domingo, 4 de dezembro de 2016

Má proprietária...

Desconfiada e incomodada pelo silêncio, fazia questão de distrair-se com as inevitáveis vozes vindas do interior de si, a dizerem-lhe tudo, explicarem-lhe tanto, falarem demasiado sem resolver-lhe nada. O silêncio lhe era uma angústia porque ouvi-lo seria equivalente a escutar-se. O medo era de que pudesse ouvir sabidas feiuras e insuspeitas virtudes: tanto umas quanto outras jamais bem vindas desde miúda. O silêncio era uma liberdade que não alcançava. A liberdade que dizia não conseguir. A liberdade evitada sem suspeitar que evitava. Sua perteza e já começavam ansiedades e outras distrações. Ouvir-se seria ver-se. Ver-se seria sentir-se. E saber-se. Saber dos ocultos enganos que com a personalidade se confundiam. E despejá-los como inquilinos do próprio peito. 

Má proprietária.

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