sábado, 2 de abril de 2016

Talentos...

Se tem coisa que muito me sobra é o talento que tenho para reunir talentos. Variados deles. Vejam, há talentos que não são como toda sorte de gente pensa ou deseja. Há os que nada tem que ver com técnicas e engenhos a realizar feitos por aí afora. Há, por exemplo, os que se tratam de uma facilidade para nada fazer ou os que carregam habilidade em se lascar. E este é o meu caso. Tenho talentos, por exemplo, para ser o que não quero e fazer o que não me apetece. Talentos em adiar compromissos ou aceitá-los todos para o mesmo dia e hora. Talentos para perder as horas e procrastinar a vida. Talentos para falar merda e não pensar duas vezes. Talentos para não lavar pratos e esquecer o feijão no fogo. Um talento hollywoodiano para as preguiças. Todas elas. Em suma, tenho habilidades em fazer merda e apagar incêndios depois. Eu sempre nadei contra a corrente destas minhas inclinações. O meu plano que por muito tempo havia sido ser um revolucionário tornando-me um outro novo que não um velho eu, nunca foi posto em prática. Sempre o executei em fases e parcelas, adiando reestréias e reformas, alongando mesmices e mudando detalhes, um aqui outro acolá, fazendo com que o plano deixasse de ter mesmo qualquer coisa de revolucionário. Então percebi o que havia necessidade de perceber e é aí onde se encontra a defesa que faço. Para ser e continuar sendo o melhor em cada um destes talentos, não careço de esforços nem ensaios. Eles me caem bem e com muita facilidade. A conclusão é que talento pode ser muitas coisas, menos sofrer por querermos ser tudo o que não somos, ainda mais com vistas a agradarmos alguém. Quando diz o filósofo que o inferno são os outros, penso que inferno seja a falta de tolerância para com os outros que se incomodam com aquele que pouco se incomoda consigo mesmo. Por isso elogio os talentos que fazem de mim quem sou, seja lá como sou, ao contrário da luta contra estas queridas características e outros simpáticos pecados. Uma coisa é disciplina, a outra é o talento para sermos fluídos. Uma é imposição, a outra aceitação. Uma não exclui a outra, e o que não se pode é a outra anular esta uma. Para sermos o que os outros nos pedem temos mandamentos e manuais, mas nenhum apontamento sobre como sermos nós mesmos. 

Reconhecendo-nos e nos perdoando. 
E seguindo adiante.

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