domingo, 22 de maio de 2016

O outro...

Talvez seja preciso irmos um pouco além do que acreditamos. Talvez seja preciso lidarmos com o que convenientemente vivemos a negar. Talvez seja preciso lembrarmos de que o outro é o nosso espelho e que aquilo do que nele vemos é exatamente o que não enxergamos em nós. Talvez seja essencial lembrarmos que o outro é também a nossa própria projeção. O que recusamos em nós, acusamos no próximo. O outro poderá despertar em nós a raiva, a impaciência, a insegurança, o ciúmes, a inveja, por conta do que mal resolvido trouxemos e que atualizamos nas nossas relações presentes. A auto estima será posta em xeque diariamente através de quem nos atravessa, e o outro é o convite e a provocação para a nossa própria e incômoda confissão ao refletir a nossa imagem. Através da relação com o outro me reconheço no que sou ou no que não carrego. Apenas com o tempo contínuo a projeção será diluída, sobrando-nos a verdade do outro a comunicar a nossa própria verdade, antes oculta pelas qualidades e ideias que somente elas insistíamos ver. Não há saída, pois, seremos ou desmascarados pela ilusão ou entregues pela realidade. Não há nada fora que nos incomode que não seja algo dentro a nos incomodar. Não há o que critiquemos que não seja algo que possamos criticar em nós. Não há nada do outro que não seja nosso, e vice-versa. Seremos sempre as convenientes vítimas de nós mesmos ao nos enganarmos em apontarmos para alguém culpas como desculpas para não assumirmos a responsabilidade pelo que tão difícil nos parece assumir.

Talvez seja essencial lembrarmos que o outro somos nós, e que nós somos o outro. E que não há diferença. Se assim nos parece, trata-se desta ilusão que insistimos manter. 
E sofrer por ela.

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