segunda-feira, 25 de abril de 2016

Âncoras...

A lucidez derrama-se sobre as palavras revelando-nos o padrão: a obediência ao óbvio que somos e ao lugar que ocupamos; como fórmula matemática de que padecemos; em que adequamos o incrível ao conforme e o peito aos previsíveis resultados de seus infortúnios. As palavras oferecem equação onde se é possível traçar a rota de colisão com as tristezas. Um sistema onde se é permitido saber quais vazios atraem quais ausências e como através deles nos relacionamos. Uma janela a mostrar-nos o que sobrevém às reações: depois da perda, depois do outro, depois de tudo ou mesmo antes; roteiros de diálogos prontos e calculados silêncios. A palavra antevê os passos ao descrevê-los. A leitura exata sobre os passados a dar-nos o preciso diagnóstico dos amanhãs previstos como labirinto emocional; um capítulo a mais incompleto e mal redigido por cada um de nós. A poesia e o amor concede-nos a liberdade do imprevisível; tabuleiro de peças excelentes que não mais se resumem a estreitos movimentos, anunciando derrotas e desfechos antecipados. Escrevemos por isto: desmentir os destinos. Amamos para desarmar agendas e corrigirmos a linha da vida no olhar das cartomantes. A poesia para rebelar-se contra a exatidão, contra a rotina. O amor a desviar-nos do cotidiano. O amor a calar os cinzas. Escrevemos para adestrarmos o medo e dele despedirmos ao amar. O medo é o padrão, o porão, o senão, o contrato, a promessa ameaçada, corredor sem porta ou enfeites, caminho seguro sem milagres; prisão a que nos permitimos banhos de sol e uma breve soltura das nossas âncoras.

A poesia sempre matou o medo.

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