quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Comum...

É comum que regressemos do primeiro amor cheios de estranheza, filho. Seremos outros, chacoalhados como quem bate cabeça a entregar-se para as mortes seguida de violenta ressaca por continuar a existir. O primeiro amor é tratar-se de tropeçar no inevitável. Voltamos zangados com o mundo. Coisas em nós perdem sentido até que arranjemos outras destinações. Um intervalo abdicado das belezas. Inventaremos medos. Consultaremos desesperanças. Com as sobras de tempo, o tempo desperdiçaremos. Inclusive com monstros a falar-nos sobre a dor. Aprenderemos que tudo é feito de tudo isto, e tudo porque caímos para longe do primeiro amor. Há quem cicatrize a viver felicidade muito triste. Há quem deite a sofrer pelo amor sendo a única alegria a lhe restar. Só não será possível fugir, meu filho. Quem foge parecerá menos pessoa. Deveríamos sempre saber que o primeiro amor é apenas folha solta com que coração começa a escrever o poema. Apenas tristeza pode curar-nos definitivamente da lágrima.

Embora nunca em definitivo.

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