sábado, 1 de outubro de 2016

Aniversário...

Há exato um ano eu vim a morrer. Com a deselegância de um afogado, soube de minha morte como não soube da minha vida. Vim a perecer pelo desespero de quem perdeu a si mesmo sem esperanças por reaver-me. Morri com a pouca dignidade que juntei para viver. A falência das minhas verdades e o colapso das minhas mentiras decretaram-me o óbito. Sujeitei-me cortar nos próprios estilhaços pelo abismo que criei ao atirar-me junto aos futuros. Morri sem anúncios, avisos ou suspeitas: como indigente, calei-me pela vergonha de haver morrido. Calado por não haver aprendido o perdão. Calado por não haver sido fiel ao peito. Calado pelo passado atravessado à garganta. Calado por ver-me trancado à minha particular caixa de Pandora. Adoeci da morte que não planejei para curar-me da vida que não vivi. Há exato um ano que venho eu a renascer. Com a deselegância de um homem sempre atrasado; como promessa que se carrega para cumprir-se. Renasço entre às primeiras horas dos meus amanhãs. Renasço entre os medos que enfrento por ter me assustado quando morri; entre os sonhos estranhos que noturnamente despeço; entre as ilusões que cotidianamente despedaço; entre as sombras que abraço e as verdades que desminto. Renasço por haver feito as pazes com a lucidez. Renasço por haver-me tempo para ser outro no espelho que me vejo. Renasço carregando as dores todas de um parto reincidente. Renasço por dispensar anjos e demônios que aguardam-me desistente. Não o sou. Não o serei. Renasço porque seria-me pouco manter-me morto. Renasço por não haver saída ou fuga senão renascer. Aniversario a minha morte porque tenho vida para isto. E hoje sei, ando a morrer um pouco a cada dia para poder viver. Viver melhor.

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