sábado, 31 de dezembro de 2016

Que assim seja...

Que entre as folhas do teu calendário habitem seus novos sonhos. Que a partir de hoje os dias sejam mais seus. Que você se lembre que há sempre mais coisas a se pensar e a se fazer do que coisas já pensadas ou decididas. E que por isto, você abençoe seus amanhãs. Abençoe também a sua rotina, mas a evite o quanto puder. Que você possa respirar macio como não respirou no ano que passou. Que você não se afogue no mar da vida e que guarde espaço e tempo para os suspiros e estratégicas faltas de ar. Que os passos sejam mais leves. Que tenha boa saúde para ser quem se é por inteiro e ir atrás do que se busca. Que a vida lhe dê bonitezas e caminhos muitos em que as certezas caibam melhor. Que o amor possa preencher tua agenda de compromissos, taças de vinho e perdão. Para os próximos capítulos, mais intensos e transbordamentos; menos excessos. Mais frutos, sementes, planos e 'de repentes'. Mais poesia, corpo e alma. Mais entregas e menos metades. Mais abraços e menos saudades. Mais vôos e pés no chão. Sorrisos e cheiro de terra molhada, bebês, incensos e de quem se gosta. Mais livros, destinos, menos despedidas. Que você seja dono dos melhores pensamentos sobre si mesmo. E que a gratidão atraia sempre mais coisas pelas quais seremos gratos. 

Que assim seja...

(Guilherme Cardoso Antunes, vulgo "eu", em 04.01.2013)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Calendário...

Às vésperas de um novo ano, escutamos com maior atenção as interiores vozes que nos permeiam, ao amansarmos acumulados cansaços de um ciclo que se encerra. As verdades que nos sempre falam mas que abafamos por inúmeras razões, contam-nos agora com estratégica intensidade, das esperanças que retornam com fôlego e força para cumprirmos os compromissos e promessas que nos justificam sobre este chão. Assim, cabe à poesia trazer à claridade, as marés que nos compõem. E diz ela, primeiramente, que nos tornemos mais nós mesmos, ainda que para isso precisemos despedir uma boa parte do que somos. Que o espelho não seja causa de grandes importâncias ou preocupações mas, seja nosso reflexo, o fiel confessionário dos nossos contornos. Agigantemos os sonhos, patrocinemos nossas coragens, não respeitando as demandas da tristeza, mas acolhendo toda e qualquer lágrima que justa resolver nos visitar. Recusemos ao máximo com ensaiada disciplina, os círculos viciosos das paixões que nos custam saúde e equilíbrio emocional. Desapeguemo-nos do que tem verniz de amor mas é carência, medo, controle ou egoísmo. Aprendamos que a inveja é sintoma de imaturidade, devendo ser tratado quem sente com doses de generosidade e paciência. Aceitemos sempre - e desarmados - os elogios que nos dedicam, separando com prudência as sementes do bem querer das más ervas da bajulação interesseira. Quando necessário falar, cuidemos para não declararmos uma verdade que não tenhamos certeza que será verdade amanhã também. Saibamos que sem quaisquer objetivos e pelo acaso poderemos ser carregados. Não atribuamos ao azar o que é de nossa responsabilidade. Curemo-nos nas despedidas, curemos o próximo pelas chegadas. Que possamos ser como a gota d´água que, mesmo diante do imenso mar, ainda tenha o que lhe acrescentar. Que daqui pra frente possamos juntar coragem suficiente para aquelas decisões e riscos que a vida nos pede para nos fazer mais felizes. E se inevitavelmente e por acaso a dor em nós tardar, que por ela amanheçamos.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

No varal das coisas ditas...

No varal das coisas ditas, estendo a gratidão aos olhos cúmplices que visitaram meu quintal ao longo deste ano. Agradeço a generosidade daqueles que nas letras em que costurei meus aconchegos, nelas também se descansaram. Agradeço aos que fizeram da palavra a ponte para afinados encontros. Aos que mesmo sem saber, tomaram minhas sementes para além dos meus limitados horizontes, expandindo-me nos literários reinos que transitamos todos. Agradeço por me permitirem ser um pequeno tradutor das suas imensidões, confessionário das marés interiores, delator eleito pelas próprias tempestades que acabamos por celebrar ao reconhecê-las no espelho da literatura. Agradeço àqueles que sei dos seus nomes e àqueles que de nada sei e que de alguma maneira igualmente me atravessaram. Peço dirigido perdão a todos aqueles que na minha vida pelas palavras os fiz pequenos, fazendo-me ainda menor por isto, ferindo pelo que deveria dizer quando nada disse ou pelo silêncio que deveria ser o único a ser declarado, mas por mesquinhez o calei. Que eu possa ser versão mais nobre de mim, refletindo mais as virtudes do que as sombras, nas palavras que pelas linhas e boca ainda me pertencerão.

