sexta-feira, 15 de julho de 2016

Narrativa...

Tenho nascido desde o início dos anos 80 até então e, ultimamente, não há um só dia que não venha a morrer. Aprender a morrer leva talvez mais tempo do que se vive e do que se aprende a viver. Sabes bem que isto não se trata de outra coisa senão de amor. Desde o cessar das pequenas coisas até a perda das coisas maiores. A morte dos amores por qualquer partida. A morte dá-nos singular e provisória percepção sobre a vida quando uma na outra se encosta, depois dissolvida no tempo e no cotidiano: este, a devorar-nos as sensibilidades. É pela devoração que aprendemos a amar com distâncias para não sofrermos aquilo que nos é inevitável: a perda. É pela devoração que aprendemos o medo, a fechar portas, abrir com cuidado as janelas, interpretar os sonhos. Buscamos no amor exatamente o que nele afastamos: motivos a sairmos do exílio no qual ininterruptamente nos colocamos. Amar é repatriar-se na vida. Viver é desaprender a morrer, e seguir. Morrer é doer para esquecer de doer, e viver. Porque torna o amor tudo o que atravessou feito de memórias. Os móveis de casa toco para sentir histórias. Meu corpo é uma costura de referências. O cheiro do café lembra-me a infância. Um livro trouxe-me de volta minha vó. Uma música devolve-me o primeiro beijo. Tenho morrido repetidamente para aprender corretamente a esquecer; isto porque grifamos estupidamente o amor quando este se torna saudade ou tristeza. Tenho nascido repetidamente para aprender corretamente a lembrar; para não perder aquilo que já perdi por não esperar o tempo de amadurecer: olhar, abraçar o suficiente, calar, declarar-se o suficiente, pedir perdão, perdoar, amar melhor. Somente o amor concede-nos prever o futuro, reparar o passado, suspender o presente, ainda que imprevisível o futuro, irreparável o passado e contínuo o presente. O amor permite-nos esta paradoxal narrativa que melhor se explica quanto melhor nos desesplica, absolvendo-nos das maneiras mais severas da sua ausência.

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