segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Rio das flores...

Regressava uma vez mais do rio das flores. Era como dava nome aos seus sonhos com ela. O nome lhe era precioso, a despistá-lo temporariamente das tristezas mais cortantes que dele não se separavam. Os lençóis serviam-lhe à noite para as saudades. A janela, a fixar seu olhar despovoado de si. A tristeza quem lhe convocava junto aos cansaços para adormecer. Do rio das flores bebia o que havia de nunca mais morrer. Bebia para embriagar-se e lidar com os dias próximos, atravessando-os com o cuidado para não dissolver ausências. E antes que cada memória repousasse num lugar esquecido de seu próprio corpo, sonhava, para lá viver como quem tivesse feito o certo, amado certo, amado melhor, sem qualquer agressão às pétalas. Abria os olhos e ressentia-se. O medo era de não mais poder viver. Sair da cama numa manhã chuvosa de amor perdido era, definitivamente, um ato de coragem.

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