terça-feira, 10 de maio de 2016

Nada é como queremos...

Tu és aquela que habita os escuros do meu pensamento destroçado. A quem tanto neguei para afirmar-me, agora que te ponho distante, busco afirmar-te. Afirmar-te como peça minha, página minha, parte do que fui, projeção das memórias tristes que colecionei e hoje volto a sentir, rever, reviver para despedir. Sinto-te para não te mais sentir. O que tu és hoje me é saudade - mas saudade do quê, meu Deus, se tudo nos era tragédia? Acredito que tu sejas a minha própria sombra a que dei o teu nome para que através dele eu possa atravessar o que muito me atravessou: os medos, as vinganças, as mortes e as humilhações que calei fundo demais para contigo continuar seguindo sem nos matarmos num adiante que tornava-se denso, insuportável e para nós anunciando o inevitável: o de que não seríamos mais. Do imperdoável nasceu-me a necessidade do perdão para continuar-me. E tu és aquela que habita minha casa para que dela tu então possas partir. Porque a vida sem ti já não me dói. O que era o que tanto queria quando contigo.

Nada é como queremos, não?

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