terça-feira, 12 de abril de 2016

Para quando acordar...

Talvez o amor fosse um modo de envelhecer. O amor colocara os meus amigos, irmãos e as coisas todas a envelhecer. O tempo também se conta distorcido pelos amores. Talvez por isso, sinta-me tanto com cem como com um pouco mais de dez anos. Pelos amores que magoaram-me e decidi não serem amor. Pelas paixões que acenderam-me e que depois pensei amar. Pelas amizades que floresceram-me e que depois soube ser o que amor é. Pelo amar que reincidi nas manhãs de outono. Pelas demoras de esperar o próximo. Pelas distâncias de aguardar o mesmo. Entre somas e subtrações sobrou-me apenas o coração. Como se por tê-lo restado soubesse melhor o que fazia; o que sentia; quem eu era. E exatamente o contrário disto. Mas, como fosse, permitido de fazer futuros com ele. Quem sabe o futuro servisse, entre outras coisas, para desentristecer o passado e alegrar o coração como pássaro que visitamos a gaiola. Acreditava existir em mim dois corações: um a pulsar-me os sangues e guardar lugar para as tristezas. Como nas gaiolas. E este outro, um ainda não crescido, a estrear-se para a felicidade e levar-me junto com ele. Deitava-me toda a noite com esperanças de sonhá-lo. Para quando acordar, vivê-lo. 

Assim eu desejava.

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