sábado, 16 de abril de 2016

Espetáculo da aflição...

Eu gostaria de escrever para te dizimar, para me despedir e te desabrigar de mim; responsabilizar-te por todas as dores e erros que suportou meu coração. Como não sou corajoso para além das reticências, fiz da minha raiva o meu diário que me envenena por não saber te envenenar. Sou adiada revolução: uma abafada e doída revolta. E não posso buscar vingança nas letras ou em qualquer outro lugar porque me impede a parte lúcida e não naufragada de mim. Teu amor foi cilada que me despreparou para os amanhãs, destroçou meu amor próprio e impropriamente consagrou apenas meu passado. Lá, eu era mais. Antes de ti, eu era angélico. Depois de ti, tudo é infernal. Queria manter-me naquela ignorância de um sofrer que tão bem me ensinaste. Enquanto não te mato, não consigo renascer. Enquanto não te despejo, não posso mais chegar em mim. Os dias tornaram-se carrossel a dar-me vertigens e cansaço. Destruo-me com minhas contradições, por querer te aproximar e nunca mais te ver; ao querer saber de ti para nunca mais saber. Quero ser lágrima a me aliviar e desesperadoramente voltar a sorrir, sem a ajuda de falsas esperanças ou distrações em que te enterro num breve esquecimento. Saiba, eu também quero tua alma livre, menos que a minha. Quero teu sorriso largo, menor que o meu. A ausência tua evidenciou os meus defeitos. A tua partida pôs os meus pecados no lugar. O que sei é ser meus ciúmes sintomas de magoada insegurança: um apego ressentido por ter que se desapegar. Sou encruzilhada que se carrega e a nenhum lugar leva. Meu pedido de socorro é este meu silêncio em que tento matar-te sufocada e deixar-te viva também. Contigo nunca vivi bons sonhos, mas eras somente tu a dar-me razões para sonhar. Ao desejar te cortar, sangro. Ao querer te amar, morro. Ao tentar te aniquilar, mais vives em mim. Sou um espetáculo da aflição. 

Uma constante luta para ser quem eu nunca fui, e para um dia voltar a ser.

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