quarta-feira, 1 de junho de 2016

O paradoxo...

O coração não pondera as tempestades. Cúmplices, acreditamos que devemos naufragar; que devemos sempre naufragar por acreditarmos que não valemos coisa para sermos salvos. Afinal, tão cheios de nada, por que mereceríamos? Por conta do passado castigamo-nos para não haver futuros. Culpamo-nos para nos desculparmos; jeito tonto que encontramos para aliviar-nos enquanto sofremos; a culpa como punição e justificativa pelo que não fomos e pelo que não conseguimos ser. O paradoxo que não enxergamos é aquele que vivemos: queremos nos aceitar como somos sem aceitarmos como somos; queremos ser aquele que viremos a aceitar a partir do que ainda não aceitamos; queremos deixar de ser isto sem olharmos para isto. Insistimos na miopia e na culpa sem perceber que na culpa insistimos porque míopes. Dizemos olhar para o que somos, mas sem jamais o amor necessário. Apontamos para nossas limitações com ansiedade, para nossas frustrações com mágoas, para nosso passado com ressentimentos, para nossas fraquezas com intolerância. Olhamos sem enxergar porque sem compaixão. Somos implacáveis críticos de nós mesmos sem espaço para o perdoar. Assim, negamo-nos, pois, ao encontrarmos nossos inevitáveis escuros, logo somos maus sem direito a recomeços. E o que sobra-nos de bom não se faz suficiente visto que não sabemos do perdão. E sem sabermos o que ele é, remendamo-nos com mentiras e dores seguindo adiante presos em algum lugar. Por isso nos partimos, fracionados entre as partes que merecem a vitrine daquelas que ocultamos no porão sem qualquer voz. Não há verdade que se encontre pela metade, e é exatamente assim que vivemos: sendo menos do que somos, sendo impossível qualquer paz. A compaixão devolve-nos a nós mesmos, aceitando nossas variáveis, fraquezas e fragilidades sem distanciá-las a nos convencermos de que somos o que não somos. Só podemos despedir aquilo que aceitamos, e a compaixão é o descanso do mau hábito de rejeitarmos as partes do que inteiro é. A reeducação pela compaixão é trabalho árduo de colocarmos o dedo na ferida que fingimos por tanto tempo nunca haver.

A compaixão concede-nos a lucidez e a limpidez dos olhos para saber do peito.
A compaixão permite que nos amemos como gostaríamos de sermos amados.

2 comentários:

Milene Cristina disse...

Nos castigamos no desejo de sermos verdadeiros no sorriso ou mesmo na dor.

Poeta da Colina disse...

"Parte Coração"- Pedro Luís e Rodrigo Maranhão