segunda-feira, 16 de maio de 2016

Coma profundo...

Queridos camafeus de nozes,

Uma narrativa constrói-se através da compreensão dos acontecimentos. Se esta compreensão é apreendida através dos conceitos de algo que busca através da relação destes mesmos conceitos explicar a realidade, o risco é encaixarmos o que as coisas são nas conclusões a que chegaremos, e assim, a realidade ficará de fora. 

Pode-se não perceber o quanto se é afetado por comprar discursos onde há coerência, mas não verdade. Onde há certezas, mas não verdade. Não à toa a lógica é uma ciência e a argumentação uma arte. Todas elas bem longe das opiniões de facebook. 

A realidade não será enxergada, ou melhor, será sim, pelo filtro permitido entre o sujeito e a própria realidade. Um filtro feito de ideias anteriores a moldar os olhos de quem vê.

A ideologia é isto, e pressupõe que as ideias e certezas que promove são anteriores à realidade que a explica, encaixando esta no inevitável limitado tamanho daquela.

A partir de então e de maneira sutil, a realidade passará pela legitimidade do que o sujeito entender como legítimo, dizendo o que a realidade é pelo que ela deve ser. Outras narrativas serão tidas como falsas, canalhas, burras, etc.

São poucos os que se permitem ir para o outro lado e entender como o outro é e vê. Na impossibilidade, nega-se. Na impossibilidade, acusa-se, odeia-se, destrói-se. Afinal, a verdade é minha e o erro, do outro. A leitura é minha e a miopia, do outro. A bondade é minha e a maldade, do outro. 

A simplificação das coisas elimina o raciocínio e por consequência a verdadeira reflexão. Compraremos certezas com rótulos de verdades que ditarão silenciosamente o que as coisas são por como devemos entender o que as coisas são. Sem qualquer possibilidade de fuga.

O sujeito acredita que pensa sozinho mas sozinho ele não pensa. Ele pensa que vê mas enxerga a sua própria projeção. E ele acredita que sabe, mas na maioria das vezes ele acredita. Acredita que sabe. Acredita que vê.

Suas conclusões são influenciadas pelas preferências, equívocos, pontos cegos, emoções, etc. Emprestam-lhe deduções e pré-conceitos, cenários e cores. Quão difícil é enxergarmos as falhas do nosso próprio pensamento?

Nós tateamos a realidade através da linguagem; e se esta for limitada você entenderá a partir dos cacoetes verbais e mentais que explicam uma coisa ignorando outra, distorcendo tudo adiante.

Uma coisa poderá ser outra coisa de acordo com a intenção e a articulação das palavras. Assim foram com os sofistas. Assim apareceu Sócrates para por ordem no barraco.

E assim voltamos para a cena política, onde uma palavra torna-se outra e esta outra torna-se conveniente para alguma narrativa. Assim nos encontramos, onde nos sabemos certo e o outro absolutamente errado.

Aqui, poucos pensam. Aqui, muitos pensam que pensam. 
Assim se aproveitam tanto destes quanto daqueles.

Assim, os idiotas úteis que jamais saberão idiotas úteis, servirão a propagar através da legimitidade concedida pelas suas cartilhas, a compreensão da realidade e o interesse de muitos.

Ontem, comemos o pão que o diabo amassou.
Hoje, o diabo que nos carregue.

A nossa inteligência está em coma profundo.

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