sábado, 30 de abril de 2016

O lado silente do poema...

O mundo se cala quando choro. Ficam apenas os ventos à superfície a empurrar pequenas coisas vulgares. Enquanto choro estabeleço o lugar exato de mim e coerência ao tempo para que se aquiete; que se descanse enquanto sou. Possuem-me as lágrimas e eu nada mais possuo, e isto me agrada. A vida se revela em mim quando choro. Chorar exige-me todo para um só lugar em que choro, deixando-me para o lado mais vazio das coisas. A lágrima dá-me substância e intensidade de quem sepulta pressas e barulhos. Para além delas, não sou verdade. Significo-me com o meu corpo inteiro: limpo ou sujo, todo eu no aqui me pertenço. Difícil dizer coisas que não se sabem ser ditas; tão silenciosas como a breve lucidez que entrega-nos desprevenidos ao que sentimos. A renúncia de que nada mais seja além do ato mesmo de chorar, prestando atenção ao dentro, subtraído todos os cenários. Choro e não penso; absorvo-o e permito-me sentir a realidade que não frequento entre os dias comuns. Sem pensar e sem mais o que em mim perseguir, sinto-me livre para os limites da minha possibilidade. A fugaz libertação dos papéis, diálogos, compromissos, personagens e o medo de que inevitavelmente voltarei a me recompor e continuar consumindo minha vida pelas metades sem chegar antes a nada.

A lágrima é o lado absolutamente silente do poema.

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