Gratidão.

Crenças...

Buscadora de si, pisou na areia com pés firmes, abrindo mão dos falsos atalhos que escolhera. Navegou por toda sua vida de antes, com velas içadas a ser levada pelo sopro de outras vozes, ideias tantas e conselhos muitos. E assim, chegando onde não queria, alcançou lugar nenhum. Hoje era o primeiro dia de um ano inteiro a lhe revelar o novo e, entre todos os que lá estavam a contemplar céu colorido e beber champanhe, esperava ela sua primeira promessa do porvir vinda de dentro. Queria traduzir-se amanhã e depois em muitas versões de si mesma, a desmentir o velho triste e a colher próspero interior a florescer madurez. Cansada de levantar muralhas a cobrir o infinito das bençãos procuradas ou, de querer saber qual lado da moeda se irá mostrar, abandonou seus pedaços, seus cacos e suas crenças: pular sete ondas, acender sete velas, colher sete rosas, dar três pulinhos, notas no sapato, lençóis limpos, comer lentilhas, romã, uvas, folhas de louro; não mais entregaria ao destino a boa sorte. Agora, era ela a boa sorte a não mais esperar o mar lhe trazer conchas bonitas ou pedras opacas; resolveu decorar ela mesma de formas novas e cores outras a sua vida. Remaria contra a maré, mas com o vento a seu favor.

(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 05.01.2011)

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Dependesse...

Ele aguarda. A cerveja gelar. O pagamento cair. O domingo para esquecer. O e-mail. A campainha. A encomenda. O aniversário. O jogo do campeonato. O sexo casual. O resultado dos exames. O final do ano. O começo das férias. Cada noite de sono. Cada cigarro aceso. E a cada amor perdido, ele aguarda sem saber. E na rotina que diariamente o ignora, ele aguarda como se nada aguardasse e de tudo dependesse.

Ele se aguarda. Mas não sabe disto.

domingo, 25 de dezembro de 2016

Anuncia-Te...

Pai, permita-me ser o espelho dos meus escuros e o eco das minhas verdades. Ensina-me a aceitar-me no tempo entre as sementes e a colheita. Dá-me o próximo e os amanhãs para partilhar a compaixão que hoje me faltou. Coloca-me diante dos meus egoísmos para o necessário diálogo com a alma que reage às próprias feridas. Apresenta-me ao perdão que tanto busco, mas ainda não reconheci. Conceda-me a coragem para atravessar os medos. Revela-me os medos para descobrir a fé. Permita-me a gratidão que ontem não enxerguei, e os milagres que à porta não atendi. Abençoa-me através dos silêncios. Anuncia-Te através do poema. Ensina-me o amor como caminho de duas mãos. E permita que ofereça as minhas ao Teu trabalho.

Que eu comece diariamente a partir de onde estou e anuncie adiante a vitória da luz.

sábado, 24 de dezembro de 2016

Perdas & Ganhos...

Afinal, o que ganhamos? O que aprendemos apesar das tolices? O que atravessamos apesar dos cansaços? O que celebramos? O que ganhamos e por que perdemos? Por que falta-nos generosidade e sobra-nos reclamação? O que celebramos, entãoPor que tanta cotidiana maledicência? Por que das invejas? Por que culpamos o outro e a vida pelo que nos dói? Qual momento assumimos a responsabilidade? Por que perdoamos apenas o que é fácil? Por que mais pedimos do que entregamos? Por que corremos pelos dias como se nunca fosse o bastante? O que ganhamos hoje senão o amanhã que se revelará espelho do que somos? O que ganhamos hoje senão o amanhã que revelará a verdade do que viremos a ser? Que ninguém se perca do significado.  

Que ninguém se perca do próprio sentido, porque o mundo começa e também termina a partir de cada um.

Amor...

Que amar nos seja um verbo constante.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Vésperas...

