sexta-feira, 25 de março de 2016

A raiva...

A raiva é como atirar pedras à boca de deus; passando nós a valermos mais pelas misérias do que por qualquer outra coisa. Admiramo-nos com isso, como se tomássemos um poder a dar-nos coragens e violências de sermos deuses ciumentos e soberbos, para perdermos tudo logo a seguir, sobrando-nos as covardias e os remorsos e o que mais cabe em nosso próprio tamanho. A raiva depois de sua fúria, confessa o medo de tocarmos os nossos próprios escuros; e lá dentro respirarmos: os passados tristes; os poemas velhos; os venenos todos; as ausências todas; as inconclusões; as impaciências; a soma de tudo e a frustração ilimitada disto. A estupidez como filha que jamais reconhecemos. Avançamos o tempo da vida sem consertarmos a própria. Avançamos a nós mesmos sem mais nos alcançarmos. Como uma bênção desesperada, contamos histórias; em que somos outros para nos protegermos das nossas feridas. Contamos histórias para acreditarmos nelas, aprisionando-nos na própria narrativa. A verdade, ficará de fora; para não nos assustarmos; para não termos que fazer algo. Concedemos lugar à mesa apenas às mentiras; proibindo-nos a confissão de que as violências são modos de fragilidade. A raiva, as culpas, a mágoa, os ciúmes são os frutos do quintal de uma casa que habitamos e que do cômodo jamais saímos.


Um jeito de estarmos menos mortos enquanto vivos.

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