terça-feira, 25 de outubro de 2016

Sempre por pouco...

Ela morre de medo de poder ser ela mesma. Ela morre de medo de se encontrar e por isso arruma todas as desculpas para continuar onde está. A sua tristeza é por reconhecer-se apenas diante do espelho ou de um elogio qualquer. Contradizer-se é a única coisa que sabe: para os outros lhe sobra confiança e direção, para dentro os seus vazios e angústias. A dizer-se sempre certa e sentir-se sempre errada. A sentir-se numa permanente dívida consigo pelo que não havia sido e por quem se permitira ser. A sentir-se em dívida consigo porque sempre lhe falta, porque nunca lhe é, porque sempre por pouco. Ela não lembra como nasceu. O que sabe é o que lembra e o que lembra é estar por aqui desde há muito tempo. Como num sonho em que simplesmente se está. Agarra-se às memórias como jeito de saber-se, como algo para contar aos outros e dar-lhe consistência. Apega-se ao que conta arrastando o passado que acredita ter sido como tal para que hoje ela própria possa ser. E engana-se por isso, ao contar a si do que guardou com partes manchadas pelo que doeu ou remendadas pelo que preferiu esquecer e, então, assim lembrar. Ela é protagonista do que não existe mais, pois está sempre a mudar. Ela não é mais a mesma, nem pode ser - ainda que tentasse. Mas vive presa aos enganos de ontem.

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