domingo, 11 de setembro de 2016

Amargo...

Não, eu não sou um cara legal. Afinal, do que sabem os olhos quando não convivem comigo? Eu sou uma coleção de manias, pecados, neuroses, defeitos, esquisitices e encrencas que enganam muito bem o espelho, nos elogios de que me sirvo como terapia de que nada me serve. Quer exemplos? Sou um ressentido; lembro daquele dia cinza que você tingiu o meu céu em agosto de 1946. Sou de arder em azia pelas palavras que você disse e que eu não digeri bem naquele recreio da 6ª série; sou de me consumir em silêncio enquanto em alto e bom som prego sobre o perdão. Guardo cartas, imãs de geladeira e rancor, muito rancor. Cada pisada no meu pé e eu viro monstro. Uma ofensa tua que me corte equivale a trezentas ofensas minhas a te massacrar. Sou bem justo, como você pode perceber. O tratamento aqui se dá como se eu fosse a alma mais pura e você, o mais sujo vilão. Pinto ares de apocalipse pra qualquer vento mais forte. Cobro a cura dos meus arranhões quando não me preocupo em evitar tuas dores. Clamo vingança pelo ego doído enquanto verso a compaixão como minha natureza; isto quando me convém. Uso da violência para calar fragilidades e das palavras para conseguir o que eu quero, sem pesos ou medidas. Meus ciúmes são sintomas de controle; minha inveja é reflexo da pobreza; meu mal-querer é fruto de antigo coração partido. Sou demônio disfarçado de arcanjo que aprendeu a sorrir somente pra sorrisos receber; que aprendeu a falar dos milagres como digno de todos eles; que fala virtudes como se falar fosse o mesmo que vesti-las; que diz amor nas linhas para atenuar as faltas na carne. Troco qualquer nobre valor por conveniências que pro meu orgulho interessam. Guardo no bolso, mentiras, gentilezas, amantes, histórias e outros prêmios que uso para me enfeitar e me deixar bem aos olhos dos outros, enquanto silencio egoísmos e feiuras, jogando tudo pra debaixo do tapete. E pra que varrer se eu posso jogar a culpa em alguém? Acreditar que o inferno são os outros e que o mundo gira ao meu redor me absolve dos estragos que faço no jardim alheio. Mas você não vai perceber os meus avessos, porque comigo você não dura muito tempo. E saiba: minha bondade é apenas um verniz, uma fuga, propaganda, degrau em que piso para me sentir o mais alto dos mortais. Por debaixo da fina camada de doçura que fácil se arranha, há um gosto bem amargo que guardo em mim, difícil de engolir. Sou cego de alma, como eu jamais pude notar.

(Do meu livro "A Ilha de um homem só" publicado pela Editora Penalux)

2 comentários:

mム尺goん disse...

........em
queda
.
.
.
.
.
livre.............


abç

Ingrid Ravelly disse...

Parabéns pelo blog... simplesmente apaixonada...
Virei fã...
Beijos