sábado, 25 de junho de 2016

Ontens...

O ontem me parece ser o único lugar onde não me é possível exigir e cobrar-me nada além daquilo que já fui. Pois não há urgências no ontem, ainda que sintamos a angústia como seus efeitos. Ali posso descansar-me no mesmo, sem correr os sagrados riscos em viver maiores alturas e eventualmente morrer de amor. O ontem é terreno fértil para distorções e ruas sem saída; e há gente de todo o tipo que ali se culpa dizendo que por lá se perdoou. Há quem volte ao ontem com habitualidade impressionante. Há quem o traga dispensando o próprio presente. Há quem, por isto, despeça-se dos amanhãs como se nunca mais fosse voltar a vê-los, numa viagem sem volta patrocinada pela tristeza a algum passado a dar-nos asilo e qualquer familiar conforto ainda que igualmente nos prenda. O excesso de ontens que colecionamos distancia-nos de nós mesmos pela repetição que anestesia-nos para os agoras. Ainda que os amanhãs façam caminhar as saudades, ontens em demasia as apodrecem dentro da gente. E não me parece acertado viver num lugar onde o sonhar jamais poderá fazer morada.

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