porque singular. Trata-se de um vislumbre e de um convite em que se acessa a dimensão que somente e através do amar é possível: a dimensão transcendente dos sagrados, visto que há na resoluta e inteira entrega a absorção do amante no ser amado, experiência insólita, convenhamos. Pela natureza do amor, este revela, transforma, restaura, encanta, dissolve e perdoa. O amor que aqui discorro confunde-se com a devoção do homem que busca encontrar o sagrado não apenas no ser que individualmente ama, mas na oração, na prática da caridade ou na meditação. O amor entre dois como comunhão poderá brindá-los com o lampejo da lucidez em saber-se que o amor para além de dois abarca e constitui a relação entre todos os seres, revelando o plano vertical da existência, não estando mais restritos a horizontalidade que atravessamos todos no espaço e no tempo. Em outras linhas, o amor há de nos conceder eternidades. O que aqui digo em parte é experiência e confissão, em outra suspeita, em outra esperança. Por isso creio que o amor poderá ser a ponte para além das formas, a porta para o que forma não possui, mas que por necessidade nomeamos como vida, supremo, realidade, Deus, etc. O amor retira-nos o véu e dá-nos as verdades na beleza oculta das coisas mesmas.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Despertenci...

Assim, fui me despertencendo dos lugares aos quais nunca pertenci. Os encontros, mulheres, trabalho, as madrugadas, as conversas, as dores, as casas, os jogos, as lágrimas e os elogios eram-me a soma dos anos tornando-se névoa, que poderia eu atravessá-la a qualquer tempo sem nada levar senão a mera sensação de umidade, a confirmar não apenas sua existência, mas a minha própria. O meu rito de passagem era como despertar-me de um conjunto de clichês para uma fábula. Eis o efeito do amor: ganhar a vida um índice e capítulos a serem lidos e, por isso, descobertos para os adiantes, depois de um único e confuso prólogo escrito até então pelas muitas versões de mim. A travessia era ao mesmo tempo a despedida de um passado feito de fragmentadas memórias, para uma lucidez aguda de um cristalino agora a exigir-me urgentemente minha inteira presença para o que me foi reservado. O tesouro relevou-se outro então, não pelo que guardei comigo até ontem por estratégias ou conveniências, fossem elas do prazer, da dor, da esperança ou das idealizações do meu "eu", mas a possibilidade real de que, mais ciente e consciente de mim, poderei vir a ser e estar, enraizado cada vez mais naquilo que verdadeiramente sou.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Casa...

[...]
Deito palavra no papel a pedir ao céu para regar teus pés a te confundir com as flores. Quero vir colher-te no poente dos dias enquanto atravesso o caminho torto dos agoras para o teu amor amanhã me endireitar. Despertarei mais cedo apenas para o meu amor beijar-te antes do vento. Dormirei mais tarde para namorar teus sonhos. E quando chegares, entra, para que tua alma se ponha no meu corpo e possa eu realmente viver. Quando chegares, entra.

Sinta-se em casa dentro de mim.

(para ela; para Anna)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Notícia...

[...] negar algum aspecto interior que nos incomode será - de alguma forma - negar a nós mesmos. A negação não fará com que o que é negado seja despejado de nós, mas apenas posto de lado para não olharmos aquilo que não queremos olhar. E não olhar para algo de si é não olhar para si, como breve alívio pelo que recusamos habitar em nós.

A notícia é: voltarão nossos inteiros exigindo as metades todas que fracionamos; ou melhor, voltarão nossas metades todas exigindo sermos inteiros. Nada poderá ser despejado que antes não seja (re)conhecido.

Como isso se dará já anunciam nossos sintomas.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

A soma...

A soma das nossas escolhas denuncia quem somos. O conjunto das nossas escolhas reflete o desenho que nos confessa. A soma das nossas escolhas - especialmente aquelas cotidianas - por vezes compromete muito mais a gente com a gente mesmo do que uma escolha grande e planejada. Será o conjunto das nossas escolhas a nos escolher para a direção dos nossos destinos.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Com o que se viveu...

(Tattoo da Francielle Freitas de uma frase minha)

Se costurou na fé para dela nunca mais se perder; 
no amor próprio para no impróprio não mais se prender; 
de sonhos para na rotina não mais se arranhar; 
no perdão para sentir-se em paz se errar. 
Se costurou com a própria luz para sempre ela amanhecer;
à esperança para na tristeza não só sentir doer;
 com a linha da vida para no amanhã se abençoar;
e com o que sofreu poder de vez cicatrizar.

