quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Cafajeste...

Leva-se tempo para nascer entre o comum dos homens, original canalha. Assim como a natureza inclina-se em suas demoras para desenhar perfeição nas paisagens, igual se dá a construção do caráter genuinamente cafajeste. Ainda mais o cafajeste versado nos lirismos como meio e fim. Un hombre com o olhar de um Nelson Rodrigues aliada à paixão de um Vinícius. Um homem de sagrado ofício nos encantamentos da mulher, eivado de exclusivas dedicações às palavras como tentação e convite; com a precisa sutileza a seduzir, nos labirintosos caminhos da paixão, a alma de uma fêmea. Aliar os carnais desejos à poesia é uma daquelas raras probabilidades matemáticas que abençoam os poucos e únicos canalhordas da modernidade. Uma alquímica combinação de predicados e dons, a desenhar de forma ideal dentro do poeta, delicioso e sonoro canalha. Crê este homem - fruto do lírico pecado - ser a poesia sublime pretexto para as entregas. Crê também este homem, que a poesia nasceu mulher. Pois fruto do encanto e do desejo, impreciso e imperfeito, busca através do sagrado feminino, oculto nas curvas das letras e da mulher amada, dedicar-se e ser inteiro; ainda que a descarte no dia seguinte como páginas já percorridas de um livro já conhecido. Afinal, todo personagem em sua história tem seu tempo e sua vez. Ao poeta-canalha filho do tempo e dos desencontros, o que mesmo importa é a imutável natureza que permeia todas as fêmeas, e o inspira; o amor abstrato e imenso onde navegam seus corpos e movimentos, e que o seduz, para além das formas e nomes e telefones que coleciona. Assim se atreve, sintonizando alma com nudez, sexo com redenção. Alimenta-se das luxúrias que a linguagem nos concede para, tal qual serpente astuta do paraíso, envolver sua dama e presa nas artes do convencimento e da entrega. Deita-se a mulher pretendida na cama da poesia.

(Texto do meu livro: Teoria Geral do Desassossego)

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