domingo, 15 de maio de 2016

Responsabilidade...

Um livro é uma responsabilidade; nem tanto para o escritor e sim para o leitor. Ao escritor cumpre nascer e morrer, sucessivas vezes na obra realizada, sem poder disto se desviar, cada vez que esta é lida, relida, rememorada, comentada, abandonada, posta em xeque. Ao leitor cumpre o não morrer, mas renascer repetidas vezes, quantas vezes possa aproveitar-se da leitura, negando-a ou a afirmando. Ao leitor cabe devoção aos seus próprios olhos, carecendo para isso de algum esforço. A sabedoria encontra-se não exatamente nas páginas, mas na maneira que com as palavras semeadas trarão para ele a revelação dos seus invernos e primaveras. Do leitor espera-se a crítica, a reflexão, uma reação que o leve a ser outro depois do livro atravessado. Do leitor espera-se que abra a porta e leve tapas na cara. Do leitor espera-se que abra a janela e ganhe beijos na boca. Do leitor aguarda-se realizar algum desejo de alguma forma na literatura: sentir-se mais vivo ou menos morto, sentir-se outro ou a si próprio como um ineditismo, para que ouça as verdades para as quais ainda não se havia até então atentado.

Nenhum comentário: