terça-feira, 8 de março de 2016

Baralhar...

Queria ela assombrar seus próprios fantasmas tanto quanto eles a assombravam. Ela, esperta de tantas manias avisava-lhes de que morreria por coração partido; a perderem as dignidades e a razão de ser, pois morto só sabe falecer e para nada presta. Dava-lhes seus poucos segredos para que dela se desinteressassem; oferecia-lhes boca cheia de conversas para que prestassem atenção: acreditava que distrai-los seria como sair de onde se está. Contava como a solidão era companhia suficiente para engolir a todos. Contava sobre seus sonhos como pequenos jardins de ir embora. E ameaçava sonhar, partindo a cada noite de si para lugar algum. Sonhar era jeito de não ser; esconderijo adequado para abrigar-se enquanto buscava solução. Queria resolver os seus fantasmas. Como numa equação: extingui-los arrumando com elegância o seu passado. Queria ser alguém longe de si. Acreditava que assim resolveria. Sem instruções, sem saber como. Deixando apenas migalhas e outras pequenas tristezas frente ao espelho. Para confundi-los. Para baralhar seus fantasmas surpresos com o destino que não se revela nos reflexos do que não se é mais. E a cada ausência e outra entre as noites aprendeu o arrependimento para assombrá-los, e com isto, desaparecerem. 

Conseguiu tapar a boca dos medos para respirar e viver por si mesma.

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