terça-feira, 26 de julho de 2016

O jogo...

Viver vai além do que se quer garantir; do que se deseja controlar; do que se espera acontecer. Apesar da falta e do excesso de sentido desta vida, vive-se. Vive-se apesar de, apesar das: ânsias, angústias, esperas: pelo dia do pagamento, pelas férias, pelo final de semana, pelo final do campeonato, pelo fim do expediente, pelo churrasco de domingo, por um amor qualquer ou por qualquer amanhã onde se espera ser feliz. Viver vai bem além do que reconhecemos como viver. Apesar da ansiedade e do medo que nos anulam no presente, vivemos. Além do que ignoramos e insistimos para não sofrer, do que nos sujeitamos para não sofrer, vivemos. E sofremos exatamente pelo que insistimos, ignoramos, nos sujeitamos. Além do egoísmo que escondemos, da inveja que negamos, dos ciúmes que calamos, das mágoas cultivadas, das culpas cativadas, da impaciência praticada, das verdades aumentadas, das mentiras sustentadas, vivemos. Viver nos acontece além das justificativas de que o erro não é nosso, embora o cativeiro seja. Colonizados pela rotina, pelo espelho, pelas dietas, pelas ausências, pelos cansaços, pelas ocupações que nos distraem das misérias acumuladas nos anos perdidos. Vive-se apesar do celular, da compulsão, do sono interrompido, do sonho posto de lado, da tristeza de estimação, dos remédios usados para se lidar com aquilo que o peito não conseguiu.

O jogo que não aceitamos perder é o mesmo que não pode ser vencido.
E é por isto e só por isto - por não aceitarmos - que vivemos a perder.

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