sexta-feira, 1 de julho de 2016

O homem absurdo...

Era um homem absurdo; vivendo ansioso por carregar-se em cada pensamento; por carregar-se no medo de ser ele mesmo. Arrastava vazios com todo o peso de si e admitia ser para si mesmo metade; isto a ele bastava. Qual seria o poder que haveria de ter se se soubesse? Como despertaria cheio de vontades e sonhos? Ocuparia o lugar inteiro do mundo, justificando-se quando até agora um rascunho, um improviso. Qual dor não traria esta lucidez?  Era um homem absurdo. Por deixar-se vítima; ser vítima dos outros era lucrar com algo que não era, permitindo tristeza à paisana, a raiva pronta para o ataque, a sorte a buscar sempre o erro, o coração sempre burro descalço à beira dos abismos. Sem responsabilidades para ser reflexo, preferia-se assim a saber-se. Encontrar-se é resolver-se e isto é dar o que se tem. Todos damos o que não temos, e no prejuízo saímos fingindo que estamos todos a ganhar, com a vida e os sorrisos em dia. Resolver-se é enxergar aquilo que se poder enxergar; tornando o óbvio, óbvio. E por que se atreveria a isso? Era um homem absurdo, como todos os outros homens. Um homem inseguro e covarde é capaz de tudo, menos de enxergar para buscar-se em paz. Esta, entre todas e tantas, não era a sua maior ambição.

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