quarta-feira, 2 de março de 2016

Adeus...

Ele queria poder encerrar casos, romper os laços e despedir-se sem o sopro contínuo dos seus medos; medos que lhe faziam considerar coisas que não deveriam estar na pauta dos seus pensamentos. O medo lhe atentava às coisas mais estúpidas e triviais como dedicatórias, letras de música e empoeiradas lembranças que serviam-lhe de uso apenas para mantê-lo preso ao medo de arrepender-se e nunca mais viver o que, ironicamente, nunca mais viveu. O medo ante a irrecuperável queda nos abismos dava-lhe um falso otimismo. Assim, aliviava-se temporariamente por forçar-se acreditar que ainda poderia ser diferente daquilo que nunca mais fora igual. Cultivava o medo de se lamentar para os sempres. O temor de se ver merecedor de nada convenceu-o a não precisar atravessar suas covardias e apegos. Viu no horóscopo que se tratava de má semana para decisões e que deveria esperar então pela próxima. Ou a próxima. Levou em conta crenças que não tem: karma, dharma, lições sobre resignação, mas contrariou resposta libertadora das cartas e dos búzios. O medo dava-lhe a culpa e a sensação de que só sabia errar. Sentia-se errado. Sentia-se um erro. E por isso jamais acertaria novamente. Passou a dormir demais para conseguir sonhar. Era o único jeito para esquecer os seus amargos, sem sentir gosto algum.

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