domingo, 11 de dezembro de 2016

Resoluções...

Aquele frio que lhe cortava a alma era vento forte de tempo fechado ou desilusão dos sonhos bonitos de ontem? Pois, insensível aos apelos do porvir, andava cego às gentilezas da vida e surdo às do coração. Abrigou da dor, no seu colo, a própria vida. E cansado de ser mau jardineiro a pisotear as flores que o tempo um dia o brindou com sementes muitas, queria agora curar feridas. Queria voltar a ser quem nunca foi e aprender o que ainda não havia aprendido: saber que no palco da vida ele é seu único e próprio antagonista. Cansado de refletir tristezas, passou a espelhar em si, amor. Há ainda de reconstruir caminhos antigos por onde a serenidade trilhou: a denunciar pelas suas próprias confissões a sua fé e a sua vontade de recolher por lá amor hibernando a despertar faminto. Queria também trazer você pra perto e fazer do seu colo, confessionário. E dos seus olhos, o seu espelho; da paixão, o seu abrigo; e do céu, o seu telhado. Carregava consigo tantas vontades engarrafadas a guardar em vidro bonito o seu carinho para aqueles momentos em que o cansaço mais chama o nosso nome. Salvar-se-ia de vez, daqui pra frente. E sem resoluções a fazer ele só queria se olhar e descobrir quem ele era de verdade.

(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 16.12.10)

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