segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Para medicar-se...

Temos por hábito medicar tristezas e excessos da alma quando esta nos assusta. Isto pois a consciência se mais abundante revela-se em nós sua própria curteza. Medicamo-nos por conta dos paradoxos. Ansiosos para tornarmo-nos menos mortos mas sem vivermos por completo, e a tanto fugir do que sofremos que com o sofrimento nos encontramos: a vida decidimos então não poder andar. Nós, atrapalhados de sermos gente, para as urgências da cabeça e do corpo anestesiamos a cabeça e o corpo, agravando as distâncias entre o que somos. A religião, o poema, o remédio são formas de boa fé. De insistências. De se perseverar para ocupar nossos amanhãs. Isto porque nada acontece à revelia do amor ou da morte. Mas, por mau hábito frequentamos os destinos já medicados para as tristezas e para os excessos. E tão pouca gente consegue ser grande no tamanho da alma. Teimamos a contar-nos de nós coisas admiráveis pelo receio de nada se ter de admirável. Por isto, enganados pelo que acreditamos e nunca pelo que somos, adoecemos verdadeiramente de profundas e quase fatais tristezas. 

Coisa esta, sim, para medicar-se.

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