E pelo que ontem morreu bordou-se hoje sua lembrança:
"Se costurou com o que se viveu"

domingo, 3 de janeiro de 2016

Amanhã...

O amanhã como desculpa. A desculpa como esperança. A esperança como desculpa para adiarmos. O amanhã a servir-nos como promessa de encontro com a versão mais inteira de nós. Amanhã faço, realizo, aconteço. Amanhã serei mais saudável, mais tolerante, mais autêntico. Amanhã falo com o chefe, ligo para os meus pais. Amanhã serei menos distância, menos multidão, ansiedade, medo, tristeza, menos estrangeiro no próprio peito. Amanhã salto, insisto, persisto, cicatrizo, desculpo, permito-me. Amanhã serei mais justo, menos ingênuo, mais sereno, menos só. Amanhã porei um ponto final nas minhas já cansadas reticências. Amanhã riscarei travessão para dizer das minhas ensaiadas coragens. Amanhã, deixo claro e me declaro para ela. Amanhã, perdoo-me. Amanhã, amanheço. Hoje, não. Hoje é prosa. Amanhã, poesia. Amanhã mais fácil, mais dócil, mais doce. O futuro como pretexto para não ser presente e o amanhã como prato principal para qualquer virtude ausente. O amanhã em que me orgulharei de mim. O amanhã que me ocupo enquanto o hoje me atravessa, me escapa e me desocupa. Hoje, não. Amanhã, sim. 

Ou vice-versa.

sábado, 2 de janeiro de 2016

Poeira...

Nós somos, inclusive, toda a poeira debaixo do tapete que ao longo do tempo varremos para lá. A diferença é que isto nunca se tratou de algo para agradar qualquer visita, mas para agradarmos a nós mesmos pelo medo e pela vergonha do que poderíamos pensar a nosso próprio respeito.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Caminhar...

Que o velho morra para dar lugar ao novo
pois toda morte é um renascimento.
Que eu possa ir fundo, dentro de mim, para poder tocar o céu,
Que eu possa alcançar o horizonte,
Que eu possa ter tempo para tudo aquilo que deixei de realizar, e que poderia fazer a Qualquer momento;
Que as horas passem devagar quando precisem, os dias menos depressa.

E que eu possa conquistar o atemporal. Não pelo que eu faço, mas por quem eu sou.
Além do sucesso, minha integridade. Além dos objetivos, minha inteireza.
Que eu possa perceber que sou eu quem carrego a chave das próprias prisões que crio

E que eu me liberte, livre do medo, da angústia, da aflição
E neste vôo, possa lançar as sementes do amor.
Amor que todos devemos cultivar.
Além da bela silhueta, além dos preciosos amigos, além de qualquer explicação ou teoria lógica e lapidada.
Além de belos títulos de livros ou filmes. De boas marcas. De comentados lugares.
Eu possa me encontrar. Em tudo aquilo e mais um pouco. Ou menos.
E que eu possa refletir, como um espelho, todos a minha volta.
Que o porvir possa acalmar a ansiedade do dever-ser e do vir-a-ser
Porque eu ainda não sou, nada além, do que eu já sou.
E em mim, tudo basta. Mesmo quando me sinto vazio.
E que, diante do vazio, eu não me preencha com mais dele.
Mas possa decorar minha mente e minha alma de boas conversas, de poesia, de paisagens, de comida frugal e música, daquelas que tocam o ser.
Que eu aprenda a perdoar, primeiro a mim, por não saber perdoar.
Que eu lembre do melhor e esqueça o necessário.
O desnecessário para crescer. Pois crescer é inevitável.
E que o inevitável venha. E assim, eu aprenda a aceitar.
Que eu possa criar. Que eu volte a ser quem eu nunca fui, e quem um dia eu deixei de ser.
Sorrisos e lágrimas. Criador e criatura. Céu e terra.
Que os monstros se tornem disciplina e Compaixão.
Tenho equilíbrio. Procuro por mais.
Equilibrei-me por desequilibrar-me.
Além das palavras, o agradecimento contido em cada uma delas.
Pois é a experiência que me brinda com a realidade que me envolve.
Escada de degraus infinitos.
Um recomeço de um caminhar eterno.
Abençoado, próspero, tranquilo. Para mim e para você.
Só para você.
Só para mim.
2016.




"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente".  (Carlos Drummond de Andrade)