sexta-feira, 8 de abril de 2016

Mesa de bar...

Não há crise que se sustente nem angústia que não se diminua numa mesa de bar. Diante da atual intolerância social e religiosa, o boteco é o templo contemporâneo que a todos aceita, sem distinções. A mesa de bar é o divã com colarinho e bolinho de bacalhau. Confessionário com burburinho e música ao vivo. Ali, amigo vira filósofo, economista, fofoqueiro, jurista, conselheiro amoroso ou qualquer outra coisa que se exija o assunto. Juntos, tornam-se assembléia de especialistas. Ou palpiteiros, tanto faz. Gosto da cerveja e da prosa fácil na mesa do bar. Tabuleiro em que se põe em xeque as dúvidas e se (re)descobrem certezas. Ao chegarmos penduraremos na cadeira nossas armaduras e demais seriedades. Convocaremos o garçom, gênio moderno a atender nossos pedidos. A cerveja, lúdica, pede-nos este ritual. A patrocinar nossas ideias. A brindar nossa existência. Beberemos todas as nossas emoções. O boteco é o álibi, o culpado e a testemunha, tanto da nossa coragem como das nossas fraquezas. Ali, histórias se desenrolarão com a imponência de um teatro grego. As confissões com detalhes de um sistema filosófico. A mesa do bar é a renovação rotineira das nossas esperanças. A terapia estendida aos finais de semana. Afinal, há bares que vem para o bem. E um homem sem bar é definitivamente um órfão, um pagão.

O boteco é a nossa alma pronta pra festa.

Um comentário:

Poeta da Colina disse...

O maior receio é que as decisões venham para o mal.

Sensacional prosa!