segunda-feira, 18 de julho de 2016

Prometo levar-te flores...

Depois de tudo e tanto meu amor, não precisarei matar-te dentro de mim. Lamento informar somente agora, mas havias morrido desde muito. O erro, confesso, foi não declarar antes teu óbito. Hoje o que está a doer-me não é o final - eu já esperava o dia para me livrar do teu cadáver - e sim a necessidade de encarar-me e abandonar o peso do passado que carrego. O que está a doer-me é voltar aos inteiros quando neles não caibo mais. O mofo, a mágoa e o medo que tua alma tornou a minha ocuparam o espaço das janelas para sair. A questão é que me desacostumei com a luz por conta da tua escuridão. Saiba, meu bem, enquanto me sufocavas com a tua demência eu te asfixiava com meu desinteresse. Por isto não choro qualquer adeus. Não há por quem chorar ou partir. Partido estou eu e, se nascem-me as lágrimas são por um passado que não aconteceu e pelo medo de encarar-me no que sobrou a colar os cacos. Choro, sim, de raiva por ter me tornado moribundo entre as tuas violências. O que me restou? Exorcizar-te e não lhe contar. Enganei-me acreditando ser ainda amor, enganei-te ao permitir teus passos ao lado de um homem vazio como defesa pelas dores que me deste. A tristeza não ocorre pela despedida, mas porque não sei para onde ir a encontrar-me com uma paz que hoje não alcanço. Tu te tornaste o fantasma do fantasma que me tornei. Sou eu agora a pagar o preço para ressuscitar, reanimar o amor próprio depois de acimentar doçuras e consignar levezas. E tudo para ficar contigo sem ficar comigo mesmo. Emprestei belezas que jamais poderia ter a ti emprestado, porque tu nunca devolveste. O que mais me dói é ter que recobrar a sanidade e encarar a vergonha de permitir-me perder tempo e ter sido o que jamais teria permitido-me ser. E ainda que eu seja toda esta aridez a lhe confessar, prometo levar-te flores. Num passado em que conseguimos nos amar porque nem no túmulo hoje mereces tu a minha visita.

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