E foi então que ele a notou e depois que a viu passou ali nada mais notar. Entre todas se destoava. Entre tudo se sobressaía. Teria a sorte lhe aprontado assim, tanto? Sem ensaio, sem dar aviso algum da sua visita? Ela estava ali, para ele e, delicada, veio com um sorriso de salvar-nos da tristeza, com perfume de levar-nos aos mais distantes paraísos. Arrebatado, lia todos seus movimentos em tons de encanto e mais fácil se apaixonava. Pensou no que dizer, mas não disse nada. Aliás, disse, ao respondê-la sem prestar atenção nas palavras e na pergunta solicita dela. Sem perceber que hoje e tão somente hoje ela atenderia a todos os seus pedidos. Ignorou saber pelo turvo fascínio exercido que aqueles vivos olhos castanhos a decifrar suas vontades e sua doce gentileza eram apenas truques para conseguir o seu intento. Vender. Ela era definitivamente o seu número. O da sua camisa. E assim se enganou.

Às vésperas do Natal, voltaria para trocar.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

O Verbo...

Pai, verso esta oração pois Tu estás nas minhas mãos assim como eu estou nas Tuas. Vives Tu nas minhas palavras assim como em Ti eu também sou verbo. E nos meus olhos, és a semente que confessa a cor dos frutos, o nome de um rio que se rende ao mar, o filho pequeno que abraça a mãe. Pela Tua palavra aprendi a respeitar o inverno, esperar pela primavera e aceitar minhas colheitas; aprendi a ser verão e a voar com as andorinhas. Abençoa-me como abençoas o grão de areia, o vento e as estrelas, pela igual oportunidade de habitar a Tua casa. E que o eterno em mim se anuncie, afastando o veneno do meu sangue, os espinhos das minhas flores, o egoísmo dos meus amores e as lanças das minhas mãos. Torna-me doçura quando eu souber ser só amargo; torna-me cura quando souber ser só destruição; torna-me descanso para vestir todos os meus sonhos e torna-me amor, como resposta para cada pergunta da vida. Conceda-me todas as sombras da floresta para eu caminhar com a minha própria luz. E se eu cair, ferir, morrer, matar, sofrer, perder, errar; perdoa-me com o recomeçar, com o novo, com a coragem, com a gratidão por tudo aquilo que fui e pelo que ainda serei; e também com a certeza de que o Senhor é meu pastor, e nada me faltará.

domingo, 18 de dezembro de 2016

O sol...

O amor revela-se o mais importante começo de nós.
Se fazendo preciso esperarmos
como que distraídos à porta de casa.
Como se nunca 
se ausentasse o sol.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Aconchego...

O meu amor
tem jeito de riacho e bebe da vida com as mãos
tem aconchego de rede
abraço de pracinha de cidade longe
e caminha como se cirandasse.

O meu amor
gosta de brincar no colo preguiçoso das manhãs
é digna de ser borboleta num final de tarde das primaveras
(talvez por isso se assuste tanto com as trovoadas)

O meu amor
tem cheirinho de café, de shampoo e de terra molhada - depende da hora
trança o cabelo como se ajeitasse caminho pro mar.
diz que não canta, mas fala poesia debaixo do chuveiro - eu já ouvi.

O meu amor
antes de deitar, chora porque reza
e chora apenas para continuar feliz.

(À Anna. 16.12.16)

Ao Amor...

Ao anjo que ancorou
em mim
o seu amor

À flor que me beijou
com seu hálito
de céu

À mulher que 
devolveu o peito 
ao seu papel

Ao papel em que
a descrevo um milagre
amanhecida

Ao teu corpo
que lhe conta 
meu corpo
a ser fiel

Aos teus olhos,
alma e peito 
dou-lhes por direito
a minha vida.

(À Anna. 16.12.16)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Nó...

Viver era um nó delicado.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Da dissolução...

caminhar dissolve as dúvidas

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Cantam...

Sabes, aquieta-se o tempo só para admirar-nos
e nos teus beijos em que renasço outro
e nos teus abraços em que refaço o mundo
calam-se os desnecessários verbos e outras mudas certezas,
pois, de sonhos falamos sobre a pele,
os desejos sopramos pelo ar.

Sabes, na tua boca bebo da própria poesia,

e os meus silêncios cantam todos para ti.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Diluir-se...

poesia para não se perder e
diluir-se no cotidiano
aprendeu a me acontecer
no tempo certo.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Resoluções...

