sábado, 4 de junho de 2016

Vela...

Ela continua a pensar em mim. E não há fracasso que a impeça disto. Ela continua a aguardar que seja o tempo a se arrepender e volte. Que o tempo volte e restaure o que por nós foi desfeito. De alguma maneira ela sofre com detalhes para passar a limpo nosso passado. De alguma maneira ela insiste nos detalhes para passar a limpo nossos pecados. Ela intenciona o absurdo. E não há fracasso a impedi-la disto. Ela busca ser reincidente no amor perdido. Isto porque crê não haver mais o que fazer depois que se perde o amor. Sonha, escreve, lê e chora como se pudesse resolver o passado. Como se fosse possível corrigir a rota do que com o final já colidiu. Alivia-se repetidamente no que guarda. Angustia-se repetidamente no que deveria esquecer. Como a ferida que deixou de doer mas limita os movimentos, o que fomos limita sua vida para dentro de si ainda sermos e estarmos. Consagra-nos, assim, não no romance, mas na tristeza que trouxe como sequela. A perversidade de voltar ao que não se pode e o prazer de voltar ao que não se deve. Como se em alguma das visitas à memória pudesse encontrar algo a resolver-nos. Algo desavisado a dissolver o sofrimento, o apego e devolvê-la a algum futuro. Algo para sentir que a alivie de sentir. O que soube ser amor amplificou seus medos, deu-lhe ansiedades, revelou mágoas, denunciou raivas. O que soube ser amor a diminuiu para não caber mais nada. O que soube ser amor oferece diariamente o veneno que recusa matá-la de vez. Ela continua a pensar em mim para não mais em mim pensar, e ainda insiste por não conseguir nos perdoar. Reviverá o passado para não arruinar-se no inevitável. Reviverá o passado para tentar arrumá-lo. Não sabe que o perdão é a única maneira de resolvê-lo. E não há fracasso que a impeça disto. Ela apenas desconhece. Pois não é o amor a questão. Ela me amou como vela que a ambos queimou e em seguida apagou-se. 

Amei-a da mesma forma.

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