terça-feira, 12 de julho de 2016

Problema...

O problema não foi nenhuma das nossas incontáveis, insuportáveis, intermináveis discussões; nas tardes lindas dos finais de semana em que passávamos mais tempo na cama apagando incêndios do que enamorados. O problema não foi seu incrível dom em arranjar problemas, ou até cisco no olho, naqueles dias pares e ímpares da nossa relação. O problema não foi o seu ciúme doentio, ou seus gritos, ou a sua falta de respeito, sua raiva desmesurada. O problema aqui, tampouco foi você sempre ter me sufocado, por tantas vezes me humilhado, condenado todo o meu passado, minhas escolhas e um dia quem eu fui. O problema não foi qualquer uma das minhas lágrimas, meu coração despedaçado, meu poço profundo de ressentimentos, minhas cartas rasgadas. O problema também não foi sua (in)vigilância, sua implicância, suas mil cobranças ou todas as suas tentativas de me controlar: corpo, mente e alma. Nem você ter estragado festas e noites, arruinado jantares, frustrado viagens, boicotado descansos, com pequenas bobagens que se tornaram vendavais. O problema não foi seu mau humor ser o pano de fundo da nossa história; ou todas as nossas brigas já previstas na agenda. Também não foi o meu desespero casado com a tua falta de lucidez. O problema não foi você ter despertado minhas sombras e demônios que jamais precisariam ter sido despertados. O desespero, a frustração, a nossa violência física, verbal e espiritual. Ou noites muito mal dormidas e lembranças doídas. O problema não foram seus dramas, suas mentiras ou qualquer uma das suas prisões: ter feito do medo, o ar que eu respiro; ter feito do peito, uma coleção de feiuras; ter como vício não ser feliz. A questão não foi você ter feito o inferno parecer parquinho infantil, e o amargo o pão nosso de cada dia. Não, o problema não foi eu não mais no amor ter crido, ou estar na vida morto enquanto vivo, ter por você adoecido, ou ter por completo apodrecido. O problema mesmo, meu bem, foi você um dia ter nascido.

2 comentários:

Ale. S. disse...

dor de amor...

ivani ramos disse...

Belíssimo!
Nada como a poética para decifrar e explicar as emoções humanas.
Cada dia com sua glória, cada dia com sua dor...