Aquele frio que lhe cortava a alma era vento forte de tempo fechado ou desilusão dos sonhos bonitos de ontem? Pois, insensível aos apelos do porvir, andava cego às gentilezas da vida e surdo às do coração. Abrigou da dor, no seu colo, a própria vida. E cansado de ser mau jardineiro a pisotear as flores que o tempo um dia o brindou com sementes muitas, queria agora curar feridas. Queria voltar a ser quem nunca foi e aprender o que ainda não havia aprendido: saber que no palco da vida ele é seu único e próprio antagonista. Cansado de refletir tristezas, passou a espelhar em si, amor. Há ainda de reconstruir caminhos antigos por onde a serenidade trilhou: a denunciar pelas suas próprias confissões a sua fé e a sua vontade de recolher por lá amor hibernando a despertar faminto. Queria também trazer você pra perto e fazer do seu colo, confessionário. E dos seus olhos, o seu espelho; da paixão, o seu abrigo; e do céu, o seu telhado. Carregava consigo tantas vontades engarrafadas a guardar em vidro bonito o seu carinho para aqueles momentos em que o cansaço mais chama o nosso nome. Salvar-se-ia de vez, daqui pra frente. E sem resoluções a fazer ele só queria se olhar e descobrir quem ele era de verdade.

(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 16.12.10)

sábado, 10 de dezembro de 2016

Dos (des)apontamentos sobre o amor...

amar é não ser nunca por inteiro 
não ser jamais suficiente: 
presença, tempo, outro. 
sentir a vida demasiado breve 

solução cega de busca para 
o que nos é incompleto 
temor em perder o pouco que se recebe 
e o muito que se ganha. 

medo de ser aniquilado por aquilo 
que o amor não é, 
sobrando-nos para qualquer serventia 
que não o amar. 

é querer morrer mais tarde, 
é precisar morrer mais tarde, 
é querer chegar mais cedo 

atenuar as pressas 
e sentir pressas. 

após sua partida, 
partimos nós, 

tornando inútil a existência do mundo.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Embora...

o amor
no meu corpo
habita embora
responda pelo
nome
de minha
amada.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Generosos...

Somos generosos dentro das mentiras que habitamos.
Visto que não saberíamos
ser contrários a isto:
questão de dolorosa sobrevivência.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Para te amar melhor...

ando a salvar-me todo dia nos teus sorrisos.
no amor fiz canção 
a adormecer tuas ausências e 
apagar-me os escuros

deito-me apenas para os desejos estendidos no teu corpo.

às noites, em romaria 
venho visitar tua beleza.

sou um ser habitado por teu nome
procurem-me e nela 
e a mim me encontrarão

templo a dispensar-me as preces. 
não os lençóis.

inventei-te antes para te encontrar

escrevo por isso:
para te amar melhor.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Má proprietária...

Desconfiada e incomodada pelo silêncio, fazia questão de distrair-se com as inevitáveis vozes vindas do interior de si, a dizerem-lhe tudo, explicarem-lhe tanto, falarem demasiado sem resolver-lhe nada. O silêncio lhe era uma angústia porque ouvi-lo seria equivalente a escutar-se. O medo era de que pudesse ouvir sabidas feiuras e insuspeitas virtudes: tanto umas quanto outras jamais bem vindas desde miúda. O silêncio era uma liberdade que não alcançava. A liberdade que dizia não conseguir. A liberdade evitada sem suspeitar que evitava. Sua perteza e já começavam ansiedades e outras distrações. Ouvir-se seria ver-se. Ver-se seria sentir-se. E saber-se. Saber dos ocultos enganos que com a personalidade se confundiam. E despejá-los como inquilinos do próprio peito. 

Má proprietária.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Tempo lento...

As verdades acalmam-se sempre em tempo lento. 
Assim, seguem as tristezas a se diminuírem 
na razão direta do que dentro 
se revela.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Dezembrar...

Havemos de dezembrar. Dizia eu. Faltava pouco para o fim do ano. Era o meu pai, nos tempos de maior conversa, que o pedia. Depois de cada dificuldade, esperava que dezembrássemos todos. Que era prometer que chegaríamos vivos e salvos ao fim do ano, entrados em janeiro, começados de novo. A resistir.

(Valter Hugo Mãe in: A desumanização)